Autor(a) Convidado(a)
É diretora-executiva do Instituto Ideias, organização especializada em sustentabilidade, ESG e economia de impacto, que atua na conexão entre pessoas, empresas e territórios para impulsionar transformações sustentáveis

As chuvas e o velho despreparo urbano

O enfrentamento desse desafio exige mudança de postura. Investir apenas em obras emergenciais não resolve o problema estrutural

  • Luana Romero É diretora-executiva do Instituto Ideias, organização especializada em sustentabilidade, ESG e economia de impacto, que atua na conexão entre pessoas, empresas e territórios para impulsionar transformações sustentáveis
Publicado em 27/01/2026 às 10h00

As chuvas intensas que atingiram recentemente o Espírito Santo e outras regiões do país não trazem apenas água em excesso. Elas carregam um velho problema brasileiro: o despreparo das cidades para lidar com eventos climáticos extremos.

Alagamentos, vias bloqueadas, riscos de deslizamentos e prejuízos sociais e econômicos se repetem ano após ano. Entre 2020 e 2023, o Brasil registrou mais de 7,5 mil desastres relacionados a chuvas intensas, um aumento de aproximadamente 320% em relação à década de 1990. Nesse mesmo período, mais de 80% dos municípios brasileiros sofreram algum tipo de desastre associado às chuvas.

Em 2024 e 2025, o cenário se agravou ainda mais, com centenas de mortes e quase um milhão de pessoas desabrigadas ou desalojadas em todo o país. Os números deixam claro que os efeitos das mudanças climáticas não pertencem a um futuro distante: eles já estão em curso e se intensificam a cada ano.

Chuva causa alagamentos no bairro Bebedouro, em Linhares
Chuva causa alagamentos no bairro Bebedouro, em Linhares. Crédito: Leitor | A Gazeta

Vivemos uma nova normalidade climática, marcada por eventos extremos cada vez mais frequentes. As chuvas intensas deixaram de ser episódios isolados e passaram a fazer parte do nosso cotidiano. A ciência é clara ao apontar as causas desse agravamento: o aumento da temperatura média global intensifica o ciclo hidrológico, tornando as chuvas mais irregulares, concentradas e severas. O resultado são enchentes, inundações e deslizamentos que pressionam sistemas urbanos planejados para um clima que já não existe mais.

Diante dessa mudança, não basta reagir aos desastres depois que eles acontecem. A urbanização acelerada, a ocupação desordenada do solo, o excesso de áreas impermeabilizadas, os sistemas de drenagem inadequados e a ausência de políticas integradas de planejamento territorial ampliam a vulnerabilidade das cidades. Atualmente, mais de 1,6 mil municípios brasileiros são classificados como áreas de alto risco para desastres associados às chuvas, incluindo pequenas cidades e grandes capitais.

O enfrentamento desse desafio exige mudança de postura. Investir apenas em obras emergenciais não resolve o problema estrutural. É fundamental avançar em planejamento urbano resiliente, sistemas de alerta antecipado, infraestrutura verde, soluções baseadas na natureza e educação climática. Preparar as cidades para eventos extremos deixou de ser uma escolha: tornou-se uma necessidade urgente para proteger vidas, reduzir desigualdades e construir um futuro mais seguro e justo.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.