No último sábado (10), faleceu o escritor de novelas Manoel Carlos. Autor de grandes sucessos, suas principais obras continham traços distintivos, que permitiam reconhecer a marca do autor, como as protagonistas chamadas Helena e a ambientação no Rio de Janeiro. Para além do entretenimento, suas novelas foram instrumento de transformação social no Brasil, promovendo mudanças concretas e até legislativas.
Manoel Carlos imprimia em suas obras duas características que distinguem a telenovela brasileira de outros gêneros semelhantes: a qualidade técnica e a dimensão social ou pedagógica. Em relação à primeira, o envolvimento do autor na seleção da trilha sonora e do elenco, além da composição de tramas profundas com textos sofisticados, garantia um produto de qualidade.
Quanto à função social, suas novelas não se restringiam ao melodrama. Além de abordar as relações humanas entre personagens complexos, com destaque para suas Helenas - as protagonistas femininas -, seus folhetins também se ocupavam de temas de importância social, presentes no cotidiano nacional. Diante desse aspecto, vale destacar o papel duplo da telenovela, que reflete a realidade, mas também produz efeitos sobre ela.
Um efeito imediato é levar a discussão de temas relevantes para a casa do telespectador. Assim foi feito por Manoel Carlos com diversas pautas, como o câncer de mama, as deficiências físicas, o alcoolismo e tantas outras. Mais do que debater, a novela também leva o público a agir. Após a representação da leucemia de Camila (Carolina Dieckmann), em Laços de Família (2000), o número de doadores de medula óssea aumentou exponencialmente.
Além disso, pelas mãos de Manoel Carlos, a telenovela foi peça importante na transformação de políticas públicas e na criação e alteração de leis. Exemplo notável foi a novela "Mulheres Apaixonadas" (2003), uma única obra com diversas tramas com forte dimensão pedagógica e social. Em relação a inovações legislativas, três delas se destacam.
A primeira foi um tiroteio no Leblon, em que uma das personagens é morta por uma bala perdida, em meio ao trânsito. Fundindo realidade e ficção, a novela exibiu cenas de uma passeata em protesto à violência armada. A partir disso, contribuiu com a aprovação do Estatuto do Desarmamento.
Uma trama paralela abordava os maus tratos aos idosos, por meio de Dóris (Regiane Alves) e seus avós. Ao expor essa violência no espaço doméstico, a novela ajudou a retirar o tema da esfera privada e colocá-lo no centro do debate público. Cruzando a linha entre realidade e ficção, os atores participaram de audiências no Senado, culminando com a aprovação do Estatuto da Pessoa Idosa.
Já a abordagem da violência contra a mulher, perpetrada pelo marido (Dan Stulbach) que agredia a professora Raquel (Helena Ranaldi) com raquetadas, sensibilizou o público brasileiro e antecipou a discussão do tema. Dessa forma, a novela influenciou a propositura e a aprovação da Lei Maria da Penha, nos anos seguintes à exibição original.
Esses exemplos ilustram uma função que as novelas de Manoel Carlos cumpriram com excelência: construir uma via de mão dupla entre ficção e realidade. A novela se afirma, assim, como um retrato do cotidiano, mas também como instrumento de transformação da realidade, seja por trazer ao debate temas que ainda estavam latentes ou até mesmo por promover mudanças nas políticas públicas e leis brasileiras. Isso fica consagrado no legado de Manoel Carlos.
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