Vitória é uma ilha. Essa característica geográfica molda nossa economia, nossa cultura e o modo como vivemos a cidade. As praias, portanto, são ativos econômicos e sociais. Delas dependem trabalhadores, ambulantes, restaurantes, instrutores de esportes, pescadores, atletas e milhares de moradores que usam o mar para lazer, saúde e convívio.
Nas últimas semanas, a suspeita de lançamento de esgoto nas águas das praias da Curva da Jurema, Ilha do Boi e Ilha do Frade tomou o debate público. Quem passa hoje por essas praias vê o que moradores e banhistas têm denunciado insistentemente: água com coloração anormal, áreas com forte odor e manchas escuras que chegam a se estender mar adentro. Essas imagens mobilizaram registros feitos com drones por moradores e também inúmeros relatos de frequentadores preocupados com a qualidade da água.
Enquanto imagens aéreas mostram manchas extensas e frequentadores relatam problemas de saúde, os boletins oficiais da prefeitura seguem classificando as praias como “próprias para banho”. Como explicar esse descompasso entre o que os olhos veem e o que os relatórios afirmam?
Não é novidade que o nosso litoral já enfrentou problemas com qualidade da água no passado. O que é novíssimo e preocupante é a persistente falta de respostas adequadas e transparentes por parte da prefeitura, diante de evidências e reclamações reiteradas da população.
Em áreas urbanas densas, com redes de drenagem pluvial que lançam água diretamente no mar, eventos de contaminação podem ocorrer de forma intermitente. O atual protocolo de intervalo de sete dias entre análises pode simplesmente não capturar picos de contaminação. Não se trata de acusar sem prova. Trata-se de reconhecer que o modelo atual pode não ser suficiente para dar segurança plena à população.
Vitória tem uma cadeia econômica ligada ao mar. São ambulantes que dependem da movimentação da praia, atletas que treinam diariamente na água, praticantes de canoa havaiana, natação em mar aberto, vela e diversas outras atividades esportivas. Toda essa cadeia está sentindo o impacto da mancha sem resposta. E, claro, existe a dimensão ambiental.
Foi exatamente por isso que apresentei uma indicação ao Governo do Estado que seja viabilizada, em caráter de extrema urgência, a adoção de um protocolo mais rigoroso de monitoramento da balneabilidade nas praias de Vitória, com análises laboratoriais realizadas em intervalos menores, especialmente nas áreas onde o problema foi registrado.
Se os dados confirmarem que não há risco, todos ganhamos: a cidade, os frequentadores e a economia. Se apontarem necessidade de intervenção, teremos instrumentos para agir com rapidez.
Vitória merece um debate público à altura da importância da sua orla. E merece, sobretudo, que a gestão municipal trate esse patrimônio com a transparência e o cuidado que ele exige.
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