Quibe, esfirra, tabule, homus, babaganoush... Talvez os pratos árabes sejam a parte da cultura desse povo que mais se misturou ao cotidiano do capixaba — e fica fácil entender o porquê depois de prová-los. Porém, a contribuição de sírios e libaneses para o
Espírito Santo vai muito além da culinária.
De acordo com o historiador Fernando Achiamé — que é neto de libanês — esses imigrantes chegaram em solo capixaba entre o final do século XIX e o início do século XX. E você sabe por que eles eram (ou são) chamados de turcos?
Diferentemente dos imigrantes italianos e alemães, os sírios e libaneses não tiveram ajuda financeira dos governos. Por outro lado, também vieram ao
Brasil em busca de uma vida mais próspera, já que do outro lado do Oceano Atlântico havia opressão do império e faltava terra e emprego.
"No ano de 1876, Dom Pedro II visitou o Líbano e a Síria. Foi o primeiro governante brasileiro a estar lá e ficou alguns dias. Na ocasião não houve um tratado, mas pesquisas viram, pelos jornais da época, que foi feita uma propaganda danada do Brasil, que acabou incentivando o fluxo imigratório", explicou Achiamé.
Bem característico desses imigrantes foi o estabelecimento no comércio capixaba por questões econômicas e de liberdade. "De início, eles eram mascates, tropeiros. Assim, não precisavam de um capital inicial e viajavam. Depois, foram virando donos de lojas, açougues e padarias ou proprietários de pequenas indústrias", contou Achiamé.
A Avenida Jerônimo Monteiro e a
Vila Rubim — pontos comerciais tradicionalíssimos da Capital — são só dois dos exemplos onde muitos sírios e libaneses vendiam as próprias mercadorias. Os antepassados de Vitor Buaiz, ex-governador do Espírito Santo e ex-prefeito de
Vitória, são um exemplo.
De modo geral, apesar das dificuldades iniciais, a partir da segunda geração, o povo árabe conseguiu enriquecer e os filhos passaram a ter mais acesso à educação, sendo, muitas vezes, até enviados ao
Rio de Janeiro para se formarem médicos, advogados, engenheiros ou dentistas.
Por causa da prosperidade adquirida com o tempo, alguns sírios e libaneses passaram a ser alvo de rejeições por parte dos capixabas. O evento máximo que reflete esse atrito entre locais e imigrantes é uma revolta que aconteceu em Cachoeiro de Itapemirim, em setembro de 1898.
De acordo com a historiadora Nara Saletto, em entrevista para o jornal A Gazeta em 2001, o inquérito policial revela que os sírios e libaneses precisaram fugir temporariamente da cidade após um ataque. Para ela, o movimento jacobino, que pregava o ódio a estrangeiros, também favoreceu o conflito.
Atualmente, muito bem integrados aos capixabas, os sírios e libaneses tiveram a história das respectivas famílias — ou pelo menos de parte delas – mapeada e contada pelo Arquivo Público do Estado (
APE), como uma das etapas e estudos realizados dentro do
projeto Imigrantes Espírito Santo.
Sem grandes monumentos que os homenageiem no Estado, a força do povo árabe é levada por inúmeros nomes que nos cercam: Abdala, Alcuri, Ascha, Assad, Bichara, Carone, Chequer, Haddad, Kalil, Mameri, Mansur, Nader, Nascif, Saad, Shebab, Tanuri... entre tantos outros.