As chuvas intensas que atingiram recentemente o Espírito Santo e outras regiões do país não trazem apenas água em excesso. Elas carregam um velho problema brasileiro: o despreparo das cidades para lidar com eventos climáticos extremos.
Alagamentos, vias bloqueadas, riscos de deslizamentos e prejuízos sociais e econômicos se repetem ano após ano. Entre 2020 e 2023, o Brasil registrou mais de 7,5 mil desastres relacionados a chuvas intensas, um aumento de aproximadamente 320% em relação à década de 1990. Nesse mesmo período, mais de 80% dos municípios brasileiros sofreram algum tipo de desastre associado às chuvas.
Em 2024 e 2025, o cenário se agravou ainda mais, com centenas de mortes e quase um milhão de pessoas desabrigadas ou desalojadas em todo o país. Os números deixam claro que os efeitos das mudanças climáticas não pertencem a um futuro distante: eles já estão em curso e se intensificam a cada ano.
Vivemos uma nova normalidade climática, marcada por eventos extremos cada vez mais frequentes. As chuvas intensas deixaram de ser episódios isolados e passaram a fazer parte do nosso cotidiano. A ciência é clara ao apontar as causas desse agravamento: o aumento da temperatura média global intensifica o ciclo hidrológico, tornando as chuvas mais irregulares, concentradas e severas. O resultado são enchentes, inundações e deslizamentos que pressionam sistemas urbanos planejados para um clima que já não existe mais.
Diante dessa mudança, não basta reagir aos desastres depois que eles acontecem. A urbanização acelerada, a ocupação desordenada do solo, o excesso de áreas impermeabilizadas, os sistemas de drenagem inadequados e a ausência de políticas integradas de planejamento territorial ampliam a vulnerabilidade das cidades. Atualmente, mais de 1,6 mil municípios brasileiros são classificados como áreas de alto risco para desastres associados às chuvas, incluindo pequenas cidades e grandes capitais.
O enfrentamento desse desafio exige mudança de postura. Investir apenas em obras emergenciais não resolve o problema estrutural. É fundamental avançar em planejamento urbano resiliente, sistemas de alerta antecipado, infraestrutura verde, soluções baseadas na natureza e educação climática. Preparar as cidades para eventos extremos deixou de ser uma escolha: tornou-se uma necessidade urgente para proteger vidas, reduzir desigualdades e construir um futuro mais seguro e justo.
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