ASSINE

Canicross: um esporte para você e seu cachorro

Projeto de Lei proíbe a prática de corridas competitivas de cães no país por conta dos maus-tratos sofridos por animais treinados para a Corrida de Galgos. Mas praticantes de Canicross fazem movimento no Brasil, já que a lei, se aprovada, também os atingirá, alegando que os princípios desse esporte são de total respeito aos cães

Publicado em 09/02/2021 às 02h04
Corrida de Galgos
Corrida de Galgos . Crédito: Pixabay

Muitas pessoas praticam corrida recreativa com seus cachorros. Basta dar uma volta pela orla de Vitória e Vila Velha, por exemplo, para observar os mascotes e seus donos correndo juntos. Mas em muitos casos essa prática consiste em um esporte amador, como no caso do Canicross, que já reúne adeptos no Espírito Santo.

Um deles é o capixaba Abner da Silva Azevedo, que tem como duplas a Pandora, uma Dálmata de dois anos, e o Colt, um Braco Alemão de oito meses.

Abner explica que o Canicross é um esporte originário da Europa, que foi desenvolvido para manter os cães de trenós com bom condicionamento físico em épocas sem neve. “Com o tempo, o esporte foi ultrapassando fronteiras, à medida que foram observando-se os benefícios tanto para o animal, quanto para o seu dono. É um esporte de extrema conexão entre o cão, o humano e a natureza”, explica.

Abner da Silva Azevedo com Pandora
Abner da Silva Azevedo pratica corrida com a sua cadela Pandora. Crédito: Divulgação/Matheus Gonçalves

Projeto de Lei

A questão, agora, é o Projeto de Lei (nº 1.441/2019), dos deputados federais Ricardo Izar (PP/SP) e Weliton Prado (PROS/MG), que proíbe em todo o território nacional a realização de corridas competitivas com cães ou atividades similares de mesma natureza.

Segundo Izar, esse PL surgiu após o movimento internacional Galgo Livre procurá-lo solicitando uma lei que acabasse com as Corridas de Galgos, que já entraram no Brasil pelo Rio Grande do Sul, onde estavam sendo realizadas. “O objetivo do PL é exatamente acabar com as Corridas de Galgos, um esporte cruel, se é que pode ser considerado esporte, já que está mais para uma barbárie medieval, onde ficam evidentes os maus-tratos aos animais”, explica Izar.

A questão, segundo Abner, é que da forma como o PL foi elaborado, ele proíbe, também, a prática de esportes como o Canicross, cujos princípios, ressalta, são totalmente diferentes das Corridas de Galgos.

“O Canicross vai muito além do fato de apenas correr com os cães. Existem regras que visam o bem-estar e a saúde do cão que devem ser respeitadas antes, durante e após a corrida. As competições são organizadas garantindo o cumprimento delas. Para nossos cães é apenas mais um dia de treino, porém em um lugar diferente, na companhia de outros cachorros e corredores. É um estímulo mental e físico fantástico para o desenvolvimento e a qualidade de vida de nossos animais. E são usados todos os equipamentos de segurança”, garante Abner.

Corrida de Galgos

A Coordenadora do Movimento Galgo Livre Brasil, Juscelita Noetzold, explica que o projeto nasceu da necessidade de oferecer um espaço para receber denúncias sobre abuso, exploração e abandono de Galgos em todo o Brasil. “Já conseguimos sucesso com a campanha em dois países, Argentina e Uruguai, onde a prática já é proibida”, alerta Noetzold.

O objetivo, segundo ela, é defender o Galgo em todos os seus aspectos, dos galgueros exploradores, que os utilizam como meros objetos para corridas ou para reprodução, para caçar lebres, javalis ou emas, ou que os utilizam como material de descarte quando não são mais rentáveis, da pior maneira possível. “É uma atividade clandestina que visa apenas o lucro, da forma mais cruel que se possa imaginar”, denuncia.

