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Entenda

Surto de Ebola no Congo: infectologistas explicam quais os riscos do vírus

É uma infecção extremamente agressiva, capaz de desencadear falência múltipla de órgãos e alterações hemorrágicas importantes

Publicado em 25 de Maio de 2026 às 14:34

Guilherme Sillva

Publicado em 

25 mai 2026 às 14:34
Surto de ebola no congo
A República Democrática do República Democrática do Congo enfrenta um novo surto de ebola Reuters/Folhapress

A República Democrática do República Democrática do Congo enfrenta um novo surto de ebola em meio a conflitos armados, pobreza extrema e dificuldades no acesso à saúde. Segundo especialistas, a doença voltou a circular no país com uma variante rara do vírus, considerada altamente letal.


Este é o 17º surto de ebola registrado no Congo desde 1976. Desta vez, a variante identificada foi a Bundibugyo, que pode levar à morte em até 40% dos casos.


O diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou nesta segunda-feira (25) que o surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda está se alastrando mais rapidamente do que a capacidade de resposta, elevando o número de mortes suspeitas para 220.


Em uma reunião online da União Africana sobre o surto, Ghebreyesus afirmou que a demora na detecção dos casos de ebola significa que os profissionais de saúde estão agora "correndo atrás do prejuízo" e que a epidemia provavelmente piorará antes de melhorar.


De acordo com infectologista Marina Malacarne, do Hospital São José, o ebola é uma doença viral grave causada por vírus do gênero Ebolavirus, pertencente à família Filoviridae. “É uma infecção extremamente agressiva, capaz de desencadear falência múltipla de órgãos e alterações hemorrágicas importantes. A letalidade varia conforme a cepa viral e a capacidade de resposta do sistema de saúde local”, explica a especialista.


A doença foi identificada pela primeira vez em 1976, em surtos simultâneos no Sudão e na atual República Democrática do Congo, próximo ao Rio Ebola, que deu nome à enfermidade. Desde então, diferentes variantes do vírus foram descritas, incluindo Zaire, Sudan, Taï Forest, Reston e Bundibugyo. O vírus é considerado zoonótico, tendo como principais reservatórios naturais os morcegos frugívoros.


Segundo Marina Malacarne, a transmissão ocorre pelo contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas, como sangue, saliva, suor, urina, fezes, vômito, sêmen e secreções respiratórias. Objetos contaminados também podem transmitir o vírus. “O Ebola não é transmitido pelo ar como ocorre com vírus respiratórios clássicos. A infecção exige contato próximo com fluidos contaminados ou superfícies infectadas”, afirma. A infectologista destaca ainda que a transmissão pode ocorrer durante rituais funerários com manejo inadequado de corpos contaminados e também pelo contato com animais silvestres infectados.


Os sintomas costumam surgir entre dois e 21 dias após a exposição ao vírus. Inicialmente, o quadro pode se assemelhar a outras infecções febris, com febre alta súbita, fadiga intensa, dores musculares, dor de cabeça e dor de garganta. Com a evolução da doença, podem surgir vômitos, diarreia intensa, dor abdominal, erupções cutâneas, insuficiência hepática e renal, além de hemorragias internas e externas. “Nas formas graves, o vírus provoca uma resposta inflamatória descontrolada, conhecida como tempestade imunológica, associada a alterações vasculares e distúrbios de coagulação”, explica a médica.


Após entrar no organismo, o vírus infecta inicialmente células do sistema imunológico, especialmente macrófagos e células dendríticas, espalhando-se rapidamente pela corrente sanguínea. O processo desencadeia intensa liberação de citocinas inflamatórias, provoca danos nos vasos sanguíneos e compromete a coagulação, favorecendo sangramentos, choque circulatório e falência múltipla de órgãos. Além disso, ocorre supressão importante da resposta imunológica do organismo.

