O conflito aberto no Oriente Médio após a ofensiva dos Estados Unidos e Israel sobre o Irã, no último sábado (28), tem consequências ainda indefinidas. Não se sabe quanto tempo vai demorar e como os atores principais sairão da guerra. Mas já é certo que países como o Brasil poderão, caso saibam trabalhar, aproveitar as janelas de oportunidades que já começam a se abrir. Tudo começa no fornecimento seguro de energia (limpa ou fóssil, o Brasil tem as duas), passa pelo agronegócio e deságua na segurança para se fazer bons negócios.
Por se tratar de um conflito em uma região de grande produção de petróleo e gás, os preços estão em enorme volatilidade. A coisa piora com a possibilidade de fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa algo perto de 20% da produção mundial. Na Europa, os preços de referência do gás natural chegaram a subir mais de 50% nesta segunda-feira (02). O Brasil, bem distante da guerra e grande produtor de petróleo e gás, com mais de 5 milhões de barris equivalentes no mês de janeiro (o Irã, para efeito de comparação, produz 3,5 milhões de barris dia), surge como protagonista entre os fornecedores seguros para os grandes importadores, caso da China.
Hoje, o Brasil exporta mais da metade de sua produção. A China, em 2025, comprou mais de US$ 14,3 bilhões, quase a metade (47%) de tudo o que foi vendido. O país está com os seus campos mais produtivos em expansão, principalmente no pré-sal, e tem tudo para ver a sua clientela e volume de vendas crescerem com força. Isso a preços mais elevados. O Espírito Santo, importante lembrar, é o segundo maior produtor brasileiro de petróleo, com 5,12% do volume. Além disso, essas necessidades podem acelerar os investimentos em terminais portuários para escoar a produção, um dos grandes gargalos brasileiros. Vários projetos desse tipo estão em desenvolvimento no litoral capixaba.
Ainda dentro da indústria de energia, especialistas enxergam a possibilidade de uma nova rodada de investimentos em transição energética, o que também beneficiaria o Brasil. A Europa, logo após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia (que completou quatro anos em 24 de fevereiro), fez uma rodada de fortes investimentos em nome da sua segurança energética, já que boa parte do gás usado pelos europeus vinha da Rússia. Uma outra grande parte vem do Oriente Médio, portanto, novos aportes são esperados. O Brasil, que tem sol, vento, biomassa e muita área, é um beneficiado claro também nesta janela.
No agronegócio, há problemas e oportunidades. O Irã é um grande produtor de ureia e a região do Golfo Pérsico abriga algumas das maiores fábricas de fertilizantes do mundo. Boa parte da produção passa pelo Estreito de Ormuz. Os preços já subiram e pressionarão os custos do agronegócio. Por outro lado, aí olhando mais para o Espírito Santo, o Irã é um enorme produtor de aves, o quarto maior da Ásia, um prolongamento do conflito colocaria a avicultura iraniana em situação complicada, abrindo espaços para os produtores brasileiros em uma região, o Oriente Médio, onde as exportações do Brasil já são representativas. No curtíssimo prazo, os avicultores que exportam para lá estão preocupados com as dificuldades logísticas impostas pela guerra.
Por fim, em um mundo cada vez mais volátil e bélico, quem está distante da confusão tem tudo para se sair bem. O Brasil precisa se apresentar como o 'good guy' (bom rapaz), aquele que se relaciona com todos os atores e oferece boas condições para se fazer negócios. Por certo há outras janelas, mas as oportunidades abertas na indústria de energia e no agro são bons exemplos de como o Brasil pode se sair bem caso saiba se apresentar para o jogo. Isso passa por previsibilidade, regras eficientes, segurança jurídica, infraestrutura, planejamento e visão de longo prazo.
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