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Katia Matos da Silva Ferei
Katia Matos da Silva Ferei. Crédito: Rede social

Dois anos após ser curada de câncer, Katia foi morta com tiro na cabeça

Katia Mota era professora e foi assassinada na frente da filha de 10 anos. O marido foi preso em flagrante apontado como o autor do crime

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 14/04/2021 às 19h56

A professora Katia Matos da Silva Ferreira, 49 anos, carrega no sobrenome as marcas da vida e da morte. O ‘Matos’, veio da mãe dela, de quem herdou a profissão. Já o ‘Da Silva’  é do pai, motorista aposentado, que lhe era referência de afeto. O ‘Ferreira’ recebeu quando se casou com o cabo Márcio Borges Ferreira, acusado de assassiná-la com tiro na cabeça. 

O casal tinha uma filha, de 11 anos, que assistiu à morte da mãe, na noite do domingo, dia 11 de abril. Apesar de toda a vizinhança ter ouvido o tiro que ecoou do apartamento do casal no segundo andar, foi o pedido de socorro da menina nos demais apartamentos que fez com que chamassem não só o Samu, mas também uma equipe da Polícia MilitarO marido, cabo da PM,  foi preso em flagrante pela morte de Katia

O apartamento onde aconteceu o crime está de portas trancadas. O imóvel foi dado pelos pais à Katia, que já havia transferido a propriedade para a filha de 11 anos. Na terça-feira, porém, um dia depois do sepultamento, a menina acompanhou as tias ao local. 

Além dos brinquedos e roupinhas, a menina pediu permissão para pegar uma roupa da mãe. Desde domingo, a criança não pergunta sobre o pai e não fala do assassinato da mãe. Ela está sob os cuidados dos primos e primas, já que os avós maternos estão com a saúde debilitada.  

PEDAGOGIA

Katia, quando mais jovem, ingressou na faculdade de Administração. Mas ao terminar o curso, percebeu que a sala de aula lhe encantava, assim como a mãe, hoje professora aposentada. Não demorou e logo  começou a cursar Pedagogia, logo depois emendou duas pós-graduações.

Contratada pela Secretaria de Educação, Katia atuava como professora na Escola Estadual Manoel Lopes, na Serra. "Era querida pelos alunos. Desde o início da pandemia, passou a dar aulas on-line, o que foi um novo desafio", conta Iany Mattos, 49 anos, prima que cresceu com Katia.  

CÂNCER

Em 2019, Katia descobriu um nódulo na mama e dedicou mais de seis meses à operação, tratamento e posteriormente a um implante mamário. "Quando eu soube, ela já estava com a prótese. Ela sempre escondia os problemas dela para poupar as pessoas ao redor. Só contou sobre o próprio câncer quando já estava curada", lembra Iany.

Professora Kátia Matos da Silva Ferreira, 49, foi assassinada pelo marido PM em Jardim da Penha, Vitória
Professora Kátia Matos da Silva Ferreira, 49, foi assassinada em Jardim da Penha, Vitória. Crédito: Rede social

O enfrentamento da doença fortaleceu a professora ao se deparar de novo com a doença na família. A mãe e o pai, motorista aposentado, de Kátia tinham na única filha uma referência de cuidado. Era ela quem levava o pai aos médicos no embate contra um câncer de próstata e também de pâncreas. E também auxiliava nos acompanhamentos da mãe, portadora de Alzheimer em estágio avançado e Mal de Parkison.  

"Era ela quem acompanha a todos nos médicos, sabia os remédios e cada passo dos tratamentos. E mesmo assim, ainda conseguia cuidar da casa, da filha e fazia o que fosse pela felicidade dos que ela amava", conta a prima.

CASAMENTO

Se dizendo sobrecarregada e cansada da pandemia, Katia mandou mensagem para a prima Iany duas semanas antes do crime, já tarde da noite.

"Nos falávamos quase diariamente por mensagens. Mas neste dia, ela estava chorando. Minha prima disse ser depressão, em razão da  pandemia, pois tudo era muito triste. Também disse estar preocupada com os pais, tinha muita responsabilidade com eles, e estava com um aperto no coração", lembra Iany.

Nenhuma palavra sobre o casamento foi dita por Katia. Aliás, raramente falava sobre o marido.  "As poucas vezes que reclamou dele, era por ser muito machista. Não ajudava em nada, queria roupa lavada e comida pronta", recorda-se a prima.

Iany conta que a prima trabalhava fora, era independente, e também era uma excelente dona de casa. Cozinhava bem e sempre mantinha a casa organizada. "Em especial pela filha, a quem ensinava mais que qualquer habilidade, a ter caráter e retidão, qualidades que os pais de Katia, que são meus padrinhos, deram a mim e a ela", conta. 

Cabo da PM, Márcio Borges Ferreira matou a esposa Kátia Matos da Silva Ferreira no domingo (11), na frente da filha, em Vitória
Cabo da PM, Márcio Borges Ferreira matou a esposa Kátia Matos da Silva Ferreira no domingo (11), na frente da filha, em Vitória. Crédito: Reprodução | Redes Sociais

Em 2016, o casal chegou a se separar por um ano e meio. O cabo saiu de casa e foi obrigado a manter-se afastado por mais de 500 metros por ordem judicial. "Porém, os dois acabaram voltando, em especial pela presença da filha e pelo sentimento que minha prima tinha pelo marido. Ela decidiu assim e nós respeitamos. Minha prima insistiu nesse casamento, fez a parte dela, mas ele não", disse Iany.

FAMÍLIA

A morte de Katia é uma ferida aberta na família. "O tiro que atingiu minha prima, reverberou em toda a família. É como se tivesse destruído um pouco de cada um de nós", desabafa Iany, de quem o filho era afilhado de Katia.

"A relação dos dois era muito linda. Katia era o tipo de pessoa que se eu chegasse a faltar, meu filho seria muito bem cuidado por ela", completa.

O pai de Katia, o motorista aposentado Valdir da Silva, foi internado no CTI de um hospital particular,  na manhã de terça-feira (13). "Ele estava sem estrutura para aguentar tudo isso ainda mais com a saúde já debilitada", diz Iany.

"Vamos levar sempre o sorriso de Katia conosco. Era uma mulher determinada e muito trabalhadora. Cuidava de todos e guardava seus problemas para não sobrecarregar os demais. Sempre carinhosa e dengosa com a única filha. A saudade que vai ficar eu não consigo descrever agora, pois tenho ódio quando penso naquele maldito. Ela vai ter que resgatar os débitos que fez em vida", desabafou a prima, já aos prantos.  

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