Os sinais da doença

Diferente de doenças respiratórias, como gripe e covid-19, o ebola não é transmitido pelo ar. O infectologista Lorenzo Nico Gavazza, da Bluzz Saúde, explica que a infecção ocorre principalmente pelo contato direto com sangue, secreções e fluidos corporais de pessoas contaminadas que já apresentem sintomas da doença.


“A sua transmissão ocorre pelo contato direto com secreções, sangue ou tecidos corporais de pessoas infectadas que já estejam com a doença e com sintomas”, destaca o médico. O contato com animais infectados ou objetos contaminados também pode transmitir o vírus, especialmente nos primeiros momentos de surtos em determinadas regiões.


Os sintomas costumam surgir entre dois e 21 dias após a exposição ao vírus. Inicialmente, os sinais podem ser confundidos com outras doenças virais, incluindo febre alta, dores musculares, dor de cabeça intensa e fraqueza.

Lorenzo Nico Gavazza
Lorenzo Nico Gavazza explica como é a transmissão da doença Divulgação

Com a progressão da doença, o quadro pode se agravar rapidamente, levando a vômitos, diarreia, dores abdominais intensas, falência de órgãos e hemorragias internas e externas

Lorenzo Nico Gavazza Infectologista

O vírus invade as células do sistema imunológico e se espalha rapidamente por todo o organismo. "Ele causa uma resposta inflamatória muito intensa que, progressivamente, compromete o funcionamento de órgãos vitais, como o fígado e os rins”, explica Gavazza.


O especialista afirma ainda que o vírus interfere diretamente na coagulação do sangue, favorecendo sangramentos e colapso do sistema circulatório em estágios avançados da doença.

Existe vacina?

Atualmente, existem vacinas aprovadas contra algumas variantes do Ebola, principalmente contra a cepa Zaire, responsável pelos maiores surtos registrados. A principal delas é a Ervebo. “As vacinas disponíveis apresentam boa eficácia para determinadas cepas, sobretudo a Zaire. Elas representam um avanço importante na redução da mortalidade e no controle de surtos”, afirma Marina Malacarne.


No entanto, o atual surto é causado pela variante Bundibugyo, para a qual ainda não existe vacina licenciada. Segundo a médica, isso representa um desafio importante para as autoridades sanitárias. “O vírus Bundibugyo possui diferenças genéticas relevantes em relação à cepa Zaire. Isso reduz a eficácia cruzada das vacinas atualmente disponíveis”, explica. Pesquisas seguem em andamento para o desenvolvimento de imunizantes capazes de oferecer proteção contra diferentes espécies do vírus.


Sem vacina específica para essa variante, as estratégias de prevenção seguem fundamentais. Entre elas estão o isolamento imediato de casos suspeitos, uso rigoroso de equipamentos de proteção individual, rastreamento de contatos, higiene frequente das mãos, manejo seguro de corpos, controle sanitário em aeroportos e fronteiras e ações de educação comunitária. “A contenção do Ebola depende principalmente de vigilância epidemiológica rápida e protocolos rigorosos de biossegurança”, ressalta a infectologista.


Em relação ao tratamento, ainda não existe cura universal específica para todas as variantes do Ebola. O atendimento é baseado principalmente em suporte intensivo, incluindo hidratação venosa, correção de distúrbios eletrolíticos, suporte respiratório e controle hemodinâmico. Em alguns casos, anticorpos monoclonais específicos podem ser utilizados, especialmente contra a cepa Zaire. “O diagnóstico precoce e o suporte clínico intensivo aumentam significativamente as chances de sobrevivência”, destaca.


Apesar da preocupação internacional, o risco de o atual surto chegar ao Brasil é considerado baixo. Segundo a infectologista, o país possui protocolos de vigilância epidemiológica, monitoramento de viajantes e capacidade laboratorial para identificação rápida de casos suspeitos. “O risco de transmissão sustentada no Brasil é considerado muito baixo devido à estrutura de vigilância sanitária e à rápida identificação de casos importados. Ainda assim, surtos internacionais exigem atenção constante das autoridades de saúde”, conclui Marina Malacarne.

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