ASSINE

Coronavírus e as novas regras do prazer: como fica o sexo na quarentena?

Não dá pra paquerar na pandemia. Mas o isolamento não causou o fim do desejo. Especialistas e casais contam o que fazer com a vida sexual neste momento

Publicado em 15/05/2020 às 18h00
Atualizado em 15/05/2020 às 18h01
Casal medindo a distância: novas regras do sexo em tempos de coronavírus
Casal medindo a distância: novas regras do sexo em tempos de coronavírus. Crédito: Shutterstock

Bom, a pandemia estabeleceu uma série de regras, o isolamento, por exemplo. Mas não conseguiu decretar o fim do desejo. O coração pode aguentar a distância. Mas a carne vai resistir sem presença física?

Em uma época em que é praticamente nulo o toque humano, ficou ainda mais difícil para um solteiro sair do zero a zero. Não dá pra paquerar na pandemia. Não tem balada, barzinho. As poucas pessoas com quem é possível cruzar nas ruas estão sempre amedrontadas e pouco atraentes de máscaras.

Você pode apelar pra aplicativos de encontro e dar um match. Só que vai parar por aí mesmo. O Tinder, um dos apps mais famosos nessa linha, até está tentando dar uma forcinha para os solitários e liberou um recurso antes disponível para assinantes vip. Agora, o usuário pode conversar com pessoas de qualquer lugar do mundo e não apenas aquelas que vivem perto de sua casa.

Arrumar um crush, no entanto, está impossível nos tempos sombrios de agora. E cada um se consola como pode.

Acostumada com uma vida noturna agitada, a advogada Kamila Dias Barbosa sente falta das noitadas, dos encontrinhos pra beber vinho com os amigos, dos churrascos. Divorciada e com dois filhos, ela prefere encarar a verdade: não tem como voltar pra pista.

“Ah, eu prefiro assim. Tenho medo do contágio. Mas alguns amigos não estão seguindo muito isso, não. Acho que é a necessidade física que, por vezes, fala mais alto. E por acabarem confiando, já que são pessoas que já tinham alguma intimidade, acabam por não temer os encontros”, comenta Kamila.

A advogada de 35 anos vai se adaptando ao home office e se conformando com o celibato em nome da saúde, a própria e a dos outros. E ela tenta se distrair, não pensar “naquilo”. Às vezes, precisa descontar na panela de brigadeiro. Ou se senta calmamente no sofá de casa, abre um vinho e saboreia uma taça na companhia de si mesma. Que jeito?

A advogada Kamila Dias: dias de solteirice sem prazo para acabar por causa da pandemia
A advogada Kamila Dias: dias de solteirice sem prazo para acabar por causa da pandemia. Crédito: Arquivo pessoal

Kamila Dias

Advogada

"Ah, eu prefiro assim. Tenho medo do contágio. Mas alguns amigos não estão seguindo muito isso, não. Acho que é a necessidade física que, por vezes, fala mais alto. E por acabarem confiando, já que são pessoas que já tinham alguma intimidade, acabam por não temer os encontros"

“Tenho aproveitado o momento para me curtir, refletir e - por que não? - ser feliz com quem mais amo?! Neste caso, eu!”, diz.

O isolamento pode ser mais cruel com os casais apaixonados. Caso da arquiteta Lucy Mara Neves, 48 anos, e do advogado e servidor público Marcos Antonio Azevedo Simões, 55 anos. Em dez anos de namoro e morando no mesmo Estado, eles nunca ficaram tão longe um do outro.

“Ele teve que cuidar da mãe, de 87 anos. Ela é frágil e, portanto, achamos melhor preservarmos a vida dela”, conta Lucy.

