Nenhuma outra expressão é mais adequada que, "desnudando" a história, para falar sobre a vida da capixaba "Luz del Fuego". Personagem icônica, a vedete, que oficialmente se chamava Dora Vivacqua, ficou conhecida por seu comportamento transgressor entre os anos 1940 e 1950. Irmã do senador Attílio Vivacqua, que daria mais tarde nome à cidade do Sul do Espírito Santo, del Fuego não pôde receber herança por ser tida como incapaz e foi internada duas vezes em uma clínica psiquiátrica.
Ela foi uma das primeiras mulheres a tirar brevê de aviadora (licença para pilotar), a primeira a institucionalizar a prática do naturismo no Brasil, bem como uma das primeiras a fundar um partido, o Partido Naturalista Brasileiro, cassado em 1951.
Recentemente, o ano de 2024 marcou duas datas redondas no que diz respeito a ela: 80 anos do personagem idealizado a partir de um cosmético (Luz del Fuego era nome de uma marca de batom dos anos 1940) – e os 70 anos da fundação da primeira Ilha Naturista do Brasil, a Ilha do Sol, no município de São Gonçalo (RJ), onde só se podia permanecer quem estivesse completamente nu.
Na ilha, viviam Luz del Fuego, suas cobras, uma cabra - a Mimosa - e seus cachorros. E ela permaneceu no local por 14 anos, sem energia elétrica e água encanada. Nascida em uma família de políticos, Luz teve uma relação difícil em casa, exatamente por ser transgressora e estar à frente do seu tempo.
Segundo conta o professor de História Marcelo Spohn, diretor da Gestto Cultural, instituto carioca voltado para pesquisas e visitações históricas, Attílio Vivacqua conseguiu na Justiça o direito de tutela sobre Luz del Fuego e também do dinheiro que ela havia recebido como parte de uma herança, ainda na década de 40.
"Attílio se apoiou num dispositivo legal de que as mulheres poderiam ser julgadas incapazes de administrar bem o dinheiro. Ela não teve acesso à herança da família e só recebia uma pensão".
Lucélia Santos, que interpretou a vedete no cinema em 1982, e pelo papel recebeu o Kikito de Melhor Atriz do ano, fala que Luz foi uma naturista e uma mulher muito importante na história do Brasil. "Por ter a personalidade que ela tinha, não ser uma intelectual, mas uma intuitiva, que nem era uma grande vedete, não era belíssima, mas tinha um grande carisma e uma grande visão, uma conexão com a natureza que não era comum na época em que ela viveu, e se colocou como uma ativista ambiental".
Lucélia Santos
Atriz
"O nudismo para nós, brasileiros, até hoje é um tabu. A cultura brasileira é muito maliciosa e preconceituosa. Nos anos 1950 uma mulher confrontou o patriarcado e o machismo com seu próprio corpo"
Família
Embora tenha nascido em Cachoeiro de Itapemirim, Luz del Fuego viveu grande parte da vida em Belo Horizonte (MG). Há relatos de que ela andava por Marataízes, não nua, mas enrolada em lenços, lingerie e bustiê. Attílio, juntamente com Achilles, outro irmão, a levaram do Espírito Santo para Minas, justamente por conta da jovem não atender ao que se esperava do recato de uma garota na época.
Em Minas, foi seduzida por seu cunhado e flagrada pela irmã, o que a fez ser internada num hospital psiquiátrico como esquizofrênica. Após deixar a internação, apareceu vestida de "Eva", paramentada apenas por três folhas de parreira, e terminou um noivado. Foi repreendida por outro irmão, Archillau, que acabou por levá-la a outro hospital psiquiátrico, este no Rio de Janeiro, após ela retornar para Cachoeiro.
A passagem de Luz pelo Espírito Santo se deu na infância e juventude. Ao estar por Belo Horizonte, chegou a ter contato com a elite intelectual e artística mineira, especialmente no Casarão Vivacqua, de posse da família e que ainda hoje está de pé na capital mineira, no bairro Funcionários, e atual sede do Museu da Cadeira Brasileira.
Primeiro "batismo"
Depois de romper um namoro e de voltar de mais uma internação, ela vai embora com um circo que passou pela cidade e ganhou o primeiro nome artístico: Luz Divina, e passou a atuar como atiradora de facas. Só em 1944 ganha o nome que a fez famosa, inspirada na marca de um batom argentino.
