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"Câncer de colo do útero pode ser evitado com exames e vacina", diz oncologista

"Câncer de colo do útero pode ser evitado com exames e vacina", diz oncologista

Rachel Cossetti, oncologista criadora da campanha Março Lilás, fala dos métodos de prevenção do câncer de colo do útero, doença que mata 20 mulheres ao dia no Brasil

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Guilherme Sillva

Editor do Se Cuida / [email protected]

Publicado em 10 de março de 2026 às 08:00

Rachel Cossetti
Rachel Cossetti é a responsável por criar em 2016, a campanha Março Lilás, de combate ao câncer do colo do útero Crédito: Divulgação/ Rachel Cossetti

câncer de colo do útero é um tumor maligno que se desenvolve na parte inferior do útero, aquela que se conecta com a vagina. Na maioria dos casos, ele é causado por uma infecção persistente por alguns tipos do Papilomavírus Humano (HPV). Esse tipo de câncer se desenvolve na região inferior do útero, conhecida como colo do útero, que conecta o corpo do útero à vagina.

Ele é o tipo de câncer que mais mata mulheres até os 35 anos no Brasil e o segundo mais letal entre aquelas com até 60 anos, sendo que cerca de 20 mulheres morrem todos os dias em decorrência da doença. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta mais de 19 mil novos casos no país anualmente, sendo o terceiro tipo de câncer mais incidente entre as mulheres de maneira geral. "Ele tem uma causa importante que é a infecção pelo vírus HPV, que está presente em quase 100% dos casos, e pode ser radicado, tanto através da vacina contra o HPV e dos exames de rastreamento", diz a oncologista Rachel Cossetti. 

A médica maranhense é a responsável por criar em 2016, a campanha Março Lilás Março Lilás, de combate ao câncer do colo do útero. A ideia surgiu a partir dos casos que testemunhou enquanto dirigia o Hospital do Câncer Aldenora Bello, em São Luiz. “Nas estatísticas daquela época, uma a cada três mulheres atendidas com câncer tinha tumores cervicais”, lembra.

Na entrevista, que aconteceu em São Paulo durante o lançamento da campanha deste ano, a oncologista fala dos desafios do câncer, da necessidade de prevenção e do acesso das mulheres aos exames de prevenção como a arma mais poderosa contra o avanço da doença. Confira!

Por que o câncer de colo do útero ainda está entre os que mais mata mulheres no Brasil?

Apesar de ser uma doença prevenível, o câncer de colo de útero ainda é um dos que mais acometem e matam as mulheres no Brasil. Em algumas regiões é a principal causa de câncer e de morte por câncer nas mulheres. Ele tem uma causa importante que é a infecção pelo vírus HPV, que está presente em quase 100% dos casos, e pode ser radicado, tanto através da vacina contra o HPV e dos exames de rastreamento. O que a gente vê é que acaba sendo uma doença de distribuição heterogênea no mundo e está muito mais presente em áreas em que as condições socioeconômicas são menos favorecidas e que elas têm menor acesso aos serviços de saúde. No mundo a gente vê que os principais locais de incidência e morte por câncer de colo de útero são na região de países africanos, países de baixa renda e com baixo IDH. No Brasil temos incidências elevadas e de forma heterogênea e regiões que tem grandes incidências da doença. 

Depois de estudar no Canadá o que encontrou ao voltar para o Maranhão?

Encontrei muitas mulheres morrendo e sendo diagnosticadas com o câncer de colo do útero avançado. Muitas já com sintomas há mais de um ano. No Maranhão a história clássica era de uma mulher que chega com sangramento, dor na pelve, no quadril, corrimento com um odor bastante desagradável e que, um ano depois, ela finalmente consegue fazer uma biópsia, e tem um diagnóstico de câncer de colo do útero, porque à atenção primária em saúde falhou. Falhou no rastreamento, no diagnóstico até quando ela já tinha os sintomas, e ela chega para fazer um tratamento de uma doença em que as chances de cura já são menores ou em estágio avançado, quando é uma doença que pode ser evitada. O exame de rastreamento é muito importante. As mulheres que já iniciaram atividade sexual têm que fazer o exame para detecção de lesões precursoras que podem ser tratadas e curadas.

E qual é a dificuldade?

A gente sabe que, é difícil a implementação dos exames de rastreamento com uma abrangência adequada com uma cobertura de mais de 80% da população na faixa etária recomendada. Essa mulher precisa receber o resultado do exame, que muitas vezes no SUS demora meses, e ela acaba desistindo. Também não recebe um encaminhamento ou um agendamento para fazer o próximo passo do exame, que é uma colposcopia ou uma biópsia. Tudo isso traz gargalos e dificulta que as mulheres busquem a prevenção. E com a estratégia da vacinação disponível no Brasil temos uma oportunidade real de erradicar essa doença e fazer com que o câncer de colo do útero e as infecções pelo HPV fiquem no passado. 

Qual que é o cenário da vacinação do HPV no Brasil?

