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"Grande renúncia" leva 4 milhões a pedir demissão por mês nos EUA

O país vive uma onda de pedidos de demissão. Só em outubro, 4,2 milhões de trabalhadores deixaram suas funções por vontade própria no país, segundo dados do Departamento do Trabalho

Tempo de leitura: 4min
Publicado em 16/12/2021 às 14h36
Crise tirou o emprego de 124 mil trabalhadores desde janeiro
O país vive uma onda de pedidos de demissão, que ganhou o nome de "Great Resignation" (grande renúncia). . Crédito: Pexels

O cliente chega em um restaurante fast-food, pede seu lanche, mas não pode se sentar em nenhuma mesa, apesar de elas estarem vazias. Esta cena tem sido comum em cidades dos Estados Unidos nos últimos meses.

Por falta de funcionários, diversas lanchonetes reduziram suas operações e vendem apenas comida para levar. Com menos funcionários, não há gente para limpar as mesas.

O país vive uma onda de pedidos de demissão, que ganhou o nome de "Great Resignation" (grande renúncia). Só em outubro, 4,2 milhões de trabalhadores deixaram suas funções por vontade própria no país, segundo dados do Departamento do Trabalho.

O movimento vem ocorrendo ao longo do ano e teve uma leve queda na comparação com setembro, quando 4,6 milhões se demitiram. A região sul do país responde por cerca de 40% (1,7 milhão) dos pedidos.

A onda de pedidos de demissão começou no fim do ano passado, quando o país foi reabrindo após os fechamentos do início da pandemia. As saídas vão ocorrendo em áreas diversas, especialmente transportes, indústria, finanças, entretenimento e até no serviço público.

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Muitos jovens também têm divulgado em suas redes sociais que estão saindo do trabalho, e fazendo disso um evento. No TikTok, a hashtag #quittingmyjob soma 62 milhões de visualizações. Em vídeos curtos, há vários registros do momento exato em que a frase "eu me demito" foi dita ao chefe, muitas vezes de modo ousado.

"Atenção clientes, este é o momento em que estou me demitindo deste emprego maldito. Dane-se o chefe que assedia a equipe diariamente. Dane-se Mary, chefe de merda que não dá a mínima para seus funcionários. Dane-se a Target, Dane-se a gerência. Eu me demito. Agora, vai mandar um email sobre isso, vaca", anunciou Edwin Pos, no sistema de som de um supermercado Target.

Ele gravou a cena, que inclui xingamentos mais pesados, e postou na internet.

Gaby Iannielo, outra usuária que divulgou seu pedido de demissão, busca ser influencer no tema e criou o perfil @Corporatequitter, no qual posta conteúdo para motivar mais pessoas a largar suas funções.

"Quer saber por que milhões de pessoas estão se demitindo? É porque temos opções. Antes, você tinha de ter um trabalho em lugar físico, perto de onde vivia. Mas hoje você pode estar no meio do nada e criar um negócio inteiro ou trabalhar remotamente usando seu smartphone. Então por que não vamos tentar?"

As justificativas para deixar o emprego e não quererem voltar são várias, e muitas delas são relacionadas à pandemia. De um lado, muitos trabalhadores com mais formação gostaram da rotina flexível de home office, não querem retornar ao escritório e possuem reservas para se manter por algum tempo enquanto procuram uma função mais interessante ou tentam empreender.

De outro, operadores de serviços básicos se cansaram de más condições de trabalho, salários baixos e falta de perspectivas e não querem trocar um serviço ruim por outro apenas um pouco melhor, mas buscar uma mudança mais significativa.

"A atitude geral entre muitos trabalhadores passou a ser focar menos em subir na carreira e mais em fazer dinheiro para manter um estilo de vida", escreveu Adam Povlitz, presidente-executivo da Anago, empresa de limpeza, em um artigo recente.

A lista de razões para ir embora também inclui busca de melhorias na saúde mental e medo do coronavírus, especialmente no caso de pessoas que moram com crianças (que ainda não podem ser vacinadas) e idosos.

Do lado corporativo, empresas têm feito campanhas mais agressivas para atrair funcionários, como oferecer planos de carreira mais consistentes. Em comerciais de TV, a Amazon promete ajudar auxiliares de depósito a cursarem a universidade. No McDonald's, os copos vem com a frase "estamos contratando!". O aviso se repete em fachadas de lojas e cartazes pelas cidades.

O mercado de trabalho americano está com muitas vagas disponíveis. Em outubro, foram criados mais 531 mil postos de trabalho. Isso dá alguma tranquilidade para que as pessoas considerem passar algum tempo fora do mercado, já que não será difícil voltar se for necessário.

A falta de gente disposta a trabalhar, no entanto, gera preocupação no governo e em empresários, por atrasar a produção e a retomada geral da economia no pós-pandemia. Um dos debates é se o aumento de auxílios federais para os americanos pode ajudar a resolver o problema, ou torná-lo mais forte.

O governo Biden propôs aumentar o envio de dinheiro e auxílios para famílias com filhos e ampliar o acesso a creches. Assim, mais pais e mães poderão buscar emprego por não precisarem ficar em casa cuidando dos filhos. Já opositores apontam que ganhar mais dinheiro do governo fará com que mais gente desista de trabalhar, complicando a retomada.

A criação de novos auxílios faz parte do pacote BBB (Building Back Better, reconstruir melhor), aprovado na Câmara e em análise pelo Senado. A expectativa é que ele seja votado até o Natal.

Enquanto isso, a ausência de trabalhadores em algumas empresas acaba sobrecarregando os funcionários que seguem dando expediente, o que pode motivar mais deles a deixar o posto, estimulando um efeito cascata capaz de gerar mais restaurantes com mesas fechadas pelo país.

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