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Temporada de moda recorda que sexo é item essencial para vida pós-pandêmica

Em Nova York, Londres, Milão e Paris, marcas desencapam corpos e promovem orgia de fendas e transparências

Publicado em 10/10/2021 às 08h59
Desfile da coleção feminina da Chanel Verão 2022 na semana de moda de Paris
Desfile da coleção feminina da Chanel Verão 2022 na semana de moda de Paris. Crédito: REUTERS/Gonzalo Fuentes/Folhapress

Qual seria o oposto de todo o empacotamento costurado em moletom visto, vendido e usado a rodo nos meses mais solitários da pandemia? A resposta define como a temporada de verão 2022 estendida em setembro e o início deste mês desencapou os corpos nas passarelas, jogou luz às barrigas tanquinho e postergou, ou sepultou, a dita mudança fundamental que a pandemia traria.

Sabia-se que a nudez já não era um problema para o consumidor jovem superexposto, estivesse ele no recatado Instagram ou no explícito OnlyFans, mas o que as marcas de luxo promoveram quase em uníssono entre Nova York, Londres, Milão e Paris foi uma orgia de fendas, mini comprimentos e transparências pouco antes vista na história recente da costura. E faz sentido.

A privação do contato físico, as noites mal dormidas e os dias que corriam apenas em "touchscreen" estancaram o desejo pela vida texturizada e a graça de usar moda como ferramenta de sedução -não só como chamariz do toque alheio, mas como ponto de atenção do olhar externo que é caro à moda.

O hedonismo da roupa feita para a noite, colocada em primeiro plano nos desfiles pandêmicos, podem ser lidos como memórias do que foi perdido, e, agora, na reconquista da liberdade, a sorte de estar vivo coloca tudo o que é essencial à experiência humana acima de qualquer tendência. Essa lógica, importante dizer, não partiu dos relatórios de gurus, mas da própria rua.

Ainda em julho, quando os americanos começaram a sair de casa e tomar o sol nas ruas, os críticos de moda logo avisaram haver pele demais suja de sorvete. Microshorts, tops e lingerie cravejados de pedras, além de logos à mostra nas cuecas, eram sinal de que as pessoas estavam dispostas a esquecer o pijama arrastando pela casa.

Tom Ford, o pai da estética anos 2000 novamente em voga com cinturas baixas, bustos cobertos por tarja de tecido e fendas desconcertantes, encerrou a temporada nova-iorquina prevendo a nova ordem.

Desfile da coleção verão 2022 da Tom Ford durante a semana de moda de Nova York
Desfile da coleção verão 2022 da Tom Ford durante a semana de moda de Nova York . Crédito: REUTERS/Caitlin Ochs/Folhapress

Os garotos exibiam os torsos descobertos com apenas um nó fechando a camisa na altura da virilha, as meninas trajavam calças cargo combinadas com blusas de malha metalizada transparente, e as bermudas, tendência pré-pandêmica, lançaram um novo esportivo estroboscópico.

Mesmo a vanguarda londrina, afeita às novas construções e a um estilo intelectualizado, aderiu à ideia. O georgiano David Koma mergulhou modelos em água em uma coleção que parece fundir os trajes de banho ao guarda-roupa de festa, no qual vestidos recebem os recortes de maiô e macacões de surfe, só que revistos com transparências e brilho.

Enquanto isso, na mesma toada sem firulas, o estilista Jonathan Anderson fez um calendário fotografado pelo popstar da fotografia de moda, Jurgen Teller, para exibir uma coleção de minivestidos com alças finas e telas de crochê –as bases manuais são grande aposta das grifes, como se o aspecto tridimensional recuperasse o sentido tátil da roupa.

Confortável no tema do despudor chique, próprio de suas grifes que traduzem o legado da beleza greco-romana, Milão exaltou as proporções dos corpos esculpidos. A Versace nem precisou criar demais para estar na última moda.

A cantora britânica Dua Lipa em desfile da temporada verão 2022 da Versace na semana de moda de Milão
A cantora britânica Dua Lipa em desfile da temporada verão 2022 da Versace na semana de moda de Milão. Crédito: REUTERS/Alessandro Garofalo/Folhapress

"Physical", de Dua Lipa, embalou o desfile com direito à própria cantora fazendo as vezes de modelo. Na passarela, as minissaias presas com os alfinetes dourados característicos da marca foram combinadas a um sem fim de braços descobertos e à alfaiataria que tanto Donatella Versace adora e, mais uma vez, funde-se às estampas e às malhas metálicas criadas por seu irmão.

Até Giorgio Armani, adepto das construções matemáticas e das gramaturas de tecidos mais pesados, preferiu a leveza das transparências em looks que descobriram os colos das modelos. Assim como em outros desfiles desta temporada, os casacos ou não estão abotoados ou deixam o terço final do abdome livre para respirar o ar puro.

Mas foi a comumente sisuda Paris que coroou o tema. A começar pelos 1960 resgatados pela Christian Dior, que vai ao âmago do início da libertação do corpo feminino no século 20 para encher as passarelas de minissaias e vestidos em "A" típicos da gestão do estilista Marc Bohan na grife.

A estilista Maria Grazia Chiuri mostra em cores blocadas e tecidos luminescentes a mescla de sua alfaiataria rígida com pinceladas esportivas, em que até o uniforme dos boxeadores pode virar elemento de moda para uma clientela acostumada à feminilidade helênica do longínquo 2019.

Desfile da Dior para a temporada verão 2022 durante a semana de moda de Paris
Desfile da Dior para a temporada verão 2022 durante a semana de moda de Paris . Crédito: REUTERS/Stephane Mahe/Folhapress

O espírito de fuga das quatro paredes de casa levou a Hermès a colocar sua imagem vinculada à montaria em um espectro ensolarado pouco visto na mesa de corte da estilista Nadège Vanhee-Cybulski. De tesoura extremamente técnica, ela prova que mesmo o couro, a base tanto fetichista quanto suntuosa da costura, pode assumir um retrato fidedigno dos novos tempos.

Pisar na praia foi a saída de duas mulheres que representam bem o "cool" parisiense, as estilistas Virginie Viard, da Chanel, e Isabel Marant.

Adepta do guarda-roupa descomplicado, Marant expôs as pernas dos modelos com maiôs, bermudas e biquínis, cuja dupla de peças apareceram sobrepostas à roupa, no jogo de colocar a roupa íntima à frente da externa que condiz com essa cartilha de tornar público o que costumava ser privado.

Mais atenta aos brilhos e ao sentimento de fuga para a areia, a Chanel desceu como nunca o cós, combinando as peças de baixo a mini blusas coladas que levam o nome da grife e devem agradar aos clientes menos interessados no passado de tailleurs de tweed.

Foi nos estertores dessa maratona de sexo reprimido, porém, que a ideia surgiu encapsulada para o epílogo, a volta ao escritório. A Miu Miu, de Miuccia Prada, combinou os mesmos tops e sainhas, os mesmos ossos ilíacos aparentes e a alfaiataria relaxada para formar o novo uniforme de trabalho, tão híbrido como se especula que a labuta será daqui para frente.

Ao colocar em xeque os códigos de decência que ainda rondam o look corporativo e ao desafiar o conservadorismo saído das sombras nesta pandemia, Prada recorda que se o trabalho dignifica o homem, o sexo, a liberdade e o prazer glorificam-no.

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