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Tragédia vivida por capixabas virou referência em novela de Manoel Carlos

Em 28 de dezembro de 2006, um ônibus que havia saído de Cachoeiro trafegava pela Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, quando foi interceptado por criminosos

Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 16:03

Ônibus que saiu de Cachoeiro e foi incendiado no Rio virou cena de novela de Manoel Carlos
Ônibus que saiu de Cachoeiro e foi incendiado no Rio virou cena de novela de Manoel Carlos Crédito: Reprodução/TV Globo/Canal Viva

Manoel Carlosfalecido no último sábado (10),  é um dos nomes simbólicos da teledramaturgia brasileira, e não apenas dela. Antes de se firmar como autor de novelas, teve atuação decisiva nos primórdios da televisão, dirigindo musicais e integrando a equipe de diretores do Fantástico em seus primeiros anos.

Essa trajetória, marcada pela observação do cotidiano e pela atenção aos pequenos gestos, ajudaria a explicar uma de suas marcas autorais mais recorrentes: a incorporação direta da vida real às tramas de ficção.

A partir de Baila Comigo, exibida em 1981, suas novelas passaram a assumir deliberadamente um tempo presente, dialogando com acontecimentos contemporâneos e dilemas reconhecíveis. Foi dentro dessa lógica que, em 2006, uma tragédia que abalou o Espírito Santo, e o país — acabou transposta para a narrativa de "Páginas da Vida", exibida no horário das 21h.

Na noite de 28 de dezembro de 2006, um ônibus que havia saído de Cachoeiro de Itapemirim com destino a São Paulo trafegava pela Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, quando, na altura do bairro de Cordovil, foi interceptado por criminosos. O veículo foi assaltado, incendiado e alvejado por disparos. Entre as vítimas estava a modelo capixaba Beatriz Furtado, então com 30 anos, que sofreu queimaduras em cerca de 35% do corpo.

Beatriz retornava de Muqui, onde havia passado o Natal com a família, e seguia para São Paulo. Vinculada à Mega Models, uma das maiores agências de modelos do país, ela sobreviveu ao ataque, mas enfrentou um longo e delicado processo de recuperação. Chegou a permanecer internada em Centro de Terapia Intensiva (CTI), com prognóstico inicial de apenas 30% de chance de sobrevivência. Ao longo dos meses seguintes, passou por mais de 16 cirurgias, algumas delas realizadas com a equipe do cirurgião plástico Ivo Pitanguy.

A tragédia, no entanto, teve um desfecho ainda mais duro. No fim de fevereiro de 2007, morreu a estudante Fernanda Furtado, que também estava no ônibus e havia sofrido queimaduras em 54% do corpo, foi enterrada em Marataízes. Um menino de seis anos levou um tiro de raspão, mas foi salvo pela mãe. Sete corpos carbonizados permaneceram no Instituto Médico Legal logo após o ataque. Ao todo, nove pessoas morreram.

O relato de Beatriz Furtado sobre o momento do ataque foi registrado meses depois:

Achei que era um assalto normal. O motorista saiu e eles roubaram algumas pessoas. Mas um deles voltou e colocou uma coisa que parecia um botijão de gás na porta. Eu ficava pensando em como ia sair dali e fui para os fundos do ônibus. Lembro de gente tossindo, tudo derretendo, meu cabelo colando, calor e muita fumaça. Quando já não estava mais conseguindo respirar, a janela estourou e eu pulei - Beatriz Furtado, ao g1 RJ, em 18/03/2007

Após o salto, a modelo descreveu os minutos seguintes como uma tentativa deliberada de sobrevivência: “Me arrastei para me fazer de morta, porque ainda tinha tiros do lado de fora. Quando os dois homens chegaram até mim e gritaram que eu estava viva ainda tive medo que eles fizessem parte do bando.”

Os homens que se aproximaram de Beatriz Furtado após o ataque não faziam parte do grupo criminoso. Eram pessoas comuns, dispostas a ajudar. Um deles a levou para casa, de onde ela foi encaminhada ao Hospital Getúlio Vargas, no bairro da Penha Circular, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O impacto do que havia acontecido não se restringia às queimaduras. Meses depois, Beatriz falaria publicamente sobre a dificuldade de se reconhecer no próprio corpo:

No princípio não me olhava. Chorei uma vez que eu me vi. Antes eu vivia da minha imagem, do meu corpo. No início não consegui falar disso, só chorava - Beatriz Furtado, em 18/08/2007, ao g1 RJ.