Data ainda dos anos 1940 o seu fascínio pelas cobras - especialmente jiboias - com as quais comporia os seus números artísticos até o fim da vida. Um dos mais famosos na época era “A Tentação de Eva”. Ao se apresentar num circo, nua, foi presa, e teve que pagar multa para sair da detenção. Foi expulsa do Theatro Municipal do Rio de Janeiro num baile de Carnaval ao se fantasiar de "Noivinha Pistoleira" e dar tiros de revólver no teto do espaço artístico.
Menos roupa e mais pão
Luz inicia os movimentos para o nascimento do naturalismo/naturismo no Brasil ainda no início dos anos 1950. Ela tenta fundar o Partida Naturalista Brasileiro (PNB) – em 1949 – sendo não só o primeiro partido a se mover por esta causa, mas um dos primeiros a ser fundado por uma mulher. Segundo conta Spohn, a sigla foi cassada por ação do próprio irmão de Luz, Attílio.
Como não poderia ser diferente, os lemas do partido eram “Menos roupa e mais pão” e “Todo Mundo Nu”. Segundo uma previsão da vedete feita em 1953, "Dentro de 50 anos o Brasil estará inteiramente nu!". Bem, de 2003 para cá não houve uma mudança tão significativa assim na moda – ou na falta dela...
Dizia-se que políticos estavam ligados à Luz. Inclusive, há quem aponte que a própria conquista da Ilha do Sol tenha acontecido por intermédio do então ministro da Marinha Renato Guilhobel. Mas Spohn é cauteloso.
“É muito provável que, no entorno de Luz, existissem artistas e intelectuais brasileiros, mas é bem improvável que existissem políticos. Mesmo os grupos mais progressistas de direita ou esquerda da época seriam muito conservadores no contexto dos anos 50 para poder se associar oficialmente a ela”. Ainda assim, o autor do posfácio do livro de Luz foi o integralista Plínio Salgado. O Integralismo é um dos braços mais radicais da direita e ainda hoje é proibido, por estar ideologicamente associado ao nazi-fascismo.
Nas festas da Ilha do Sol a regra era clara: todo mundo nu! Os únicos a ficarem vestidos eram os garçons e funcionários, aos quais era permitido apenas um traje: uma gravata borboleta. Quem estivesse na festa e não obedecesse às regras era expulso de lá da forma como estivesse. Sim, como estivesse. Ava Gardner, Brigitte Bardot e Steve MacQueen foram alguns dos famosos que frequentaram o ambiente.
Além disso, a vedete virou atração turística para os frequentadores da Baía de Guanabara. Ela recebia um valor dos barqueiros que faziam passeios turísticos pela região de modo que vestia penas e plumas, ainda que nua ou enroladas nas cobras, para acenar para os turistas.
Luz Del Fuego, sobre sua infância (para o Cruzeiro, em 1968)
Vedete e naturista
"Eu gostava de brincar de bonecas, sim, mas todas andavam nuas"
Em 1954, sua história foi tema do documentário "A Nativa Solitária", recuperado pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES). Além deste, alguns livros contam a história do naturismo através do prisma de Luz del Fuego. Um deles, “A Verdade Nua”, de 1948, explica em detalhes o ideal naturista, tanto como filosofia de vida, como de mudança comportamental, e de alimentação, como o estímulo ao vegetarianismo, coisa que só iria ganhar espaço na cena cultural brasileira anos mais tarde.
O livro não chegou às lojas e circulava apenas através dos Correios, já que era visto como pornográfico, assim como o filme. Importante lembrar que, nesta mesma época, usar um maiô de duas peças ou um biquíni, já era tido como uma afronta à moral. Por conta da sua importância para a cena naturista, a data de nascimento de Luz, 21/02, é celebrada como o dia do Naturismo no Brasil.
Luz Del Fuego, em "A Verdade Nua" (1948)
Vedete e naturista
"Sou considerada pelos ignorantes, claro, como leviana, exibicionista e criatura imoralíssima. (...) Faço tudo o que tenho em mente, realizo as coisas que mais desejo, ponho em prática as teorias que julgo acertadas, e, por isso, me censuram"
Ilha do Sol, morte e legado
A Ilha do Sol é uma ilhota, oficialmente chamada de Tapuamas de Dentro, e compõe o complexo arquipélago da Baía de Guanabara. Não localizamos nenhum guia turístico ou roteiro oficial que leve turistas até as ruínas da Ilha, de modo que os passeios à região podem não ser seguros. O clube naturalista brasileiro tinha sede na própria Ilha do Sol, e seu regulamento está registrado numa carta na Associação Internacional de Nudismo na Alemanha. Em 1958, a Ilha do Sol deixou de funcionar como um clube naturalista.
