Janeiro inaugura o calendário, mas não inaugura o vazio. Seu nome vem de Jano, o deus romano de duas faces: uma voltada para trás, outra para frente. É o mês que ensina que não existe futuro sem balanço do passado. Em 2026, o Espírito Santo entra no novo ano carregando um dado que chama atenção: a queda consistente dos furtos e roubos a pessoa, registrada praticamente em todos os municípios do estado nos últimos anos.
A redução desses crimes, observada de forma contínua, merece análise cuidadosa. O dado é positivo, mas não comporta leitura simplista nem celebração automática. Não se trata de um feito isolado de governo, tampouco de uma súbita mudança moral da sociedade. O que se observa é um rearranjo estrutural das dinâmicas sociais, urbanas e criminais.
Os números do Painel de Furtos e Roubos a Pessoa do Espírito Santo, produzido pelo Observatório da Segurança Pública da Sesp, dão materialidade a esse movimento. Entre 2018 e 2025, Vila Velha reduziu seus registros de 7.329 para 2.221 ocorrências. Serra caiu de 6.979 para 1.817. Cariacica, de 7.742 para 1.974. Vitória, de 5.458 para 1.898. São quedas superiores a 60% nos principais centros urbanos do Estado, o que afasta a hipótese de flutuação pontual ou erro estatístico.
Do ponto de vista da sociologia criminal, crimes contra o patrimônio praticados na rua dependem fundamentalmente de três fatores: oportunidade, expectativa de ganho e risco percebido. O que mudou no Espírito Santo — e no país de modo geral — foi o equilíbrio entre esses três elementos.
A oportunidade diminuiu. O cotidiano urbano pós-pandemia consolidou práticas que reduzem a exposição das pessoas ao espaço público: menos circulação noturna, menos dinheiro em espécie, maior uso de trabalho remoto e deslocamentos mais planejados. Ruas menos cheias não significam cidades mais seguras em sentido amplo, mas reduzem a probabilidade do encontro entre agressor e vítima, condição básica para o roubo de oportunidade. Esse efeito aparece tanto na Região Metropolitana quanto no interior: Linhares, por exemplo, passou de 1.234 registros em 2018 para 331 em 2025; São Mateus, de 1.324 para 181 no mesmo período.
O ganho também caiu. O principal objeto do roubo urbano — o telefone celular — perdeu valor no mercado ilegal. A popularização de aparelhos mais baratos, somada a sistemas de bloqueio, rastreamento e inutilização, tornou a revenda mais difícil e menos lucrativa. Na lógica econômica do crime, quando o retorno diminui, a prática deixa de ser atrativa. Não há romantismo nisso, apenas racionalidade. Municípios médios ilustram bem esse processo: Cachoeiro de Itapemirim, que registrava cerca de 800 ocorrências em 2018, passou a pouco mais de 200 nos anos mais recentes.
Já o risco aumentou. O uso mais amplo de câmeras públicas e privadas, a integração de sistemas de informação, o policiamento orientado por dados e a maior capacidade de resposta elevaram a probabilidade de identificação e prisão em crimes de rua. O roubo, que sempre dependeu da rapidez e do anonimato, tornou-se mais exposto. Para o criminoso, passou a ser um mau negócio. Isso ajuda a explicar por que a queda é mais intensa justamente nos municípios com maior densidade urbana e maior cobertura tecnológica.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que a redução é generalizada, inclusive em municípios com perfis sociais distintos. Onde há pequenas oscilações ou aumentos pontuais, sobretudo em cidades menores como Colatina, Aracruz, Marataízes ou Viana, o fenômeno se explica mais por variação estatística — poucas dezenas de ocorrências a mais ou a menos — do que por reversão de tendência. Não há, nos dados recentes, municípios com crescimento consistente desse tipo de crime.
Nada disso significa que a violência diminuiu na mesma proporção. O que ocorreu foi uma migração. Enquanto os furtos e roubos a pessoa caem de forma contínua, os registros de estelionato, fraudes bancárias e golpes digitais crescem, acompanhando a digitalização das relações econômicas e sociais. O crime seguiu o dinheiro. Tornou-se menos visível, mais pulverizado e, em muitos casos, mais difícil de investigar.
O Estado teve papel relevante ao aumentar o custo do crime visível, mas não é o único protagonista desse processo. A mudança no comportamento das pessoas — mais cautela, menos exposição, menos reação — também foi decisiva. Trata-se menos de confiança institucional e mais de adaptação social ao risco, um traço típico de sociedades que aprendem a conviver com a incerteza.
No início de 2026, olhar para esses dados exige equilíbrio. A queda dos furtos e roubos a pessoa é real, mensurável e relevante. Ignorar isso seria negar evidências. Transformar esse resultado em prova de que a violência está sob controle, porém, seria um erro de avaliação.
O crime não desapareceu. Reorganizou-se. Entender essa mudança — sustentada por dados e não por slogans — é condição básica para formular políticas públicas que não combatam apenas o problema de ontem, enquanto o de hoje se consolida em silêncio.
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