Revisão da legislação

Willian Oliveira com Xico
Willian Oliveira é campeão sul-americano no esporte e faz dupla com o seu cão Xico. Crédito: Divulgação/ Willian Oliveira

O educador físico e atleta de Canicross carioca, Willian Oliveira, que é campeão sul-americano no esporte, fazendo dupla com o seu cão Xico, um Braco Alemão de quatro anos, explica que no Rio de Janeiro o governo já baixou um Decreto com as mesmas premissas do PL do deputado federal Ricardo Izar e, por isso, lá já está proibido o Canicross e qualquer esporte nesse sentido. Além de Xico, Oliveira também pratica o esporte com os seus quatro cães sem raça definida, a Caramelo, o Snoopy, a Meg e o Bill.

“A gente concorda totalmente que qualquer pessoa que maltrata animais deve ser punida conforme à lei. O problema é que essas legislações estão muito amplas e colocando todo mundo no mesmo saco. No Canicross nós e o nosso cão fazemos algo prazeroso para ambos e todos os limites do animal são respeitados, não os obrigamos, de maneira nenhuma, a correr. O princípio é apenas o da companhia e da diversão que o esporte pode proporcionar aos dois. Por isso, estamos fazendo um movimento nacional para que essas leis sejam revistas”, ressalta.

O deputado federal Ricardo Izar deixou claro que não vê problema nenhum em fazer as alterações necessárias para não prejudicar o Canicross ou qualquer outro esporte onde fique provado que não há maus-tratos aos animais, como acontece de forma cruel no caso da Corrida de Galgos.

“O conceituado biólogo Frank Alarcón, que nos ajudou a elaborar o PL, está em contato com Oliveira para saber o que é possível fazermos, já que nossa intenção não é prejudicá-los de forma nenhuma. Se o Canicross é um esporte saudável para ambos e não há sofrimento ao animal, não tem porquê proibir”, explica Izar.

Segundo Oliveira, ele já está reunindo todos os documentos necessários para apresentar a Alarcón como prova de que o Canicross é um esporte saudável que traz muitos benefícios ao animal e ao seu tutor. E assim conseguir junto ao parlamentar a alteração do PL.

Para Abner, o Canicross só traz coisas boas para ambos. “Temos depoimentos incríveis, de pessoas que estavam obesas, sedentárias e até depressivas e quando começaram a praticar o esporte tiveram uma mudança significativa na vida. E assim também ocorreu com os cães”, garante.

Fiscalizar é essencial

O presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Espírito Santo, Marcos Braun, explica que a Corrida de Galgos como se apresenta evidencia de forma cruel os maus-tratos aos animais. “A gente não quer ver os Galgos serem usados como carro de corridas, criados como objetos para simplesmente satisfazer a vontade das pessoas que acham isso bacana, e determinam quando devem descartá-los da maneira mais vil, como ocorre. Somos totalmente contra essas Corridas de Galgos, mas, por outro lado, temos que saber diferenciar as outras modalidades esportivas que são benéficas aos animais, como, por exemplo, o agility, inspirado no hipismo”, alerta Braun.

Já a presidente da Comissão Especial de Proteção e Defesa dos Animais, da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Espírito Santo, Marcella Rios Gava Furlan, explica que ao analisar o PL do deputado Izar percebeu que ele engloba tanto as corridas, quanto às atividades extenuantes de mesma natureza utilizando apenas cães, sem mencionar outros animais.

“A não ser que o Conselho Federal de Medicina registre expressamente que corridas competitivas, ou não, com cães configurem efetivamente situações de maus-tratos, entendo que a lei, se aprovada, seria um tanto severa, prejudicando os praticantes de Canicross, que são categóricos em afirmar que no caso do esporte os animais são tratados com todo o respeito que merecem. Eles seriam prejudicados por uma lei ao mesmo tempo específica - uma vez que trata apenas da corrida canina - e por outro lado, subjetiva - ao dispor que qualquer corrida estaria proibida”.

