Publicado em 8 de junho de 2021 às 14:25
Um dia após ter sido desmentido pelo TCU (Tribunal de Contas da União), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse nesta terça-feira (8) que "errou" ao atribuir à corte um documento que questionaria 50% dos registros de morte por Covid-19 no país -o órgão nega ter produzido algo nesse sentido. >
No entanto, o presidente insistiu que há indícios de supernotificação das mortes por coronavírus no país e disse ter acionado a CGU (Controladoria-Geral da União) para investigar essas suspeitas.>
Mais uma vez, porém, ele não apresentou nenhuma prova que embase a afirmação –ao mencionar indícios, citou apenas "vídeos no WhatsApp".>
"O TCU está certo, eu errei quando eu falei tabela, o certo é acórdão", disse Bolsonaro em conversa com apoiadores ao deixar o Palácio da Alvorada, a residência oficial da Presidência.>
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Em seguida, o presidente fez referência a uma lei de 2020 que estabelece que a divisão de parte dos recursos federais enviados a estados e municípios no ano passado deveria seguir o critério de taxa de incidência da doença nas unidades da federação.>
"O próprio TCU dizia que essa lei complementar poderia incentivar uma prática não desejável de supernotificação de Covid para aquele estado ter mais recurso. A tabela quem fez fui eu, não foi o TCU.">
Ao dizer nesta terça-feira que "a tabela quem fez fui eu", Bolsonaro indica que foi de sua própria autoria a conta de que 50% das mortes registradas como Covid em 2020 não teriam sido causadas pela doença. Na véspera, entretanto, ele falou em "relatório" do TCU, não em "tabela".>
O TCU elaborou um acórdão em outubro de 2020 em que afirma que os critérios de transferência de recursos adotados pelo Ministério da Saúde aos estados e municípios, com base no número de infectados, poderia, em tese, levar algum gestor a elevar artificialmente as notificações.>
De acordo com um dos ministros do tribunal, essa parte do texto, feita por técnicos, tratava de uma hipótese jamais comprovada pela realidade.>
Além de não questionar o número oficial de óbitos pela Covid no Brasil (hoje superior a 470 mil), o documento do TCU indica em diferentes trechos que pode haver inclusive subnotificação de casos da doença no Brasil.>
Nesta segunda-feira (7), Bolsonaro falou que um relatório do TCU questionava o número de mortos por Covid de 2020.>
"Em primeira mão aí para vocês. Não é meu. É do tal de Tribunal de Contas da União. Questionando o número de óbitos no ano passado por Covid. E ali o relatório final não é conclusivo, mas em torno de 50% dos óbitos por Covid ano passado não foram por Covid, segundo o Tribunal de Contas da União", disse Bolsonaro na ocasião, também em conversa com apoiadores.>
"Esse relatório saiu há alguns dias. Lógico que a imprensa não vai divulgar. Eu tenho três jornalistas que eu converso, não vou falar o nome deles, que são pessoas sérias, né. E já passei para eles. E devo divulgar hoje à tarde. E como é do Tribunal de Contas da União, ninguém queira me criticar por causa disso.">
Em seguida, o portal R7 divulgou a informação de que "apenas quatro em cada dez óbitos (41%) registrados por complicações da doença seriam efetivamente resultado da contaminação do vírus".>
O portal afirmou que o documento no qual se baseava tinha sido "citado por Bolsonaro" na portaria do Alvorada. E disse que obteve "um trecho do relatório elaborado pelo TCU" por meio de "fontes do Palácio do Planalto".>
Ao mesmo tempo, um documento apócrifo passou a circular nas redes sociais com os mesmos dados e como se tivesse sido elaborado com informações e conclusões oficiais do TCU. O título dele é "Da possível supernotificação de óbitos causados por Covid-19 no Brasil".>
Ainda na segunda, o TCU desmentiu Bolsonaro em comunicado oficial. "O TCU esclarece que não há informações em relatórios do tribunal que apontem que 'em torno de 50% dos óbitos por Covid no ano passado não foram por Covid', conforme afirmação do Presidente Jair Bolsonaro divulgada hoje.">
Nesta terça-feira, em frente ao Alvorada, Bolsonaro insistiu na tese de que há "indício enorme" de supernotificação de casos de Covid no Brasil. O objetivo dos estados, segundo ele, seria acessar mais recursos enviados pelo governo federal.>
Ele citou dados de mortes anuais no Brasil e afirmou que pediu uma investigação da CGU sobre o caso. "Isso leva a um indício enorme no sentido de que houve sim supernotificação pela prática indesejável, apontada por acórdão do TCU, que isso poderia acontecer para governadores conseguir mais recursos.">
Também para justificar os supostos indícios, o presidente mencionou "vídeos no WhatsApp".>
"[Para] a CGU fazer então um trabalho em cima disso aí. É um indício fortíssimo, vocês devem ter visto muitos vídeos no WhatsApp [de] pessoas falando 'meu pai, meu avô, meu tio, meu irmão não morreu de Covid'. E botaram Covid por quê? Poderia estar havendo, como o próprio TCU previu -não tabela, em acórdão– que isso ia acontecer. Acho que agora está justificado o que foi falado ontem, que a gente pode errar. Eu não tenho compromisso com o erro, não tem problema nenhum", concluiu.>
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