Luz del Fuego e o caseiro, Edgar Bezerra, foram mortos em julho de 1967. A Polícia, que circulava pelo entorno da Ilha, notou que um dos barcos da Ilha do Sol estava totalmente desgovernado. Ao chegar à Ilha, a polícia notou que Luz e seu caseiro estavam desaparecidos. Além deles, itens da casa também eram tidos como perdidos, como revólveres, máquina de costura e uma vitrola. Tanto Luz como o caseiro foram assassinados por "piratas" - à época chamados de lambanceiros – os irmãos Alfredo e Mozart Teixeira Dias.
Jornais da época apontam que os "lambanceiros" tentaram, em outra ocasião, invadir a ilha, roubá-la e violentar Luz del Fuego, que, armada, os afugentou da região. Decididos em “tirar a história a limpo”, os acusados voltaram e mataram ela e o caseiro com requintes de crueldade. O crime bárbaro contou com golpes de remo na cabeça e dilaceração do corpo de ambos, que também tiveram pernas e braços amarrados e lançados ao mar. Os itens roubados foram localizados muito distantes dali da região da Baía de Guanabara, no bairro de Campo Grande, Zona Oeste do Rio.
Abandono
A Ilha do Sol depois da morte de Luz ficou abandonada, estado em que se encontra hoje. Quando faleceu, Luz del Fuego contava com poucos recursos, ainda que fosse de família rica. Sua intenção era construir chuveiros, um cais e um restaurante para a prática do naturismo. Segundo ela declarou em entrevista ao periódico " O Cruzeiro", “Os que fossem vestidos [ao restaurante], pagariam a conta em dobro”. Luz é uma das poucas da sua geração da Família Vivacqua a não ocupar o mausoléu da família, no Espírito Santo. Ela foi enterrada no Rio de Janeiro.
Além das histórias já citadas, Luz também foi pioneira em ter se formado numa época em que as mulheres não trabalhavam ou estudavam. “Ela com cerca de 20 anos teve uma formação ligada a Letras – Não há uma documentação clara que comprove que seja ensino superior ou uma espécie de tecnólogo, mas que de qualquer maneira é uma formação relevante para uma mulher na sua época”, diz Spohn.
Para Marcelo Spohn, o legado sobre Luz del Fuego é relativo, fala que se alinha com a da atriz Lucélia Santos. Para o historiador, “o legado é relativo, porque se as pessoas soubessem a dimensão real dela, o legado dela com uma precursora em várias áreas seria algo excepcional, mas aparentemente isso alcançou a pouquíssimas pessoas”.
Lucélia também compartilha disso. "Ela é pouco lembrada. Foi pioneira em falar de ecologia, em feminismo, numa época em que não se falava sobre. Acho que uma pessoa com a história da Luz del Fuego mereceria muito mais homenagens. Até hoje a sociedade brasileira é muito conservadora, retrógrada, misógina", aponta.
Inspiração e homenagens
Na cena pop, além do filme biográfico, Luz foi homenageada por Rita Lee no álbum “Fruto Proibido”, com uma música, além de haver sido enredo da Chega Mais no Carnaval de Vitória em 2020. A escola do Bairro do Quadro ficou na terceira colocação daquele ano. Rita Cadillac deu vida à personagem. O repórter Roberto d'Ávila afirma que, além de "Escrava Isaura", Che Guevara era fã do filme biográfico de Luz del Fuego, também protagonizado por Lucélia Santos, e tinha um VHS dele em sua videoteca.
Tida como louca, assassinada e invisibilizada pela história. Mais que resgatar a memória de Luz Del Fuego, é preciso exaltar a forma feminina que vem dela. Afinal, a sociedade, mesmo 70 anos depois, continua acreditando que um homem ousado é destemido, enquanto uma mulher destemida é visto como incômodo. Revisitando a fala de Rita Lee na música que a homenageia, Luz morreu em 1967, e renasceu hoje para viver amanhã… E sempre!
+Capixapédias
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