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Centro de Artes da Ufes completa 50 anos em 2021:  a arte importa porque a beleza importa, não importa que belo seja
Centro de Artes da Ufes completa 50 anos em 2021:  a arte importa porque a beleza importa, não importa que belo seja. Crédito: Arquivo/Ufes

Meio século do Centro de Artes da Ufes: o fulgor da arte e a vertigem do tempo

Expressões e fruições artísticas nunca tiveram tanta relevância entre nós como agora, neste intervalo em que a vida parece um palco ainda mais vazio de sentido e no qual encaramos o real da morte em personagem tão vigoroso, assombroso e hostil

Publicado em 22/05/2021 às 10h00
  • José Antonio Martinuzzo

    É doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor e pesquisador na Ufes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória

A arte importa porque a vida não basta. Sob o espírito de tempos distintos, Fernando Pessoa e Ferreira Gullar poetizaram essa verdade essencial. Se tal premissa vale para os dias em que a vida corre alguns passos adiante do bafo da morte e nos quais o amanhã acena com seus tentáculos de esperanças, amenizando os grilhões da hora, imagine nestes tempos febris, de país atolado no abismo das mortes às centenas de milhares e de horizonte embaçado por espessa insistente nuvem virótica!

Pois bem, no meio deste pandemônio pandêmico, este 2021 registra uma efeméride ímpar e luminosa, tornada ainda mais relevante pelo sombrio dos dias correntes: 70 anos da Escola de Belas Artes, que, efetivamente integrada em 1971 à Universidade Federal do Espírito Santo, deu origem, pois, ao quinquagenário Centro de Artes.

Trata-se de aniversários que se celebram, o primeiro já neste dia 23 de maio, com a alegria da trajetória marcante e também com o desejo de potente horizonte. Afinal, expressões e fruições artísticas nunca tiveram tanta relevância entre nós como agora, neste intervalo em que a vida parece um palco ainda mais vazio de sentido e no qual encaramos o real da morte em personagem tão vigoroso, assombroso e hostil.

Em linhas gerais, no campo da psicanálise, a máxima poética de que a arte é importante porque a vida não é o bastante pode assim ser lida: a arte importa porque uma parte de nós é consciente e a outra, inconsciente.

Nesse duo existencial, a arte oferta espaço a uma outra cena, dá à luz personagens da coxia inconsciente, com seus traumas irreconciliáveis, desejos indizíveis, vergonhas paralisantes, recalques desconcertantes etc. A arte dá corpo a vozes, olhares, gestos e afetos enigmáticos que deixaram em nossa carne marcas sem palavras possíveis. A arte recolhe/acolhe vestígios do que insiste em se mostrar, mas que se mantém reprimido sob véus de pudores, decretos de interditos, figurinos de panaceias, marcações de contenções, entre outros recursos censórios e obliterantes. A arte importa porque porta ao inconsciente.

Porque a hostilidade e a agressividade nos atravessam a vida, a arte importa pelo fato de se colocar como uma via possível a um outro investimento do que comparece como força destrutiva em cada um de nós. Há de se dizer que, subjetivamente, de onde brotam crueldade e anseio violento, também emergem potências à criação e à fruição das mais diversas formas artísticas. Ou seja, arte é alquimia que transmuta Tânatos em Eros, fazendo dos pendores da pulsão de morte arte-experiências que dialogam e incrementam a sua oposta pulsão, a de vida.

Obra
Monumento Universitário: obra do artista plástico José Carlos Vilar Araújo instalada no Centro de Artes da Ufes. Crédito: Arquivo/José Carlos Vilar

Mais: a arte importa porque a beleza importa, não importa que belo seja. Freud cita o “caso em que a felicidade na vida é predominantemente buscada na fruição da beleza, onde quer que esta se apresente a nossos sentidos e a nosso julgamento – a beleza das formas e dos gestos humanos, a dos objetos naturais e das paisagens e a das criações artísticas e mesmo científicas”.

O pai da psicanálise enxerga na valorização do belo um requisito e ao mesmo tempo uma evidência da vida civilizada. “Que a civilização não se faz acompanhar apenas pelo útil, já ficou demonstrado pelo exemplo da beleza, que não omitimos entre os interesses da civilização”, pontuou.

Ao fim desse sumário percurso sobre a importância da arte na “normalidade” da vida, voltemos ao começo, ou seja, ao real do atual, para remarcar: a arte importa ainda mais justamente quando a vida parece bastar menos ainda – como agora, por ação do vírus em rede e por promoção desumana demasiadamente desumana do desamparo sem remediação à vista. “A arte torna suportável a visão da vida”, escreveu Nietzsche – o que dizer em um momento de vida tão insuportável como este?

Especialmente, neste tempo de tintas amargas, a arte distingue-se como dimensão para imaginar sentidos, simbolizar angústias, aplacar horrores, encenar esperanças, tramar fantasias, elaborar possibilidades... E ainda fazer de possíveis passagens ao ato violento travessias à elaboração narrativa de dores, desamores, desamparos, dissabores, rancores, ódios, hostilidades...

Mas, apesar da sua face de servir, não se engane, arte não é utilitarismo, é puro e viscoso humanismo naquilo que nos mesmeriza e também nos transtorna – transforma sem parar. Exatamente e, também por isso, diante de uma realidade que mal respira, e que nestes dias morre por sufocamento, a arte é atmosfera pulsante de reinvenção e oxigenação da existência. É necessária ousadia criativa, notadamente quando tudo se tinge de tons de abandono e morte.

Ferreira Gullar escreveu que “toda obra de arte atinge nossos olhos como uma inesperada fulguração, um relâmpago”. Que a criação e a fruição artísticas se coloquem cada vez mais como lugar essencial de exercício de nossa humanidade. Que o fulgor da arte transforme o firmamento obscuro que hoje nos oprime em noite estrelada que nos comova. Que a arte irrompa crescentes e potentes clarões nesta vertigem do tempo.

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