Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 14:42
Na discussão entre Jonas Sulzbach e Juliano Floss, no Big Brother Brasil 26, o hormônio progesterona entrou em pauta. Em tom de deboche, Jonas acusou Juliano de não ter testosterona e ter progesterona — um hormônio associado ao organismo biologicamente feminino.>
“Você não sabe falar. É tanta testosterona. Treinou tanto, mas não malhou o cérebro”, disse Juliano durante uma briga. “Coisa que você não tem. Você nunca vai ter testosterona. Você tem o que? Progesterona”, retrucou Jonas. >
Ao associar a progesterona exclusivamente ao organismo feminino, o comentário ignorou um dado básico da endocrinologia. A ciência mostra que homens e mulheres produzem progesterona, assim como testosterona e estrogênio, em quantidades diferentes, mas com funções importantes para o equilíbrio do corpo. >
A progesterona é um hormônio esteroide produzido principalmente pelos ovários, pelas glândulas adrenais e, durante a gestação, pela placenta. Nos homens, ela é produzida em menores quantidades pelos testículos e também pelas adrenais. De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e com a Endocrine Society, trata-se de um hormônio essencial para a regulação do sistema reprodutivo e para diversos processos metabólicos, atuando como precursor de outros hormônios, inclusive a testosterona e o cortisol.>
>
Segundo o endocrinologista João Antônio Fernandes, da Unimed Sul Capixaba, a ideia de que existam hormônios exclusivos de um único gênero não corresponde à realidade biológica. “Todos os hormônios sexuais estão presentes em homens e mulheres. O que muda é a concentração e a forma como eles interagem no organismo. Esse equilíbrio influencia a reprodução, a saúde óssea, o funcionamento do cérebro, o metabolismo e até o humor. Estrogênio, testosterona e progesterona atuam de maneira integrada e são fundamentais para a homeostase do corpo humano”, explica.>
No organismo masculino, a progesterona participa da produção de espermatozoides e da regulação da função testicular. Além disso, atua como moduladora da ação da testosterona, contribui para o equilíbrio do sistema nervoso central e está relacionada à qualidade do sono e ao controle de processos inflamatórios. Estudos citados pelo National Institutes of Health apontam ainda seu papel como precursora de hormônios androgênicos e glicocorticoides, fundamentais para a resposta ao estresse e para o metabolismo energético.>
No corpo feminino, a progesterona é amplamente conhecida por seu papel no ciclo menstrual e na gestação. O especialista explica que ela prepara o endométrio para a possível implantação do embrião, ajuda a manter a gravidez nas fases iniciais e regula o ciclo ao lado do estrogênio. Fora do sistema reprodutivo, também influencia a saúde óssea, o funcionamento do sistema imunológico e o equilíbrio emocional. “A progesterona tem efeito calmante no sistema nervoso central, o que explica por que variações hormonais podem impactar o humor e o sono em diferentes fases da vida da mulher”, afirma João Antônio Fernandes.>
Do ponto de vista clínico, a progesterona é utilizada em diferentes contextos médicos. Entre eles estão a terapia hormonal na menopausa, o tratamento de distúrbios menstruais, o suporte à gestação em casos específicos e protocolos de reprodução assistida. “Em homens, seu uso é mais restrito e ocorre apenas em situações bem indicadas, sempre com acompanhamento médico. “Hormônio não é suplemento. O uso precisa ser individualizado, baseado em exames e indicação clara, porque interferir nesse equilíbrio pode trazer riscos”, alerta o endocrinologista.>
Segundo a ginecologista Karin Rossi, do Hospital Santa Rita, a ideia de que determinados hormônios pertencem a apenas um gênero é um erro comum. Todos os hormônios sexuais estão presentes em homens e mulheres. O que muda são as concentrações e a função predominante em cada organismo.
>
A progesterona participa do equilíbrio entre estrogênios e andrógenos, regula processos inflamatórios e integra o eixo adrenal, sendo importante na resposta ao estresse. Além disso, atua no sistema nervoso central, com efeitos ansiolíticos e sedativos leves, modulação do sono via receptores GABA, neuroproteção e influência direta sobre humor e cognição. “A progesterona também é relevante para a produção de espermatozoides, o que desmonta completamente a ideia de que sua presença seria sinal de ‘falta de masculinidade’”, ressalta Karin Rossi.>
No organismo feminino, a progesterona tem funções mais conhecidas, mas igualmente complexas. Ela prepara o endométrio para a gestação, regula o ciclo menstrual, reduz a contratilidade uterina e atua no desenvolvimento das estruturas mamárias, especialmente na diferenciação dos lóbulos e alvéolos. É também considerada o principal hormônio da gravidez. No sistema nervoso central da mulher, seus efeitos são semelhantes aos observados nos homens, contribuindo para o equilíbrio do sono, do humor e da cognição.>
A progesterona é produzida em diferentes partes do corpo. Nas mulheres, uma pequena quantidade é fabricada continuamente pelas glândulas adrenais, onde ela funciona como etapa intermediária para a produção de outros hormônios importantes, como o cortisol e a aldosterona. “No entanto, a principal fonte de progesterona são os ovários, mais especificamente o corpo lúteo, que se forma após a ovulação. Estimulado pelo hormônio luteinizante (LH), esse tecido transforma o colesterol em pregnenolona e progesterona. Além disso, o corpo lúteo também produz androgênios e estrogênios, o que mostra que a produção de hormônios funciona de forma integrada, dependendo do metabolismo de cada órgão endócrino e não somente separada por gênero”, diz a ginecologista.>
Karin Rossi explica que nos homens pequenas quantidades de progesterona circulam a partir dos testículos e do córtex da adrenal. “Já a testosterona, o andrógeno mais ativo, é produzida principalmente nas células de Leydig dos testículos, também a partir do colesterol. As adrenais produzem andrógenos com cerca de um quinto da atividade da testosterona testicular, reforçando que a potência hormonal está ligada à origem e às enzimas envolvidas, e não à exclusividade do hormônio em si”, afirma a médica.>
No campo clínico, a progesterona tem uso consolidado na medicina. Ela é amplamente empregada para regular o ciclo menstrual, tratar insuficiência lútea, endometriose e sangramentos uterinos disfuncionais, além de ser essencial no suporte à gestação e em tratamentos de reprodução assistida. “Na terapia hormonal da menopausa, por exemplo, a progesterona é fundamental para proteger o endométrio dos efeitos do estrogênio, reduzindo riscos”, explica Carlos Campagnaro, que é professor do Unesc.>
Apesar de ser considerada segura quando bem indicada, a progesterona exige acompanhamento médico. “O uso sem prescrição não é recomendado”, diz Carlos Campagnaro. Entre as principais contraindicações estão histórico de câncer hormônio-dependente, doenças tromboembólicas ativas, sangramentos vaginais sem diagnóstico e doenças hepáticas graves. Efeitos como sonolência, retenção de líquidos, alterações de humor e dor de cabeça podem ocorrer, especialmente quando utilizada de forma inadequada.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta