Observar as fezes é uma forma simples, mas muito útil, de acompanhar o funcionamento do sistema digestivo. Mudanças no aspecto das evacuações podem refletir desde alterações benignas, como mudanças na alimentação ou hidratação, até condições que merecem investigação médica.
Segundo a gastroenterologista Rafaela Richa, do Hospital Santa Rita, características como cor, formato, consistência e frequência são importantes indicadores. A cor, por exemplo, pode trazer pistas relevantes - fezes amarronzadas costumam ser consideradas normais, enquanto tons muito claros podem indicar alterações nas vias biliares.
“Já as fezes escurecidas - quase pretas - chamamos de melena e podem estar associadas a sangramentos no trato digestivo alto, enquanto a presença de vermelho vivo pode indicar sangramentos mais baixos, como em hemorróidas ou fissuras anais - embora outras causas também precisem ser consideradas, como o câncer de intestino”, explica a médica.
O formato e a consistência também merecem atenção. A especialista ressalta que fezes muito duras e fragmentadas geralmente indicam constipação, frequentemente relacionada à baixa ingestão de fibras e líquidos. “Por outro lado, fezes muito líquidas podem estar associadas a infecções, intolerâncias alimentares ou alterações intestinais. Quando essas mudanças são persistentes, o ideal é observar outros sintomas associados, como dor abdominal, perda de peso, febre ou cansaço, e buscar avaliação médica”, alerta.
A médica acrescenta que a presença de sangue nas fezes, em qualquer quantidade, sempre deve ser investigada, mesmo quando há suspeita de causas benignas, para descartar condições mais sérias e garantir o tratamento adequado.
Do ponto de vista fisiológico, a gastroenterologista Mayara Fiorot Lodi afirma que as fezes são o produto final de um processo complexo de digestão e absorção. “Não existe um padrão único considerado normal, mas mudanças abruptas ou persistentes no hábito intestinal devem ser investigadas.”
A médica explica que alterações na frequência evacuatória, por exemplo, estão ligadas ao tempo de trânsito intestinal. “Quando esse trânsito é muito lento, há maior reabsorção de água, resultando em fezes endurecidas. Quando é acelerado, ocorre menor absorção de líquidos, levando a fezes mais líquidas”.
Mayara Fiorot Lodi ressalta, ainda, que a frequência evacuatória pode revelar sinais precoces de outras condições, como distúrbios funcionais - a exemplo da síndrome do intestino irritável - ou até situações mais sérias como neoplasias do cólon, especialmente quando acompanhadas de sintomas como sangue nas fezes, perda de peso ou anemia. “Ela também está intimamente relacionada ao estilo de vida. Rotina alimentar irregular, estresse crônico e alterações no sono podem impactar diretamente o funcionamento intestinal, evidenciando a conexão entre o intestino e o sistema nervoso”, diz.
A médica diz que monitorar a frequência evacuatória não é apenas observar ‘quantas vezes se vai ao banheiro’, mas compreender o funcionamento global do intestino. "Qualquer alteração persistente deve ser valorizada e, se necessário, investigada com acompanhamento médico”, conclui a professora do Unesc.