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É jornalista, consultor político e especialista em imagem, reputação e crises

O tribunal de inquisição da internet como assassino de reputações

Web virou um território onde pessoas se lançam em assuntos que não dominam, ou que suas mãos não alcançam, para destilar ódio e subscrever suas sentenças

Publicado em 05/04/2021 às 11h53
Mulheres seguram celular
Redes sociais trouxeram muitas vantagens, mas também outros efeitos perniciosos. Crédito: Pexels

Quem és tu que queres julgar, com vista que só alcança um palmo, coisas que estão a mil milhas?

O Tribunal da Inquisição da Internet se dividiu mais uma vez. Uma parte dos juízes, envoltos na toga digital, condenou – com perdão ao trocadilho – a prisão do deputado federal Daniel Silveira; a outra, julgou quem se colocou a favor da decisão do STF. São tempos em que a voz do extremismo é mais audível que a da sensatez.

A democratização da informação provocada pelas redes sociais trouxe muitas vantagens. Mas, com elas, outros efeitos perniciosos surgiram. A internet é a nova praça de inquisição contemporânea. Tal qual na Idade Média, descumprir uma regra moral é mais do que suficiente para os chamados “cancelamentos” ou, em maior grau, para a execração pública, com ameaças de toda ordem. E não há imagem pública que sobreviva incólume às investidas desses julgamentos. Basta um derrape moral ou ético para ser alvo dos juízes digitais.

Mas o que leva essa gente a julgar coisas que estão a mil milhas do alcance delas mesmas, como sentenciou Dante Aligheri na pergunta que abre este artigo? Muitas dessas pessoas nem sequer acompanham o trabalho de seus parlamentares no Congresso e outras tantas são incapazes de listar quais foram seus candidatos nas últimas duas ou três eleições.

A psicologia explica que, quando julgamos, supostamente nos assentamos num patamar superior e intocável: alimentamos a ilusão de algo que definitivamente não existe; investimos na alucinação de nossa evolução moral; reforçamos uma imagem falaciosa sobre nós mesmos; e negamos que somos humanos e passíveis de ocupar a posição de réu. Nos tornamos deuses.

"A Divina Comédia", a mais conhecida obra de Dante Aligheri, é divida em três partes. A primeira delas, o Inferno, que precede o Purgatório e o Paraíso, abre um interessante debate acerca da justiça. O autor sugere observar três aspectos que mais desagradam aos céus e que, ao serem evitados, abrandariam uma possível pena no submundo. São elas a Malícia, a Incontinência e a Bestialidade.

A violência é uma característica bestial do ser humano, seja ela física, seja a ferina forma digital, que desfigura a vítima tanto quanto a primeira. A alma incontinente tem culpa, mas ainda é menos grave que a má-fé, preposto da malícia que usa de toda sua sedução e astúcia para causar danos.

A internet virou um território onde pessoas se lançam em assuntos que não dominam, ou que suas mãos não alcançam, para destilar ódio e subscrever suas sentenças.

A mesma liberdade de expressão prevista no Artigo 5º da Constituição Federal e invocada pelo deputado Daniel Silveira para realizar declarações pouco republicanas não pode servir de expediente para apoiadores e detratores defenderem ou condenarem sua conduta.

Não somos os deuses que nossa psique criou. E, na posição de passíveis de ocupar o lugar de réu – na internet todos nós estamos sentenciados a isso algum dia –, a justiça do sexto círculo do inferno de Dante pode até parecer mitológica demais para este mundo terreno em que vivemos. Todavia as crises de imagem são bem reais, nocivas e, muitas delas, irreparáveis.

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