Recentemente, atores de diferentes grupos políticos — ou espectros ideológicos, para quem ainda insiste que a bulha temporal brasileira se baseia na antiquada dicotomia direita-esquerda — deram declarações a respeito de uma eventual escalada nuclear nacional: o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), afirmou que “o Brasil precisa investir mais em tecnologia nuclear para se proteger de possíveis ameaças externas”, dados os “arroubos internacionais que temos experimentado”; e o deputado federal Kim Kataguiri (Missão) apresentou uma PEC para modificar o inciso XXIII do art. 21 da Constituição Federal e excluir a menção a “fins pacíficos” nas atividades nucleares em território nacional, objetivando retaliar “fundada ameaça de uso de armas de destruição em massa” contra o país.
A isso se soma o assalto promovido pelo larápio Donald Trump ao território venezuelano, incumbido de sequestrar o ditador Nicolás Maduro — que, vale frisar, jamais mereceu simpatia alguma — e confessadamente colocar sob a tutela de corporações norte-americanas a infraestrutura petrolífera do país com as maiores reservas conhecidas desse recurso fóssil (aplaudamos tal empreitada lícita e desinteressada em companhia de Maria Corina Machado, erro grotesco do Nobel da Paz, diminuída sucintamente pelo próprio verdugo como “uma mulher simpática”).
Asseguro a Alexandre Silveira e Kim Kataguiri que estão absolutamente corretos. Se determinados personagens estrangeiros estão dispostos a violar qualquer legislação internacional para promover pilhagem em série e acumulação irrestrita de capital em prol de uma elite niilista e degenerada, teremos de abandonar parcialmente o welfare state — quiçá o conceito mais civilizado e cristão-católico da ciência política — para, infelizmente, alocar recursos em um warfare state.
O declínio da hegemonia norte-americana e o predomínio da multipolaridade são os ingredientes internacionais em que o Brasil está inserido como uma potência energética renovável, com abundância extraordinária de terras raras e uma tradição diplomática que promove os interesses nacionais rejeitando alinhamentos automáticos.
A lógica colonialista que tem envenenado o continente americano soa como um réquiem de desconsolo, mas evidencia que, no momento atual e futuro, terão soberania somente as nações que exercerem poder militar dissuasório, preferencialmente via arsenal atômico. É possível tirarmos proveito de toda essa franqueza na persecução de propósitos transgressores; como anteriormente observado por Francisco Rezek, “Trump, esse sociopata, rompeu com a hipocrisia que marcava o comportamento norte-americano frente ao resto do mundo”.
O cenário que descrevi torna muitíssimo bem-vindo o projeto — já aprovado e sancionado em novembro — que exclui do arcabouço fiscal despesas de até R$ 5 bilhões ao ano com defesa nacional entre 2026 e 2031, beneficiando programas de fronteira tecnológica como PROSUB, MANSUP-ER, Gripen e SISFRON. Por mim, gastaríamos bem mais.
É preferível acreditar em boitatá à fábula do “orçamento nacional como orçamento doméstico”, segundo a qual não se poderia gastar mais do que o arrecadado com tributos, independentemente da natureza da despesa; somos um Estado com moeda fiduciária, cujas políticas fiscal e monetária precisam se pautar nessa prerrogativa, conforme reiteram economistas comprometidos com as potencialidades nacionais.
Endividamento decorrente de expansão de crédito público direcionado ao parque industrial militar significa aproveitamento de capacidade ociosa e aumento de capacidade instalada, geração de empregos qualificados, registro de patentes e crescimento econômico sustentável. Ponto.