Para Marcella, os animais, atualmente, já se encontram protegidos pela Lei 9.605/1998, que prevê quais são as práticas de maus-tratos aos animais, incluindo-se, neste caso, as corridas que ferem, extenuam e machucam os cães, e neste meio já estão, também, os da raça Galgo. E, obviamente, as penas aplicadas em todos esses casos.

“Claro, que qualquer lei que coíba o abuso e os maus-tratos aos animais são sempre válidas. O que não se pode é restringir o direito daqueles que não agem dessa maneira, como é o caso dos praticantes de Canicross. A meu ver, todos os animais já estão tutelados pela Lei 9.605/1998”, explica.

Para ela, o que falta é uma ação mais eficaz das autoridades, Secretarias de Meio Ambiente, Polícias Civil e Militar e do Ministério Público quanto à fiscalização e às medidas necessárias visando coibir tais práticas. “Caso houvesse uma denúncia, hoje, de maus-tratos por parte de alguém, por exemplo, em relação a Corrida de Galgos, os responsáveis por tal ato já estariam enquadrados na Lei 9.605/1998 e, consequentemente, seriam penalizados com a prisão de dois a cinco anos, multa, além de perder a guarda do animal”. conclui.

Relação doméstica

Em uma live recente com a temática “A importância da atividade física para o cão, treino e competição”, o ortopedista, especialista em traumas e medicina funcional, Tarcísio Barreto, sanou algumas dúvidas das pessoas em relação ao Canicross.

Ele explicou que quando há uma conexão saudável entre homem e animal, qualquer esporte é sempre bem-vindo. “A relação doméstica dos cães já acontece há mais de 12 mil anos. Nós aprendemos muito com os animais, que são eternamente gratos quando bem tratados, e isso depende exclusivamente do manejo do tutor, tanto em relação a sua saúde, quanto a sua criação. Se ele percebe que isso é feito de forma saudável, é um casamento bem forte”, ressalta Barreto.

Tarcisio Barreto
Tarcísio Barreto explica que quando há uma conexão saudável entre homem e animal, qualquer esporte é sempre bem-vindo. . Crédito: Divulgação

Ele explica que quando a pessoa submete um cão ao movimento, isso traz vários benefícios a ele, e não só especificamente em relação aos animais atletas, mas também aqueles que praticam alguma atividade física recreativa. “A atividade física em cães proporciona limpeza orgânica, ajuda o metabolismo e o movimento músculo-esquelético”.

Segundo Barreto, a energia gerada pelo movimento, pela cinética, transformada em elétrica e mecânica, reverte para o animal em pelo menos 20% a 25%, já o alimento representa 50%. “Mas se essa energia vem 100% só da alimentação e o animal não passeia, não corre, é castrado muito cedo, não dorme direito, tudo isso vai atrapalhar o desenvolvimento e a fisiologia dele. É um grande erro de manejo”, alerta. A atividade física em animais só traz benefícios, não tem nenhum malefício, desde que seja cercada por todos os cuidados de um especialista e exames periódicos”, completa.

No caso do Canicross, Barreto ressalta que não considera o esporte de alto impacto e que possa trazer malefícios ao cão, desde que exista todo um trabalho prévio com esse animal e, acima de tudo, muito amor.

“Eu como médico veterinário ortopedista indicaria o esporte a qualquer um. É bem diferente daqueles onde vale fazer qualquer coisa para o animal chegar na frente. E se isso não acontece, ele é punido da forma cruel. No Canicross existe parceria do tutor com o animal, e ambos se amam, se respeitam.

E Oliveira completa: “O campeonato mundial não tem premiação em dinheiro, é apenas uma medalha para o tutor e algum prêmio para o animal, como, por exemplo, uma ração de qualidade. O que vale mesmo, ali, é o prazer de estar lado a lado, com toda segurança, curtindo aquele momento”, afirma.

Serviço:

Associação Brasileira de Canicross e Esportes Similares (ABCAES) - www.abcaes.com

Para saber mais do esporte no Espírito Santo: @canicross.capixaba (instagram)

Para denúncia de Corridas de Galgos: @galgolivrebr

cachorro

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.