Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 09:00
Durante muito tempo, a menopausa foi tratada como um evento pontual, associado ao fim da menstruação e às ondas de calor. A ciência mais recente, porém, vem mostrando que os impactos mais relevantes na saúde feminina começam antes, em uma fase de transição chamada perimenopausa, que pode durar de dois a até dez anos e ainda é pouco reconhecida pelas mulheres. >
“A perimenopausa é marcada por grandes oscilações nos níveis de estrogênio e progesterona, provocadas pela diminuição gradual da função ovariana. Diferentemente do que se imagina, não se trata de uma queda linear dos hormônios, mas de flutuações intensas e imprevisíveis, capazes de afetar diversos sistemas do corpo, especialmente o cérebro”, explica a médica Fabiane Berta, especialista em menopausa.>
Segundo ela, estudos conduzidos por universidades e centros de pesquisa internacionais apontam que essa fase representa um verdadeiro estado de transição neurológica, semelhante, em intensidade biológica, à puberdade, mas no sentido inverso. “Muitos dos sintomas mais comuns da perimenopausa têm origem cerebral. Regiões como o hipotálamo e o hipocampo, responsáveis pela regulação da temperatura corporal, do sono, da memória e das emoções, são altamente sensíveis às variações do estrogênio. Essas alterações hormonais interferem diretamente em neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina, o que ajuda a explicar sintomas frequentes como irritabilidade, ansiedade, lapsos de memória, dificuldade de concentração e alterações de humor”, afirma.>
Dados epidemiológicos internacionais indicam que o risco de depressão pode aumentar de duas a cinco vezes durante a perimenopausa, quando comparado aos períodos antes e depois dessa transição. Pesquisas também mostram que índices de ansiedade, crises de pânico e até ideação suicida atingem picos entre mulheres de meia-idade, coincidindo com esse período de instabilidade hormonal. “Apesar disso, esses sintomas ainda são frequentemente atribuídos apenas ao estresse, à sobrecarga de trabalho ou a questões emocionais, o que contribui para atrasos no diagnóstico e no tratamento”, alerta Berta.>
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As ondas de calor, conhecidas como fogachos, continuam sendo um dos sinais mais reconhecidos da perimenopausa, afetando cerca de 80% das mulheres. O que muitas desconhecem é que esses episódios são fenômenos essencialmente cerebrais. “A queda do estrogênio compromete o centro de controle térmico do cérebro, provocando sensações súbitas de calor e sudorese, muitas vezes acompanhadas de taquicardia e mal-estar. Quando ocorrem à noite, os fogachos fragmentam o sono e desencadeiam um ciclo de cansaço persistente, piora cognitiva e maior vulnerabilidade emocional. Estudos associam a frequência desses episódios a maior risco cardiovascular, pior desempenho de memória e maior incidência de sintomas depressivos”, ressalta a pesquisadora.>
Embora seja mais comum a partir dos 40 anos, a perimenopausa pode começar ainda no final dos 30. Alterações no padrão do sono, fadiga constante, diminuição da libido, dificuldade de manter o foco e a sensação de que o corpo já não responde da mesma forma costumam ser os primeiros sinais. >
“No Brasil, milhões de mulheres convivem com esses sintomas sem um diagnóstico claro, em parte porque não existe um exame específico capaz de confirmar a perimenopausa. O diagnóstico é clínico e depende da escuta atenta, da análise do histórico menstrual e da exclusão de outras condições, como disfunções da tireoide ou deficiências nutricionais”, alerta a especialista.>
Além dos efeitos sobre o cérebro, a perimenopausa também está associada a mudanças metabólicas importantes, como aumento da resistência à insulina, maior acúmulo de gordura abdominal e elevação do risco cardiovascular. A saúde óssea começa a ser impactada ainda nessa fase, com redução progressiva da densidade mineral, especialmente em mulheres que não tiveram acompanhamento preventivo ao longo da vida. Alterações na saúde íntima, como ressecamento vaginal e maior predisposição a infecções urinárias, também podem surgir antes mesmo da menopausa propriamente dita.>
“O tratamento da perimenopausa é individualizado e deve considerar sintomas, histórico de saúde e fatores de risco. A terapia hormonal segue sendo a opção mais eficaz para muitas mulheres, especialmente quando iniciada precocemente e com acompanhamento médico adequado. Evidências científicas mais recentes indicam benefícios no alívio dos sintomas e na proteção cardiovascular, óssea e cognitiva, quando bem indicada. Ainda assim, nem todas as mulheres podem ou desejam utilizar hormônios, o que torna fundamental a ampliação de opções terapêuticas não hormonais e estratégias integrativas baseadas em evidência científica”, explica Fabiane.>
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