Mas o recrudescimento militar brasileiro deve ser condicionado a algo que foge às manchetes: uma drástica intervenção civil no aparato sob controle das Forças Armadas, sobretudo centros de formação de oficiais. Esse jogo de gato e rato na América Latina já passou de todos os limites: qualquer aluno que sente nos bancos de AMAN, IME, AFA, ITA, Escola Naval e afins precisa internalizar desde o primeiro dia que um militar é digno e bom se, e somente se, prestar continência a um civil e disser “sim, senhor”. E que quem violou essa regra no passado é perverso e traidor da pátria — o golpe de 1964 contra um governo nacionalista de viés trabalhista, democraticamente eleito, só foi removido do rol de datas comemorativas das Forças Armadas em 2011 (!!).
Os professores de disciplinas sem enfoque militar — relações internacionais, direito constitucional e administrativo, economia, sociologia etc. — devem ser civis concursados. Qualquer manifestação de cunho político ou revisionista deve ser publicamente rechaçada pelos superiores e resultar em purga do militar responsável. Vazamento de insatisfações internas precisa ser tratado como insubordinação gravíssima à chefia civil. Existe algo mais cansativo do que ler na imprensa que determinado episódio “causou desconforto” nas Forças Armadas? Estamos nos lixando para tal desconforto, meus jovens.
E essa rédea curta, com arreio, não se mostra primordial apenas por noções mínimas de democracia, mas também para garantir que os militares gozem de capacidade técnica para cumprir sua missão institucional. Creio que a prova cabal disso seja a minuta sigilosa Cenários de Defesa 2040, resultado de 500 entrevistas colhidas pelo Ministério da Defesa em reuniões organizadas pela Escola Superior de Guerra. Parece uma brincadeira de mau gosto: tendo em conta declarações pontuais de Emmanuel Macron sobre internacionalização da Amazônia, a França, nossa vizinha através da Guiana Francesa, é vista pelo oficialato brasileiro como a principal ameaça estratégica nos próximos 20 anos. Ademais, no cenário hipotético criativamente traçado, a Argentina, antigo adversário geopolítico, é tida como ameaça quando tenta instalar uma base militar chinesa em seu território em 2034 — Brasília demove Buenos Aires da ideia diplomaticamente.
Tragicômico: as tropas que aportaram em território argentino em 2025 para exercícios militares, autorizadas por decreto presidencial sem aval do Congresso Nacional daquele país, são norte-americanas, não chinesas. Quanto à questão amazônica, realmente Macron é o mais espertinho e apto dos líderes europeus; os franceses manifestam interesse nos recursos fósseis da margem equatorial e nos recursos naturais do bioma; e, de fato, econômica e militarmente, a França é a única potência europeia a fazer frente ao Brasil, já que alemães estão castrados pelas desventuras passadas e britânicos optaram por se autodestruir nos últimos 60 anos.
Mas qualquer aluno de graduação sabe que a França, longe de seus melhores dias, concentra recursos na África, especialmente em antigas colônias, para manter alguma zona de influência comercial e militar. Se cogitasse alguma indisposição bélica com o Brasil para exercer influência na Amazônia, certamente o faria na condição de preposta territorialmente avançada da OTAN, sob a tutela restritiva da liderança norte-americana.
Não nos espanta que esses delírios advenham quase que exclusivamente de oficiais remanescentes da Cruzada Democrática, grupo de oposição à ala nacionalista das Forças Armadas que, indo de encontro à identidade histórico-cultural brasileira e às evidências empíricas mais gritantes, acredita(va) piamente numa sintonia de destino entre brasileiros e ianques.
Eis o nível das pessoas com quem ainda somos forçados a lidar: em 1977, o então capitão Augusto Heleno, ajudante de ordens do ministro do Exército Sylvio Frota, tramou junto ao seu prócer um golpe contra Ernesto Geisel — o mais nacionalista e coerente dos presidentes militares —, por considerá-lo “comunista”. Ambos foram demitidos e passaram a ser vigiados pelo Serviço Nacional de Informações (SNI).
Pois bem. Na parte 2 deste artigo, trataremos do atual estágio brasileiro no domínio da tecnologia nuclear e no desenvolvimento de mísseis de longo alcance, partes protagonistas no esforço de manejo de ameaças externas a uma nação de dimensões continentais.
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