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2021 sem folia

Carnaval e o ano que passou

Neste ano é recomendável ficar em casa. E nesta de ficar em casa vale a pena pensar sobre a maior festa popular brasileira

Públicado em 

11 fev 2021 às 02:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

comissão de frente da mangueira
Desfile da Mangueira em 2020, no Rio de Janeiro Crédito: Wilton Júnior/ ESTADÃO
Na toada indicada no samba de Zé Keti, este ano o carnaval vai ser diferente daquele que passou. Com uma diferença: no passado a gente brincou e neste ano é recomendável ficar em casa. E nesta de ficar em casa vale a pena pensar sobre a maior festa popular brasileira – com toda a beleza de sua diversidade regional, de ritmos, de enredos – enquanto momento em que a cultura se expressa criticamente. Crítica ao racismo, ao machismo, à homofobia, à exclusão social, ao descaso para com a Mãe Terra e tantas outras questões estruturais na sociedade.
Para quem acompanhou o carnaval capixaba no ano que passou, lá esteve o posicionamento da Novo Império nos chacoalhando para com quem porta futuro. O carnavalesco Peterson Alves trouxe o tema crianças para além dos contos de fada e criou um enredo que falava sobre os direitos que todas elas têm. 
Direitos básicos como à vida, ao banho, a brincar, a estudar, a sonhar. Sonhar no sentido de construir suas próprias utopias, o que foi lembrado em um outro carnaval de cidade média, São José dos Campos, SP, pelo bloco EuRECA (Eu Reconheço o Estatuto da Criança e do Adolescente): ‘Como vocês se atrevem apagar a minha história, limitar minha memória, massacrar nossa nação?’
No Rio, a Mangueira se colocou como estação primeira de Nazaré, de rosto negro, sangue índio, corpo de mulher, moleque pelintra no buraco quente, todos com o nome de Jesus da gente. Filho de Maria das dores Brasil e de um carpinteiro desempregado; que questiona se foi entendido em seu recado dependurado em cordéis e corcovados. Principalmente quando sente seu corpo cravejado uma vez mais pelos profetas da intolerância. Diante disso, a metáfora de Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo, sinaliza que inexiste futuro sem partilha e muito menos messias com arma na mão.
O desfile do Galo da Madrugada, o maior bloco de carnaval do mundo, segundo o Guiness Book, no Centro do Recife teve espaço para tudo. Inclusive para repercutir criticamente o terraplanismo que impera no governo federal ao lembrar a resposta de um de seus integrantes quando afirmou que diante do crime ambiental com óleo em outubro de 2019: “...os peixes eram inteligentes e desviariam do óleo...”. Terraplanismo que também foi ironizado por bloco de rua de Belo Horizonte no enredo ‘tchanzinho Zona Norte irá ao fim da Terra Plana’.
Em São Paulo, a vencedora do desfile Águia de Ouro lavou a alma de quem acredita na educação enquanto instrumento maior de cidadania plena com o tema ‘O poder do saber’. Um de seus carros homenageou o patrono da educação brasileira ao lembrar um de seus ensinamentos: é impossível falar de educação sem amor.
Irreverência, ironia, crítica direta, tudo feito com alegria nos carnavais que passaram serão um vazio neste fevereiro de 2021. Nos últimos doze meses vivenciamos o impensável há um ano.
No carnaval que passou, a Covid-19 parecia coisa lá dos estrangeiros. Quando aqui chegou, virou gripezinha no dizer de governantes irresponsáveis. Irresponsabilidade contrabalançada pela reiterada solidariedade da gente brasileira que tem feito o impossível para salvar vidas da pandemia, da fome e do pandemônio.
Que neste ano sem carnaval, ecoe a voz da igualdade, o caminho do bem, o praticar o bem, como inspirou o samba da Piedade em 2020. Que a sabedoria em prol do amanhã leve à resistência que une verso e melodia, que transforme palavra em ação.
Que a construção do novo normal se inspire, como fizeram os carnavalescos Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon da carioca Viradouro, na história de bravuras de mulheres ancestrais que lutaram para construir esta Nação. E que mais voz e vez seja dada às Marias das dores Brasil que persistem no bordar e tecer um outro mundo possível para a gente brasileira.
Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião de A Gazeta.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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