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Governo usa gráfico genérico para dizer que vermífugo tem eficácia contra Covid

O gráfico é idêntico a uma imagem disponível no banco de imagens Shutterstock. Questionado, o Ministério da Ciência e Tecnologia não respondeu sobre o que levou ao uso do gráfico genérico

Publicado em 20/10/2020 às 08h22
Imagem usada pelo governo Bolsonaro para afirmar, sem apresentar dados, que o vermífugo nitazoxanida (Anitta) funciona contra a Covid-19
Imagem usada pelo governo Bolsonaro para afirmar, sem apresentar dados, que o vermífugo nitazoxanida (Anitta) funciona contra a Covid-19. Crédito: Reprodução/MCTIC

Sem divulgar dados completos e usando um gráfico idêntico ao de um banco de imagens, o governo informou nesta segunda-feira (19) que resultados de estudos clínicos apontaram que o vermífugo nitazoxanida teria ajudado a reduzir a carga viral em pacientes na fase inicial da Covid-19.

O resultado foi anunciado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em cerimônia no Palácio do Planalto. Informações completas da metodologia e dos dados obtidos, porém, não foram divulgadas.

Sem os números e um estudo já publicado, o governo se limitou a divulgar o resultado em discursos e por meio de um vídeo no início da cerimônia, no qual consta a imagem de um gráfico genérico, sem dados, com a frase "Nitazoxanida é eficaz!".

O gráfico, porém, é idêntico a uma imagem disponível no banco de imagens Shutterstock. Questionado, o Ministério da Ciência e Tecnologia não respondeu sobre o que levou ao uso do gráfico genérico.

Gráfico de barras com flecha que aponta no sentindo descendente  Frame de animação disponível para download no banco de imagens Shutterstock
Gráfico de barras com flecha que aponta no sentindo descendente Frame de animação disponível para download no banco de imagens Shutterstock. Crédito: Reprodução

Em discurso, representantes da pasta argumentaram que os resultados foram submetidos a uma revista científica internacional e que uma eventual divulgação prévia dos dados limitaria a publicação.

"Como cientistas, sempre pensamos que o artigo deve ser publicado e revisado por pares. Entretanto, mesmo na pandemia, há um tempo entre a submissão e a publicação. Seria correto omitir esse dado e aguardar que em um mês 14 mil pessoas morressem?", afirmou a coordenadora do estudo, Patrícia Rocco, da UFRJ.

Segundo ela, o estudo, randomizado e duplo-cego, envolveu sete centros de pesquisa, distribuídos no estado de São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal.

De acordo com o ministério, os dados correspondem ao resultado de testes em 500 voluntários.

Rocco diz que os voluntários foram divididos em dois grupos: um recebeu placebo e outro o medicamento, conhecido pelo nome comercial Annita.

"Constatamos que a nitazoxanida, em comparação ao placebo, acarretou ao fim da terapia uma redução da carga viral e maior número de pacientes com resultados negativos para o Sars-CoV-2", informou.

O estudo completo, porém, teria envolvido 1.575 participantes. O ministério atribui a diferença de dados ao fato de que uma parte do estudo ocorreu com pacientes com quadro grave e, em uma segunda etapa, em pacientes com sintomas iniciais da doença.

O resultado da primeira etapa ainda não está disponível. "Espero que nas próximas semanas tenhamos resultados", disse Rocco.

Segundo ela, pacientes da fase precoce tomaram somente a nitazoxanida e antitérmicos. "Não houve viés para que outras drogas pudessem ter efeito adicional ou melhor que a nitazoxanida."

Também sem informar dados completos, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, comemorou os resultados e disse que o tratamento ajudou a reduzir a carga viral em pacientes com sintomas iniciais da doença.

Ele ressaltou, porém, que o medicamento não pode ser usado para prevenção. "O que posso dizer é que temos agora um medicamento comprovado cientificamente que é capaz de reduzir a carga viral. Significa que reduz o contágio das pessoas que tomam o medicamento", afirmou.

Em seguida, disse "passar o bastão" para que o Ministério da Saúde avaliasse uma oferta do remédio.

Apesar da fala de Pontes, especialistas têm recomendado cautela sobre anúncios e apontam que, até o momento, ainda não há um medicamento comprovado para a Covid-19.

Nos últimos meses, pesquisadores também chegaram a cobrar mais transparência do ministério sobre os dados dos estudos que estavam em andamento.

O início dos testes com a nitazoxanida foi anunciado por Pontes ainda em abril. Na época, o ministro evitou citar o nome do remédio.

O argumento era a necessidade de evitar uma corrida às farmácias - como ocorreu quando o presidente Jair Bolsonaro passou a defender publicamente a hidroxicloroquina como cura para a Covid-19. Esse remédio, porém, ainda não teve comprovação de eficácia em estudos clínicos.

Em discurso nesta segunda, Bolsonaro voltou a usar o evento para defender o remédio e fez ataques diretos ao ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a quem chamou de "ministro marqueteiro". No cargo, o ex-ministro se posicionou contra a ampliação da oferta da cloroquina.

Bolsonaro disse ainda que seu governo acertou no combate à doença, apesar de ser o segundo país com mais mortes registradas pela Covid-19, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

"A história vai mostrar quem estava com a razão. A história vai mostrar quem se preocupou com a sua própria biografia", disse, em referência ao ex-ministro. "E, no nosso ministério, chegamos à conclusão de que fizemos a coisa certa", acrescentou.

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