Manoel Carlos, falecido no último sábado (10), é um dos nomes simbólicos da teledramaturgia brasileira, e não apenas dela. Antes de se firmar como autor de novelas, teve atuação decisiva nos primórdios da televisão, dirigindo musicais e integrando a equipe de diretores do Fantástico em seus primeiros anos.
Essa trajetória, marcada pela observação do cotidiano e pela atenção aos pequenos gestos, ajudaria a explicar uma de suas marcas autorais mais recorrentes: a incorporação direta da vida real às tramas de ficção.
A partir de Baila Comigo, exibida em 1981, suas novelas passaram a assumir deliberadamente um tempo presente, dialogando com acontecimentos contemporâneos e dilemas reconhecíveis. Foi dentro dessa lógica que, em 2006, uma tragédia que abalou o Espírito Santo, e o país — acabou transposta para a narrativa de "Páginas da Vida", exibida no horário das 21h.
Na noite de 28 de dezembro de 2006, um ônibus que havia saído de Cachoeiro de Itapemirim com destino a São Paulo trafegava pela Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, quando, na altura do bairro de Cordovil, foi interceptado por criminosos. O veículo foi assaltado, incendiado e alvejado por disparos. Entre as vítimas estava a modelo capixaba Beatriz Furtado, então com 30 anos, que sofreu queimaduras em cerca de 35% do corpo.
Beatriz retornava de Muqui, onde havia passado o Natal com a família, e seguia para São Paulo. Vinculada à Mega Models, uma das maiores agências de modelos do país, ela sobreviveu ao ataque, mas enfrentou um longo e delicado processo de recuperação. Chegou a permanecer internada em Centro de Terapia Intensiva (CTI), com prognóstico inicial de apenas 30% de chance de sobrevivência. Ao longo dos meses seguintes, passou por mais de 16 cirurgias, algumas delas realizadas com a equipe do cirurgião plástico Ivo Pitanguy.
A tragédia, no entanto, teve um desfecho ainda mais duro. No fim de fevereiro de 2007, morreu a estudante Fernanda Furtado, que também estava no ônibus e havia sofrido queimaduras em 54% do corpo, foi enterrada em Marataízes. Um menino de seis anos levou um tiro de raspão, mas foi salvo pela mãe. Sete corpos carbonizados permaneceram no Instituto Médico Legal logo após o ataque. Ao todo, nove pessoas morreram.
O relato de Beatriz Furtado sobre o momento do ataque foi registrado meses depois:
Achei que era um assalto normal. O motorista saiu e eles roubaram algumas pessoas. Mas um deles voltou e colocou uma coisa que parecia um botijão de gás na porta. Eu ficava pensando em como ia sair dali e fui para os fundos do ônibus. Lembro de gente tossindo, tudo derretendo, meu cabelo colando, calor e muita fumaça. Quando já não estava mais conseguindo respirar, a janela estourou e eu pulei - Beatriz Furtado, ao g1 RJ, em 18/03/2007
Após o salto, a modelo descreveu os minutos seguintes como uma tentativa deliberada de sobrevivência: “Me arrastei para me fazer de morta, porque ainda tinha tiros do lado de fora. Quando os dois homens chegaram até mim e gritaram que eu estava viva ainda tive medo que eles fizessem parte do bando.”
Os homens que se aproximaram de Beatriz Furtado após o ataque não faziam parte do grupo criminoso. Eram pessoas comuns, dispostas a ajudar. Um deles a levou para casa, de onde ela foi encaminhada ao Hospital Getúlio Vargas, no bairro da Penha Circular, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O impacto do que havia acontecido não se restringia às queimaduras. Meses depois, Beatriz falaria publicamente sobre a dificuldade de se reconhecer no próprio corpo:
No princípio não me olhava. Chorei uma vez que eu me vi. Antes eu vivia da minha imagem, do meu corpo. No início não consegui falar disso, só chorava - Beatriz Furtado, em 18/08/2007, ao g1 RJ.
