Nem todo infarto chega com dor intensa no peito ou sinais claros de emergência. Em muitos casos, o problema acontece de forma discreta ou até imperceptível. É o chamado infarto silencioso, uma condição que preocupa especialistas justamente por sua capacidade de passar despercebida enquanto causa danos ao coração.
De acordo com o cardiologista Augusto Neno, da MedSênior, o infarto silencioso é aquele que ocorre sem sintomas típicos ou que passa despercebido pelo paciente, sendo identificado posteriormente em exames como eletrocardiograma ou imagem cardíaca. Embora pouco reconhecido pela população, ele não é raro: pode representar de 9% a 37% dos infartos não fatais e está associado a maior risco de complicações e morte.
“A principal característica desse tipo de infarto é a ausência da dor torácica clássica, frequentemente descrita como um aperto ou pressão no peito. Em muitos pacientes, não há sintoma algum durante o evento. Em outros, os sinais são tão sutis que acabam ignorados ou confundidos com problemas cotidianos. Quando existem manifestações, elas tendem a ser atípicas e inespecíficas, o que faz com que o paciente não reconheça o evento como um infarto”, explica o especialista.
Entre os sinais mais comuns — ainda que pouco valorizados — estão a falta de ar sem causa aparente, o cansaço excessivo, palpitações e desconfortos na região do estômago. A dispneia, ou dificuldade para respirar, merece atenção especial”, alerta o cardiologista.
Mesmo sem dor no peito, a falta de ar inexplicada é um sintoma preocupante e pode estar associada a maior risco de morte
As mulheres, em particular, costumam apresentar quadros ainda mais atípicos. Em vez da dor central no peito, podem sentir dores nas costas, no pescoço, na mandíbula ou nos braços, além de sintomas como náusea, fadiga intensa e até uma sensação inexplicável de ansiedade ou mal-estar. Isso contribui para que o diagnóstico seja ainda mais tardio nesse grupo.
Alerta
Mesmo sem as manifestações clássicas, como cansaço excessivo, falta de ar, dor no estômago, desconforto leve no peito, tontura, sudorese fria, náuseas ou dor em regiões como mandíbula, costas ou braço, a cardiologista Betina Walker, do Hospital Santa Rita, diz que no infarto silencioso há interrupção do fluxo sanguíneo para o músculo cardíaco, causando lesão.
Segundo a especialista, na maioria dos casos, o diagnóstico não ocorre no momento do evento, mas posteriormente, por meio de exames como eletrocardiograma, ecocardiograma ou testes de imagem que mostram cicatrizes no coração. “Por isso, a atenção aos sinais e o acompanhamento médico são fundamentais, especialmente em pessoas de risco”.
O cardiologista Alex Gomes Rodrigues, do Hospital São Jose, diz que muitas dessas ocorrências podem passar despercebidas quando os sintomas são leves ou atípicos, o que reforça a subnotificação do problema. “Estamos diante de uma condição que muitas vezes não é diagnosticada no momento em que acontece, mas que deixa sequelas importantes no coração e aumenta o risco de novos eventos”.
Mesmo sem sintomas evidentes, o infarto pode levar a complicações graves, como insuficiência cardíaca, arritmias e aumento do risco de novos eventos cardiovasculares e morte. “O perigo está justamente no atraso do diagnóstico, que impede intervenções precoces e salvar vidas”, afirma Betina Walker. A cardiologista diz que qualquer sintoma suspeito, mesmo que leve, como falta de ar inexplicada, fadiga intensa ou desconforto torácico deve ser avaliado, especialmente em pessoas com fatores de risco e sendo muito comum.
Controle da doença
A condição é mais frequente em pessoas com fatores de risco cardiovascular. Diabetes, hipertensão, colesterol elevado, tabagismo, obesidade e sedentarismo estão entre os principais. O diabetes, especialmente, se destaca. “É o preditor independente mais significativo. Pacientes diabéticos têm maior chance de apresentar infartos silenciosos, muitas vezes por não perceberem a dor devido a alterações nos nervos”, explica Augusto Neno.
O grande problema é que, sem diagnóstico no momento em que ocorre, o infarto silencioso continua evoluindo sem tratamento imediato. Quando finalmente identificado, geralmente em exames de rotina, o dano ao músculo cardíaco já está estabelecido. E isso tem impacto direto no prognóstico. “Pacientes com infarto silencioso apresentam maior risco de morte e de insuficiência cardíaca ao longo do tempo”, afirma o especialista. Dados clínicos indicam que a mortalidade pode ser mais que o dobro em pacientes que não tiveram dor no peito durante o evento.
Na prática, não é possível que a própria pessoa identifique um infarto silencioso no momento em que ele acontece. Ainda assim, sinais persistentes ou incomuns não devem ser ignorados. Falta de ar progressiva, fadiga fora do habitual ou desconfortos recorrentes merecem investigação, especialmente em quem já apresenta fatores de risco. “Mesmo sintomas leves devem ser valorizados. Em caso de dúvida, a avaliação médica é fundamental”, orienta o cardiologista.
Já diante de sintomas mais típicos — como dor ou pressão no peito, falta de ar súbita, desmaio ou dor irradiada para braços, costas ou mandíbula — a recomendação é procurar atendimento imediato. “No infarto, o tempo é determinante. Quanto mais rápido o tratamento, maiores as chances de preservar o coração”, reforça.
Embora o dano causado por um infarto não possa ser completamente revertido, é possível controlar a doença e evitar novos eventos. O tratamento inclui medicamentos, acompanhamento médico e mudanças no estilo de vida. Parar de fumar, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física e controlar doenças como diabetes e hipertensão são medidas essenciais.
Quando questionada se o dano causado ao músculo cardíaco é reversível, Betina Walker destaca que, em geral, é permanente, pois as células do coração têm baixa capacidade de regeneração. No entanto, ela afirma que é possível controlar a doença, prevenir complicações e manter qualidade de vida com tratamento adequado. “Com diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo, muitos pacientes vivem bem após um infarto”, conclui.