Ela tem tido um uma adesão cada vez maior, mas a gente sabe ainda está aquém do que é o necessário. A recomendação da Organização Mundial de Saúde é que 90% da população seja vacinada. A nossa vacinação, na maioria dos lugares, não atinge nem 80% para as meninas. Os meninos, em geral, a taxa de cobertura vacinal é ainda menor. Então, é fundamental vacinar essas crianças e adolescentes (entre 9 e 14 anos). Existe uma necessidade dessa vacinação retornar às escolas, onde crianças e adolescentes estão, para que a gente alcance mais essa população que é a que vai ter maior benefício da vacinação contra o HPV.

Esse tipo de câncer pode deixar de ser um um problema de saúde pública com a vacinação e o exame Papnicolau?

No mundo, a taxa de mortalidade é de cerca de 50%, então metade das mulheres são diagnosticadas em estágio avançado e vão morrer por essa doença. A vacinação consegue evitar a infecção pelos principais tipos de HPV que causam o câncer. E mesmo as meninas que são vacinadas devem fazer o exame preventivo. Até uns anos atrás, a recomendação de rastreamento no Brasil era o exame de Papanicolau. Recentemente, houve uma mudança pelo Ministério da Saúde que incorporou o teste do DNA HPV na realização do exame ginecológico.

O teste do DNA HPV é mais sensível e consegue detectar o risco e a presença do HPV que é causador do câncer de colo do útero

Rachel Cossetti

Oncologista

Esse novo teste já tá disponível no SUS?

Ele está sendo implementado gradativamente. Sabemos que o exame de Papanicolau - que é simples e que já era para estar disponível em 100% das unidades - ainda encontra dificuldades logísticas e de implementação com a disponibilidade do exame, de coleta e de agendamento. Essa logística do rastreamento não é muito organizada, ainda tem muitas falhas e não conseguimos fazer com que esse rastreamento tenha um resultado eficaz de redução de incidência de mortalidade da doença.

Qual a periodicidade que deve ser feito o exame de Papanicolau?

Toda mulher a partir dos 25 anos, que já teve relação sexual, deve fazer o exame de Papanicolau uma vez por ano. Essa é a principal recomendação. Atualmente está sendo recomendado o teste do DNA HPV. Então a mulher que já iniciou a atividade sexual faz o teste da pesquisa do DNA do HPV, e caso de positivo para o HPV oncogênico (alto risco), deve fazer uma colposcopia.

Pela sua experiência, as mulheres ainda não fazem o Papanicolau por vergonha, falta de informação ou de vontade... E o que pode ser feito para incentivá-las?

Não acho que é falta de cuidado ou de vontade, mas que elas não têm a facilidade para fazer o exame. E essas mulheres que realmente são acometidas em grande parte pelo câncer de colo do útero, já enfrentam uma vida muito dura a busca por esse exame é mais um desafio no seu dia a dia. Já recebi inúmeros relatos da ausência da enfermeira,  do material de coleta no posto de saúde ou de nunca ter recebido o resultado do exame. A gente entende que as dificuldades e os desafios para essa mulher realizar o exame são muito grande.

O que falta para eliminarmos esse câncer que pode ser prevenido por vacinação?

Falta vacinar e rastrear. Precisamos vacinar nossa população em massa, atingindo a meta de 90% das nossas crianças e adolescentes. Além disso, é necessário rastrear pelo menos 70% das mulheres, conforme as diretrizes internacionais que já estão disponíveis no Brasil

Apesar das dificuldades e críticas ao SUS, temos um sistema que oferece esses serviços às brasileiras. É fundamental a informação chegar até elas e compreendam como o diagnóstico faz a diferença em suas vidas. Precisamos garantir essa prática e esse atendimento a essas mulheres, para que elas estejam, de fato, protegidas e prevenidas.

Quais são os principais sinais de alerta que a mulher tem que ter?

O ideal é realizar o exame de rastreamento independentemente de qualquer sinal ou sintoma. Se você tem 25 anos ou mais e já iniciou a vida sexual, deve realizar o seu exame preventivo de rotina. O vírus pode estar presente de forma totalmente assintomática. Além disso, se houver sangramento vaginal anormal, dor ou sangramento após a relação sexual, corrimento ou qualquer ferida que perdure por duas semanas, esses sinais devem ser investigados.

Estimativas do Inca trazem mais de 19 mil casos novos casos por ano do câncer do colo do útero. Quais são os desafios?

Precisamos focar na prevenção primária, realizada por meio da vacina, e fortalecer a prevenção secundária, feita via exames de rastreamento. Estes precisam ser implementados de forma a garantir a continuidade do atendimento. Além disso, as mulheres mais vulneráveis e com menor acesso aos serviços de saúde devem ser as principais beneficiadas.

Que balanço você faz desses 10 anos de campanha?

Ainda não tivemos uma redução em números. Por isso, é necessário atingir a redução de incidência e mortalidade. Esse é o objetivo final. Que as mulheres possam viver mais e melhor sem essa doença. A vacinação demora alguns anos para surtir esse efeito e espero que nas próximas décadas a gente consiga ver essa mudança de realidade. 

*O jornalista viajou a convite da MSD Brasil. 

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