A reportagem tentou contato com Beatriz Furtado, mas não obteve resposta. Outra pessoa que sobreviveu ao incêndio — e que preferiu não se identificar — descreveu de forma direta o peso duradouro do episódio:
"Marcou minha vida de forma devastadora. Foram muitas sequelas emocionais. Segui com minha vida, mas um pedaço de mim ficou para trás. Nunca mais fui o mesmo. Parece que foi ontem para mim. Lembro de cada lágrima derramada. Foi muita crueldade. Está tudo muito fresco na minha cabeça. Se não tiver um alicerce espiritual, você não aguenta".
À época, a empresa Itapemirim informou ter prestado apoio aos familiares das vítimas e afirmou que “o ataque ocorrido é de responsabilidade do Estado”. Segundo reportagem do g1 RJ, publicada em 2007, a viação declarou ter arcado com as despesas funerárias das vítimas fatais.
Como a realidade foi parar na novela
A transposição do episódio para a ficção dialogava diretamente com o método de trabalho de Manoel Carlos. Cronista por formação e com passagem decisiva pela criação de programas como o Fantástico, o autor cultivava uma relação quase obsessiva com a atualidade. Preferia incorporar acontecimentos do cotidiano às novelas enquanto eles ainda estavam em curso — o que tornava o processo de produção particularmente tenso. Os capítulos, muitas vezes entregues em cima da hora, exigiam dos diretores agilidade e dos atores memória afiada.
Esse modo de operar foi lembrado publicamente após a morte do autor. O ator José de Abreu escreveu em sua conta no X (antigo Twitter) sobre o gosto de Manoel Carlos por trabalhar no limite do tempo:
“Maneco (...) [era] o terror dos produtores de novelas. Não entregava os capítulos a tempo deles fazerem os roteiros semanais de gravação. Chegou a dizer que queria escrever (ou ao menos algumas cenas) o capítulo de amanhã só depois de ver o capítulo de hoje! Queria usar ao máximo a contemporaneidade da novela com a vida real. Isso criava situações insólitas. Atores recebiam capítulos para gravar no dia seguinte, alta madrugada.”
Em entrevista ao jornal O Globo, publicada em 05/01/2007, na reportagem intitulada “Onda de ataques no Rio vai parar em ‘Páginas da Vida’”, Manoel Carlos explicou como a repercussão dos atentados seria incorporada à trama: “Surgirão vários comentários, inclusive um do Tide (Tarcísio Meira), elogiando a iniciativa do governo em pedir ajuda das forças federais. Ele vai mencionar também que o presidente se referiu aos atentados como atos de terrorismo.”
Na novela, Angélica (Cláudia Mauro) e Gabi (Carolina Oliveira) deixam o Rio de Janeiro em direção a Belo Horizonte quando o ônibus em que viajam — à semelhança do que partira do sul capixaba — é interceptado por criminosos e incendiado. O ataque deixa Gabi órfã de mãe e a obriga a passar a viver com o pai, Lucas (Paulo César Grande), e com a madrasta Selma, interpretada por Elisa Lucinda. Racista, a menina havia sido salva por pessoas negras e se vê forçada a conviver com a madrasta, deslocamento que a narrativa transforma em conflito central.
Em entrevista para A Gazeta, Cláudia Mauro relembrou as gravações e o impacto da cena: "Na novela, a personagem ia entrar no capítulo 20, 30 e entrou por volta do capítulo 90. A filmagem da morte foi bem forte. Filmamos num sábado de carnaval, com bombeiro, com todo o esquema, com fumaça, e todo suporte. Foi tudo muito real, eu me emocionei muito. A busca da personagem, a tentativa de salvar a filha e, até o momento em que ela morre queimada [mexeu muito comigo]". Como a personagem era racista, a atriz viu na morte uma forma de punição e de revisão doa atos de Angélica. "era como se a personagem estivesse ali, na verdade, não necessariamente sendo punida, mas revendo em um minuto, todos os seus valores como ser humano".