Namoro por videochamada

Inicialmente ficaram 45 dias sem nenhum contato físico. Nada de beijos, abraços… Nada. “Só nos falávamos por videochamada”, revela. Fácil não foi. Nem romântico. Mas eles não deixaram de encontrar uma curtição nisso. “Foi difícil, mas acredito que os laços estejam até mais fortes. Pois ligamos e despejamos nossas ansiedades. Não adianta estar próximo fisicamente e distante emocionalmente. Ele é uma pessoa superdivertida e me faz rir muito, mesmo à distância. Como fazemos curso de graduação e francês juntos temos vários temas em comum”.

Sexo? Bom, eles agora conseguem se ver aos domingos. “A maturidade ajuda”, diz Lucy, que se mantém reservada sobre o assunto. “Ele é meu apoio emocional nesse enfrentamento e vice-versa”.

Outro casal que está namorando pelo celular é o professor de capoeira Rodrigo de Moraes e da cabeleireira e dona de um salão de beleza Soraya Rodrigues Bezerra, ambos de 44 anos.

Desde que essa história de pandemia começou por aqui, eles só se viram rapidamente duas vezes. E foi no supermercado. “Estamos namorando há um ano. Moramos em Vila Velha, eu em Itaparica, e ela na Praia da Costa. Cuido da minha mãe, de 80 anos, e ela da mãe dela, que tem 76 anos. Nós nos vimos apenas duas vezes! Foi quando combinamos de fazer compras no supermercado. Fora isso, só chamada de vídeo e Whatsapp. Salve a Internet”, comenta Rodrigo.

Ou seja, nenhum beijinho, abraço… Diversão passou longe. Sexo virtual, diz o professor de capoeira, não rolou. “É estranho. Mandar nudes também achamos complicado demais! Vai que um é assaltado ou perde celular? Sei lá…”, opina.

A saída é mudar de assunto. Falar sobre séries, por exemplo. “É sobre isso que mais falamos. Netflix, Telecine… Estávamos vendo uma série sobre a rainha Elizabeth”, cita Rodrigo.

Por ora, sexo liberado mesmo só para casais que moram juntos. E olhe lá! A infectologista Marina Da Rós Malacarne explica que há situações em que mesmo estando na mesma casa os dois não poderão dividir os lençóis.

“Se os dois estiverem sem nenhum sinal de sintoma podem manter a proximidade, o beijo, a relação sexual. Mas sabendo que um deles pode ser portador assintomático - não só de coronavírus, mas também de outras infecções respiratórias, como a gripe, por exemplo - é melhor ficar atento. E aí, um vai passar pro outro. Isso é uma loteria. Não tem como deixar um casal separado se os dois estão assintomáticos”, diz.

Há casos, diz a médica, em que os pombinhos terão que viver isolados um do outro, mesmo debaixo do mesmo teto. “Se um dos dois viajou para uma área de risco, com transmissão comunitária, aí sim a recomendação é essa pessoa ficar isolada dentro de casa, com aquela distância mínima de dois metros, por no mínimo sete dias, porque o risco de contaminação é mais elevado”, observa.

Marina Da Rós Malacarne

Médica infectologista

"Se os dois estiverem sem nenhum sinal de sintoma podem manter a proximidade, o beijo, a relação sexual. Mas sabendo que um deles pode ser portador assintomático - não só de coronavírus, mas também de outras infecções respiratórias, como a gripe, por exemplo - é melhor ficar atento"

E se um dos parceiros apresentar algum sintoma respiratório, a ordem de isolamento por pelo menos 14 dias.

Um artigo publicado no “Journal of the American Medical Association” na última semana revelou que o coronavírus pode, sim, ser transmitido pelo sêmen. A verificação científica ocorreu num teste clínico, conduzido pelo chinês Diangeng Li. Participaram 50 doentes masculinos em estado de menor e maior gravidade e, no final, foi detectado o coronavírus no sêmem de 6 deles. Até então, o vírus só havia sido encontrado em fezes dos infectados. Ou seja, o vuco-vuco não é tão liberado assim. Segundo a infectologista, só a proximidade, a troca de carinhos, já expõe ao risco de contágio.

