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Movimento 'Liberte o futuro' apresenta propostas para o pós-pandemia

Coletividade, sustentabilidade e imaginação compartilhada regem o movimento global #LiberteoFuturo, que propõe mudanças de hábitos para a vida depois que tudo isso passar

Publicado em 22/08/2020 às 06h00
Atualizado em 22/08/2020 às 11h33
Borboleta posando em mão de robô; liberte o futuro
Sustentabilidade deve se unir à tecnologia para um mundo mais saudável no pós-pandemia. . Crédito: Shutterstock

Antes de tudo, responda para si algumas perguntas: quais são os seus anseios para quando tudo isso passar? O que você vai fazer diferente do que fazia antes? Qual a sua relação com iniciativas que se preocupam com o planeta? O que você está aprendendo sobre coletividade neste período de pandemia?

As respostas para essas perguntas podem ser diferentes, complexas, simplistas, parecidas e, agora, também podem ser compartilhadas. O Movimento Liberte o Futuro surgiu com o objetivo de inspirar a reflexão e a imaginação das diversas possibilidades da vida pós-pandemia.

A capixaba Aparecida Torrecillas, professora universitária e integrante do movimento, explica que a iniciativa veio da jornalista Eliane Brum e de um grupo de ativistas que lutam por diversas bandeiras ambientais, sociais e políticas. Em poucos meses, ele se transformou em uma mobilização que envolve centenas de voluntários no Brasil e no mundo, assim como outros movimentos emergentes em vários países.

“O Liberte o Futuro nasceu da chamada ‘Eu+1+1+’, de autoria do poeta Élio Alves da Silva, do Médio Xingu, em Altamira, região da Amazônia. O movimento convoca, basicamente, a imaginação coletiva para a criação de futuros múltiplos, escapando das respostas únicas e das crenças que se propõem a ser hegemônicas”, explica Aparecida.

De acordo com a professora, o movimento se baseia em uma estrutura horizontal, ou seja, não tem hierarquia ou líderes, além de não ter ligações com empresas ou partidos políticos. “Desde o início, o movimento se pautou pela inclusão como força fundamental. Está na sua essência reconhecer as vozes, os saberes e os direitos políticos, sociais e econômicos de todos os povos, dando protagonismo a indígenas, quilombolas, pretos e pretas e a todas as expressões de gênero e sexualidade”, diz.

O que chama atenção no movimento

“Assim que conheci o movimento, imediatamente me identifiquei com a proposta de refletir criticamente sobre a tal ‘volta ao normal’ pós-pandemia, questionando, afinal, que ‘normal’ é esse que pressupõe-se que queremos de volta”, destaca Aparecida. Para a professora, o que estamos vivendo agora é consequência de um sistema insustentável que negligencia as emergências sociais e ecológicas que vivemos há décadas.

Segundo Aparecida, o Movimento Liberte o Futuro tem a premissa de não querer de volta o mesmo “normal” de antes, com os mesmos índices de injustiça social e o extrativismo desenfreado de recursos naturais. “Nossa ideia é, basicamente, invocar a responsabilidade coletiva na criação e realização de mudanças que não são utópicas e impossíveis como nos querem fazer acreditar”, explica.

Aparecida Torrecillas; liberte o futuro
Aparecida Torrecillas se identificou assim que conheceu o movimento. Crédito: Leandro Queiroz

5 propostas para adiar o fim do mundo

‘Na primeira fase do movimento, estamos convocando as pessoas a produzirem pequenos vídeos de até um minuto, contando suas ideias e sonhos para a criação de futuros desejáveis, seguindo “5 propostas para adiar o fim do mundo”, explica a integrante do movimento, Aparecida Torrecillas.

As propostas são:

Antídotos contra o fim do mundo: imagine como quer viver.

Democracia: proponha políticas públicas, assim como mudanças nas leis e nas normas para reduzir as desigualdades de raça, gênero e classe.

Consumo: indique alternativas para eliminar as práticas de consumo que escravizam a nossa e as outras espécies.

