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É bacharel em Filosofia

O que explica a queda dos furtos e roubos no Espírito Santo

O crime não desapareceu. Reorganizou-se. Entender essa mudança é condição básica para formular políticas públicas que não combatam apenas o problema de ontem, enquanto o de hoje se consolida em silêncio

  • Paulo Brandão É bacharel em Filosofia
Publicado em 07/01/2026 às 14h46

Janeiro inaugura o calendário, mas não inaugura o vazio. Seu nome vem de Jano, o deus romano de duas faces: uma voltada para trás, outra para frente. É o mês que ensina que não existe futuro sem balanço do passado. Em 2026, o Espírito Santo entra no novo ano carregando um dado que chama atenção: a queda consistente dos furtos e roubos a pessoa, registrada praticamente em todos os municípios do estado nos últimos anos.

A redução desses crimes, observada de forma contínua, merece análise cuidadosa. O dado é positivo, mas não comporta leitura simplista nem celebração automática. Não se trata de um feito isolado de governo, tampouco de uma súbita mudança moral da sociedade. O que se observa é um rearranjo estrutural das dinâmicas sociais, urbanas e criminais.

Os números do Painel de Furtos e Roubos a Pessoa do Espírito Santo, produzido pelo Observatório da Segurança Pública da Sesp, dão materialidade a esse movimento. Entre 2018 e 2025, Vila Velha reduziu seus registros de 7.329 para 2.221 ocorrências. Serra caiu de 6.979 para 1.817. Cariacica, de 7.742 para 1.974. Vitória, de 5.458 para 1.898. São quedas superiores a 60% nos principais centros urbanos do Estado, o que afasta a hipótese de flutuação pontual ou erro estatístico.

Do ponto de vista da sociologia criminal, crimes contra o patrimônio praticados na rua dependem fundamentalmente de três fatores: oportunidade, expectativa de ganho e risco percebido. O que mudou no Espírito Santo — e no país de modo geral — foi o equilíbrio entre esses três elementos.

A oportunidade diminuiu. O cotidiano urbano pós-pandemia consolidou práticas que reduzem a exposição das pessoas ao espaço público: menos circulação noturna, menos dinheiro em espécie, maior uso de trabalho remoto e deslocamentos mais planejados. Ruas menos cheias não significam cidades mais seguras em sentido amplo, mas reduzem a probabilidade do encontro entre agressor e vítima, condição básica para o roubo de oportunidade. Esse efeito aparece tanto na Região Metropolitana quanto no interior: Linhares, por exemplo, passou de 1.234 registros em 2018 para 331 em 2025; São Mateus, de 1.324 para 181 no mesmo período.

O ganho também caiu. O principal objeto do roubo urbano — o telefone celular — perdeu valor no mercado ilegal. A popularização de aparelhos mais baratos, somada a sistemas de bloqueio, rastreamento e inutilização, tornou a revenda mais difícil e menos lucrativa. Na lógica econômica do crime, quando o retorno diminui, a prática deixa de ser atrativa. Não há romantismo nisso, apenas racionalidade. Municípios médios ilustram bem esse processo: Cachoeiro de Itapemirim, que registrava cerca de 800 ocorrências em 2018, passou a pouco mais de 200 nos anos mais recentes.

Já o risco aumentou. O uso mais amplo de câmeras públicas e privadas, a integração de sistemas de informação, o policiamento orientado por dados e a maior capacidade de resposta elevaram a probabilidade de identificação e prisão em crimes de rua. O roubo, que sempre dependeu da rapidez e do anonimato, tornou-se mais exposto. Para o criminoso, passou a ser um mau negócio. Isso ajuda a explicar por que a queda é mais intensa justamente nos municípios com maior densidade urbana e maior cobertura tecnológica.

Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que a redução é generalizada, inclusive em municípios com perfis sociais distintos. Onde há pequenas oscilações ou aumentos pontuais, sobretudo em cidades menores como ColatinaAracruzMarataízes ou Viana, o fenômeno se explica mais por variação estatística — poucas dezenas de ocorrências a mais ou a menos — do que por reversão de tendência. Não há, nos dados recentes, municípios com crescimento consistente desse tipo de crime.

PM anuncia reforço no policiamento durante combate ao novo coronavírus
PM anuncia reforço no policiamento durante combate ao novo coronavírus. Crédito: Divulgação/PMES

Nada disso significa que a violência diminuiu na mesma proporção. O que ocorreu foi uma migração. Enquanto os furtos e roubos a pessoa caem de forma contínua, os registros de estelionato, fraudes bancárias e golpes digitais crescem, acompanhando a digitalização das relações econômicas e sociais. O crime seguiu o dinheiro. Tornou-se menos visível, mais pulverizado e, em muitos casos, mais difícil de investigar.

O Estado teve papel relevante ao aumentar o custo do crime visível, mas não é o único protagonista desse processo. A mudança no comportamento das pessoas — mais cautela, menos exposição, menos reação — também foi decisiva. Trata-se menos de confiança institucional e mais de adaptação social ao risco, um traço típico de sociedades que aprendem a conviver com a incerteza.

No início de 2026, olhar para esses dados exige equilíbrio. A queda dos furtos e roubos a pessoa é real, mensurável e relevante. Ignorar isso seria negar evidências. Transformar esse resultado em prova de que a violência está sob controle, porém, seria um erro de avaliação.

O crime não desapareceu. Reorganizou-se. Entender essa mudança — sustentada por dados e não por slogans — é condição básica para formular políticas públicas que não combatam apenas o problema de ontem, enquanto o de hoje se consolida em silêncio.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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