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Câncer de mama: doença pode ser um mergulho de experiência humana e fé

Enfrentar o tratamento não é fácil, mas pode se tornar uma experiência enriquecedora com a oportunidade de produzir reconciliação com as fragilidades e, ao mesmo tempo, superar as dores e incertezas

Publicado em 25/10/2020 às 06h00
Atualizado em 25/10/2020 às 06h01
Sandra Maria Motta
Sandra Motta, 51 anos, descobriu uma câncer de mama em 2017. "Foi uma grande experiência. Tive a oportunidade de praticar a fé". Crédito: Jaime Costa Júnior

Por mais que o tratamento de câncer de mama seja difícil, é também nesse momento que as pacientes encontram força para enfrentar a doença. E essa jornada pode se tornar uma experiência humana. Mas, para isso, é preciso ter fé.

Algumas pesquisas mostram que a espiritualidade também é uma ferramenta de enfrentamento ao câncer. Acreditar e encontrar sentido na existência, além de perceber o mundo para além do material, produz esperança, sensação de refúgio e certeza de amparo, o que ajuda no processo terapêutico.

O doutor em Ciências da Religião Kenner Terra explica que, para o paciente tornar a jornada do tratamento mais humana, é preciso se reconciliar com suas limitações. "Perceber que somos frágeis e sujeitos a diversos males possibilita vencermos o sentimento de culpa, o medo da exposição... Dessa forma, aceitamos auxílios que são extremamente necessários. A humanização é fundamental porque nos enraíza na realidade e não permite que criemos expectativas inalcançáveis. A espiritualidade saudável, inclusive, não tenta ocultar as fraquezas humanas com discursos triunfalistas, mas desenvolve senso de dependência e humildade diante das dores comuns da realidade humana", diz.

Kenner Terra

Doutor em Ciências da Religião

"A humanização é fundamental porque nos enraíza na realidade e não permite criarmos expectativas inalcançáveis"

O professor conta que a fé ajuda no tratamento. "Há pesquisas que mostram que fé é fundamental no tratamento, especialmente por gerar uma 'teimosa esperança'. Antes de produzir passividade ou irresponsabilidade, a fé madura é fonte de fôlego e coragem durante o tratamento. A fé dá razão para continuar. E permite encontrarmos propósito até mesmo nas experiências irracionais da vida", diz Kenner.

EXPERIÊNCIA E TANTO

O doutor diz que, para quem enfrenta o câncer, a fé não pode servir de alienação ou para deslocamento da realidade. O grande benefício está na capacidade de produzir reconciliação com as fragilidades, ao mesmo tempo em que aponta para a esperança de superar as dores e incertezas. "Tal postura faz com que a maneira como o paciente enfrente o processo já seja uma grande vitória".

Sandra Motta
A bailarina contemporânea Sandra Motta venceu o câncer de mama em 2018. "Eu também não sabia que a fé é essa força tão incrível". Crédito: Carla Bianca C. Nigro

Fé não faltou para a fisioterapeuta, educadora física e bailarina contemporânea Sandra Motta, de 51 anos. Em abril de 2017, enquanto conversava com a mãe, sem querer tocou a mama direita. E percebeu um nódulo. "Na semana seguinte fiz os exames e confirmou minha suspeita. Soube do resultado dirigindo, quase morri de acidente de carro e não do câncer. Não enxerguei mais nada. Fiquei cheia de dúvidas, mas todas de ordem prática, mas não fiz a pergunta: 'por que comigo?'", conta.

Sandra Motta

Fisioterapeuta, educadora física e bailarina contemporânea

"Sem o olhar da fé eu não teria tido a experiência mais fantástica da minha vida, pois eu não conseguiria enxergar toda a beleza que uma dor pode te trazer"

O tratamento durou 10 meses entre mastectomia radical (retirada total) da mama direita, 16 sessões de quimioterapia e 25 de radioterapia. E, apesar de todas as incertezas, ela conta como a fé foi importante. "Sem o olhar da fé eu não teria tido a experiência mais fantástica da minha vida, pois eu não conseguiria enxergar toda a beleza que uma dor pode te trazer. Às vezes, as pessoas diziam para mim: 'nossa, você tem tanta fé!'. Eu respondia: 'provavelmente você também tem, mas nunca precisou tanto dela como eu estou precisando neste momento. Eu também não sabia que ela é esta força tão incrível'. Tive a oportunidade de praticá-la", conta.

Para ela, o período da doença foi um mergulho na experiência humana. "Quanto mais eu experimentava a fragilidade do físico, vendo o meu corpo definhar, mais eu mergulhava em Deus, sentia meu espírito forte. Essa é a experiência do humano mais incrível. Nunca desejei o sofrimento, mas acredito que em Deus ele se torna um terreno muito fértil para nossa mudança e crescimento como filhos de Dele. A gratidão, ao invés da reclamação, e a oferta da vida, ao invés do drama, foram os principais ingredientes para eu passar por esta situação na paz e na alegria", lembra Sandra.

CONCEITO

Kenner Terra, que também é pastor, explica que o conceito de fé é polissêmico e pode ser aplicado a várias coisas. É muito comum vinculá-lo a práticas ou expectativas produzidas pelas instituições religiosas. "Contudo, quando alargamos o sentido do termo concluímos que ele está para além dos sistemas religiosos e suas estruturas tradicionais. Crer no valor da vida, no sentido da existência ou até mesmo em um Ser superior é possível mesmo quando não somos vinculados a alguma instituição".

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