Emergência climática: sugira ações para impedir a destruição da natureza, garantindo a continuidade de todas as formas de vida no planeta.

Insurreição: defina a melhor ação de desobediência civil para criar o futuro onde você quer viver.

Como participar

Os participantes podem postar os vídeos em suas redes com as hashtags do movimento (#liberteofuturo #freethefuture) ou enviar para o Whatsapp +55 11 97557-9830. Os vídeos estão sendo depositados nas plataformas www.liberteofuturo.net e www.freethefuture.net e podem ser assistidos nelas. Na segunda fase, que se inicia em setembro, o movimento fomentará a prática de algumas dessas ideias propostas nos vídeos, a partir de jornadas colaborativas online, que serão oficinas para a criação de redes de colaboração e concretização de ações locais, a partir da escuta, do levantamento de problemas e da formulação coletiva de soluções.

Redes do Movimento Liberte o Futuro

  • Facebook: Liberte o Futuro
  • Instagram: @liberteofuturo e @freethefuture
  • Twitter: @liberteofuturo
  • Sites: www.liberteofuturo.net e www.freethefuture.net.

Que futuro você quer libertar?

Nós, da Revista.ag, convidamos alguns capixabas a entrar na onda do Movimento Liberte o Futuro para imaginar e compartilhar suas expectativas para o mundo pós-pandemia. Confira os depoimentos nesta e nas próximas páginas.

"Retomar perspectivas ancestrais"

Karen Valentim - Liberte o futuro
Karen Valentim - Artista e “fazedora” cultural. Crédito: Arquivo pessoal

Karen Valentim - Artista e “fazedora” cultural

Quero libertar o futuro que já está. redesenhar os formatos, pensar e realizar com maior diversidade. Acredito que passamos já muitos anos vivendo em uma organização social que pouco nos compreende, mudar ou mesmo retomar perspectivas ancestrais são pontos essenciais para uma vida pós-pandemia.

Absorver ainda mais os conhecimentos e a potência da comunidade, dos aprendizados coletivos e reconhecer todas as vozes. Meus projetos como artista, pesquisadora da pigmentação natural, do ser e fazer cultura me impulsiona a reconectar para estabelecer novos modos de fazer e de ter sustentabilidade de maneira integral.

O futuro em três destaques

Rafael Simões - Liberte o futuro
Rafael Cláudio Simões - Professor. Crédito: Arquivo pessoal

Rafael Cláudio Simões - Professor universitário de História

O futuro que eu quero libertar basicamente tem três destaques. Um dos aspectos que para mim é o mais significativo, mas também é o mais abstrato, é nos libertar do tempo. Especialmente desse tempo corrido, desse tempo da pressa, desse tempo que é um pouco do espelho do capital financeiro que domina a economia mundial e que impõe esse ritmo alucinante aos nossos corpos e às nossas mentes. Ele, na verdade, não produz satisfação, não produz realização, não produz alegria.

O segundo futuro que eu quero libertar é o futuro da participação, onde as pessoas têm a possibilidade e, na verdade, algum compromisso. Claro que isso não é feito de forma obrigatória, mas é construir uma consciência e cultura política desse compromisso em participar dos assuntos públicos, dos temas públicos, dando a eles um espaço. Espaço este que eles têm perdido apenas para o interesse nas questões privadas, da vida privada. E perceber o que o grande pensador francês do século 19, Alexis de Tocqueville, chamava de “interesse bem compreendido”. É sobre perceber que o seu interesse individual, na verdade, só vai poder se realizar na medida em que a sua coletividade tiver uma vida digna, qualidade de vida, uma vida decente.

E o terceiro futuro que eu quero libertar é um futuro de qualidade de vida, onde se invista os recursos nas prioridades fundamentais do ser humano. Qualidade de saúde, educação, acesso à cultura, políticas de assistência social e psicológica.

Essas são as três questões-chave, mas é evidente que existe uma preocupação de fundo, que se agravou com a pandemia. Essa preocupação é com o ambiente, com o planeta. Nós temos aspectos ambientais, no que se refere à pandemia e à possibilidade de futuras pandemias, que são relativos às mudanças climáticas. Nós temos que olhar para a mudança do nosso estilo de viver, de consumir, de produzir, de se locomover, e fazer isso pelo planeta. Essas são as questões centrais para o futuro que eu penso.”