Para casais que não moram juntos, a orientação dos especialistas é evitar contato completamente. No caso dos solteiros, diz Marina, a recomendação é não procurar ninguém. “Principalmente porque você vai estar em contato com uma pessoa que você não conhece, não sabe o histórico de doenças dela, para onde ela foi…”.

Não existe manual do sexo na quarentena

Embora alguns casais não encarem, o sexo virtual pode ser uma solução, como destaca a ginecologista e sexóloga Lorena Baldotto. “O sexo virtual funciona. Mas tem que ser de comum acordo, claro! Se é para os dois terem um relacionamento mais apimentado, para brincar, tudo é válido”, garante.

Não existe um manual sobre sexo na quarentena. Cada casal deve achar sua fórmula, sem pressão. Há quem sugira uso de brinquedinhos (mas lave bem antes o aparelho, hein!) e a masturbação para satisfazer o prazer sexual. E aí, não vale ficar com ciúmes.

“Sim, às vezes rola um ciúme da masturbação, principalmente das mulheres em relação aos homens. Mas isso tem que ser conversado. Porque é a estratégia que existe!”, frisa Lorena.

O importante é o casal buscar essa sintonia, mesmo que seja necessário não dividirem a mesma cama por um tempo. “Nesta fase, como o comportamento social mudou, ficar mais em casa, conviver mais, pode trazer tanto aspectos positivos quanto negativos pro relacionamento.

Com certeza depois que essa pandemia passar vamos ter muitas marcas na forma como nos relacionamos com as pessoas”, observa a ginecologista.

Para os solteiros, há outras opções. Tem até serviço de strip-tease na internet. “Se não tem nenhum contatinho em vista, existem diversos recursos pra serem utilizados pra aliviar o estresse sexual e de quebra aproveitar pra conhecer o próprio corpo. Sempre bato nessa tecla do quanto é importante esse autoconhecimento. E tem filmes eróticos, brinquedinhos, tudo isso pode ajudar”, lista Lorena Baldotto.

Mulher com máscara, como se fosse uma calcinha: as novas regras do sexo em época de pandemia
Mulher com máscara, como se fosse uma calcinha: as novas regras do sexo em época de pandemia. Crédito: Shutterstock
  1. 01

    Sexo liberado

    Casais que vivem juntos e estejam em quarentena e livres de Covid-19. E lavem-se antes e, principalmente, depois do sexo, ok?. Se os dois pegarem a doença juntos, também podem ter contato físico.

  2. 02

    Mas calma...

    Vale lembrar que o coronavírus pode ficar incubado por até 14 dias em algumas pessoas depois da infecção. Se você ou seu parceiro não estiverem se sentindo bem, não façam sexo. Se um dos dois tem sintomas respiratórios (Covid-19 ou não), evitem até se beijar

  3. 03

    Nada de paquera

    Para os solteiros, a ordem é paciência mesmo e se conformar em esperar a pandemia passar. O contato físico com outras pessoas não é recomendado neste momento. Beijar um estranho nem pensar! O vírus fica nas vias aéreas e na saliva e muco.

  4. 04

    Coronavírus é sexualmente transmissível

    Um artigo publicado no “Journal of the American Medical Association revea que o coronavírus pode, sim, ser transmitido pelo sêmen ou fluidos vaginais.

  5. 05

    E a masturbação?

    É uma prática segura e até recomendada nesse período de isolamento, pois ajuda a aliviar a tensão, o estresse. O importante é higienizar bem as mãos antes e depois de se masturbar

  6. 06

    Sexo oral é permitido?

    É arriscado porque envolve boca e toque íntimo, contato com secreções

  7. 07

    Sexo anal e outros

    Não é recomendado. Já foi constatada a presença do coronavírus nas fezes de um infectado. Portanto, nem a prática do rimming (boca no ânus) deve ser feita porque as fezes contaminadas com Covid-19 podem entrar pela boca.

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.