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É engenheiro e administrador. É membro fundador do Movimento ES em Ação. Foi diretor da Aracruz Celulose, da Fibria e presidente da CMPC. Atualmente integra o Conselho de Administração da CMPC

'Rage bait': quando a raiva sequestra o debate, todos perdem

No Brasil, vivemos esse fenômeno com intensidade. A isca da raiva alimenta a polarização, dificulta convergências e reduz nossa capacidade de mobilização em torno de reformas estruturantes

  • Walter Lídio Nunes É engenheiro e administrador. É membro fundador do Movimento ES em Ação. Foi diretor da Aracruz Celulose, da Fibria e presidente da CMPC. Atualmente integra o Conselho de Administração da CMPC
Publicado em 27/01/2026 às 13h20

Em 1º de dezembro de 2025, o Dicionário Oxford escolheu “isca da raiva” (rage bait) como palavra do ano para evidenciar como o mundo digital está moldando comportamentos e relações sociais. A hiperconectividade, as redes sociais, o uso crescente de algoritmos e de inteligência artificial criam ambientes onde narrativas são manipuladas para gerar emoção rápida — muitas vezes à custa da qualidade da informação necessária para decisões responsáveis e de interesse público.

A velocidade das interações estimula um imediatismo permanente: somos pressionados a reagir antes de compreender. A urgência constante reduz o espaço da reflexão e compromete a qualidade das escolhas individuais e coletivas, num cenário em que importa mais responder do que pensar, compartilhar do que verificar, reagir do que compreender.

A manipulação das emoções funciona como um atalho mental. A raiva, por ser intensa e mobilizadora, acelera respostas impulsivas e diminui o terreno da ponderação. Plataformas digitais operam numa lógica simples: quanto mais irritação, mais engajamento — e, portanto, mais poder para moldar percepções, narrativas e comportamentos a serviço de interesses políticos, econômicos ou ideológicos.

A “engenharia do caos”, potencializada pela IA, planeja e difunde conteúdos que exploram emoções fortes e transformam o debate público em arenas de confronto. Com isso, fragilizam-se a confiança nas instituições e a racionalidade das deliberações coletivas, substituídas por julgamentos instantâneos e emocionalizados.

Os efeitos não são apenas digitais: atingem a saúde mental com um esgotamento emocional coletivo. Num ambiente de hiperconectividade, cresce o estresse, a ansiedade e uma sensação de “burnout social”, alimentada pela sobrecarga informacional e pela exigência permanente de atenção e posicionamento. A mente humana, construída para ritmos mais lentos e vínculos estáveis, passa a viver sob a lógica da disponibilidade total.

A isca da raiva se apoia em algoritmos que capturam atenção com engajamentos que prolongam permanências, priorizando conteúdos que despertam indignação, medo e sensação de injustiça. Muitos temas ganham importância não pela relevância, mas pelo impacto emocional que geram — e, assim, a emoção molda o fato antes que a razão possa chegar.

Na política, isso se traduz em “tribos emocionais”, organizadas em narrativas simplificadas e maniqueístas, unidas mais contra um inimigo do que a favor de soluções para sociedade. A polarização amplia o terreno da raiva e bloqueia agendas construtivas convergentes.

No Brasil, vivemos esse fenômeno com intensidade. Num ambiente de desgoverno e em meio a crises e tensões sucessivas, a isca da raiva alimenta a polarização, dificulta convergências e reduz nossa capacidade de mobilização em torno de reformas estruturantes — essenciais para desenvolvimento, inclusão, modernização e estabilidade. Quando a raiva sequestra o debate, todos perdem: perde o país, perde a democracia, perde o futuro da sociedade.

A eleição de 2026 pode ser decisiva. Será oportunidade para superar a política do “nós contra eles” e escolher lideranças que recusem a exploração da raiva, apostem no diálogo e conduzam o Brasil por agendas convergentes, baseadas em evidências, responsabilidade e visão de país. Somente assim poderemos transformar conflitos em energia cívica e reconstruir, com maturidade, o Brasil que desejamos.

Imagem ilustra polarização vivida no Brasil
Imagem ilustra polarização vivida no Brasil. Crédito: Arabson/Arquivo AG

A escolha do termo “isca da raiva” como palavra do ano funciona, portanto, como um alerta. Ela nos lembra que emoções manipuladas no ambiente digital não ficam presas às telas: escorrem para o cotidiano, afetam relações pessoais, influenciam decisões públicas e corroem a confiança social.

Reconhecer esse mecanismo — e enfrentá-lo com educação digital, espírito crítico e responsabilidade coletiva — é fundamental para proteger a democracia, fortalecer a convivência e garantir que o Brasil avance por caminhos guiados por diálogo, razão e propósito comum.

O desafio não é negar ou rejeitar a tecnologia digital, mas compreender seus efeitos sobre o comportamento humano e da sociedade. A tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas não é neutra e sem uma consciência crítica, temos o risco de construir uma sociedade altamente conectada, mas emocionalmente reativa, exausta e fragmentada.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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