"Onde há fraqueza de Cultura, impera a violência”

Euder Soares - Liberte o futuro
Euder Soares Da Costa - Instrutor de capoeira. Crédito: Arquivo pessoal

Euder Soares Da Costa - Instrutor de capoeira pelo grupo Nação Malungos, educador social, oficineiro de capoeira e representante do projeto Vadeia Malungos

“Tenho em mente continuar trabalhando em prol de libertar a mente de crianças e adolescentes em situação de risco social através da cultura afro-brasileira, usando a capoeira como ferramenta. Para o pós-pandemia espero que as pessoas valorizem mais a vida própria e a dos seus próximos. O distanciamento social deixou um vácuo entre as pessoas que precisa ser reparado, e só através de ações sociais será alcançado tal feito. A pandemia trouxe solidariedade por parte de uns, mas também trouxe individualidade para outros. Com meus projetos, pretendo estreitar novamente laços de amizade e bons costumes de ajuda ao próximo, abordando as várias opressões sofridas pela sociedade ao longo dos anos. Além de orientar sobre voto consciente, para que nossos próximos políticos nos representem melhor, viabilizando políticas públicas que favoreçam a nós artistas, a representantes das várias culturas no Brasil e também aos cidadãos comuns que vão se beneficiar delas. Onde há fraqueza de cultura, impera a violência.”

“Um mundo desperto, consciente de suas escolhas e do poder libertador do consumo consciente”

Kika Gouvêa; liberte o futuro
Kika Gouvêa - Arte-educadora, artista visual, ativista social e ambiental. Crédito: Arquivo pessoal

Kika Gouvêa - Arte-educadora, artista visual, ativista social e ambiental e diretora de comunicação da SAPI

O futuro que eu quero libertar é o futuro da música ‘Imagine’, de John Lennon. Quando todas as pessoas e seres compartilharão um só mundo, um tempo de igualdade, de respeito e amor. Onde a paz será a única soberana. Um futuro onde o homem terá entendido que somos parte da natureza e tudo que fizermos a ela estaremos fazendo a nós mesmo. Um mundo bio e sociodiverso, onde cultura e arte sejam direitos usufruídos por todos. Onde o ter importe menos que o ser, e a vida seja o bem mais precioso.

A pandemia nos lembrou que vivemos todos num mesmo planeta e somos interdependentes, estamos todos interligados na teia da vida seja ela humana ou não. Nada é só, tudo é uno! A pandemia nos mostrou que não precisamos de tudo que julgávamos precisar. Viver não custa caro. Caro é acumular aqui e faltar ali, nessa lógica doente e violenta do consumismo que nos aprisiona e subjuga.

A injustiça social e ambiental estão intrinsecamente ligadas ao consumo acumulativo e desenfreado. Prestar atenção ao que consumimos é essencial nessa mudança.

Na próxima vez que quiser comprar algo, se pergunte: preciso mesmo disso? De onde vem? Como é o processo de produção desse objeto? Como ele chega até mim? Quais são as marcas que apoiam governos fascistas e ditatoriais no mundo? Quando eu descartar esse produto quanto tempo ele vai demorar para se decompor? O que eu consumo nas redes sociais é verdadeiro? E a cultura de massa, isso me serve? Se conseguirmos responder essas perguntas começaremos a libertar o futuro, pois tudo pode ser transformado a partir de mim e de você.

Valorizemos a agroecologia, os produtos artesanais, os pequenos comércios, a produção de pequena escala, os saberes tradicionais, as redes de trocas, os bazares, e juntos vamos mudar de uma economia que massacra muitos e privilegia pouquíssimos para uma economia solidária, circular, consciente e amorosa.

Esse é o mundo que eu espero, um mundo desperto, consciente de suas escolhas e do poder libertador do consumo consciente. Criativo, imaginativo, ousado, verdadeiro e fraterno.”

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