A reportagem tentou contato com Beatriz Furtado, mas não obteve resposta. Outra pessoa que sobreviveu ao incêndio — e que preferiu não se identificar — descreveu de forma direta o peso duradouro do episódio:

"Marcou minha vida de forma devastadora. Foram muitas sequelas emocionais. Segui com minha vida, mas um pedaço de mim ficou para trás. Nunca mais fui o mesmo. Parece que foi ontem para mim. Lembro de cada lágrima derramada. Foi muita crueldade. Está tudo muito fresco na minha cabeça. Se não tiver um alicerce espiritual, você não aguenta".

À época, a empresa Itapemirim informou ter prestado apoio aos familiares das vítimas e afirmou que “o ataque ocorrido é de responsabilidade do Estado”. Segundo reportagem do g1 RJ, publicada em 2007, a viação declarou ter arcado com as despesas funerárias das vítimas fatais.

A atriz Claudia Mauro viveu Angélica. A personagem morreu carbonizada no ônibus
A atriz Claudia Mauro viveu Angélica. A personagem morreu carbonizada no ônibus Crédito: Reprodução/TV Globo/Canal Viva

Como a realidade foi parar na novela

A transposição do episódio para a ficção dialogava diretamente com o método de trabalho de Manoel Carlos. Cronista por formação e com passagem decisiva pela criação de programas como o Fantástico, o autor cultivava uma relação quase obsessiva com a atualidade. Preferia incorporar acontecimentos do cotidiano às novelas enquanto eles ainda estavam em curso — o que tornava o processo de produção particularmente tenso. Os capítulos, muitas vezes entregues em cima da hora, exigiam dos diretores agilidade e dos atores memória afiada.

Esse modo de operar foi lembrado publicamente após a morte do autor. O ator José de Abreu escreveu em sua conta no X (antigo Twitter) sobre o gosto de Manoel Carlos por trabalhar no limite do tempo:

“Maneco (...) [era] o terror dos produtores de novelas. Não entregava os capítulos a tempo deles fazerem os roteiros semanais de gravação. Chegou a dizer que queria escrever (ou ao menos algumas cenas) o capítulo de amanhã só depois de ver o capítulo de hoje! Queria usar ao máximo a contemporaneidade da novela com a vida real. Isso criava situações insólitas. Atores recebiam capítulos para gravar no dia seguinte, alta madrugada.”

As fotografias de família dos personagens foram queimadas no incêndio
As fotografias de família dos personagens foram queimadas no incêndio Crédito: Reprodução/TV Globo/Canal Viva

Em entrevista ao jornal O Globo, publicada em 05/01/2007, na reportagem intitulada “Onda de ataques no Rio vai parar em ‘Páginas da Vida’”, Manoel Carlos explicou como a repercussão dos atentados seria incorporada à trama: “Surgirão vários comentários, inclusive um do Tide (Tarcísio Meira), elogiando a iniciativa do governo em pedir ajuda das forças federais. Ele vai mencionar também que o presidente se referiu aos atentados como atos de terrorismo.”

Na novela, Angélica (Cláudia Mauro) e Gabi (Carolina Oliveira) deixam o Rio de Janeiro em direção a Belo Horizonte quando o ônibus em que viajam — à semelhança do que partira do sul capixaba — é interceptado por criminosos e incendiado. O ataque deixa Gabi órfã de mãe e a obriga a passar a viver com o pai, Lucas (Paulo César Grande), e com a madrasta Selma, interpretada por Elisa Lucinda. Racista, a menina havia sido salva por pessoas negras e se vê forçada a conviver com a madrasta, deslocamento que a narrativa transforma em conflito central.

Em entrevista para A Gazeta, Cláudia Mauro relembrou as gravações e o impacto da cena: "Na novela, a personagem ia entrar no capítulo 20, 30 e entrou por volta do capítulo 90. A filmagem da morte foi bem forte. Filmamos num sábado de carnaval, com bombeiro, com todo o esquema, com fumaça, e todo suporte. Foi tudo muito real, eu me emocionei muito. A busca da personagem, a tentativa de salvar a filha e, até o momento em que ela morre queimada [mexeu muito comigo]". Como a personagem era racista, a atriz viu na morte uma forma de punição e de revisão doa atos de Angélica. "era como se a personagem estivesse ali, na verdade, não necessariamente sendo punida, mas revendo em um minuto, todos os seus valores como ser humano".

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