Publicado em 18 de março de 2026 às 18:36
As águas do resplandecente litoral dos territórios britânicos no Caribe foram um mistério por muito tempo.>
Agora, um grupo de cientistas se reuniu para a primeira expedição além das águas pouco profundas das ilhas.>
Eles descobriram uma cordilheira submarina, um enorme "buraco azul", com recifes de coral aparentemente intocados pelas mudanças climáticas e criaturas marinhas nunca vistas até então.>
Em um trabalho que se estendeu por seis semanas, 24 horas por dia, os pesquisadores submeteram câmeras e outros equipamentos a condições extremas de pressão da água e conseguiram gravar a 6 mil metros de profundidade.>
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Para navegar pelas ilhas Cayman, Anguilla e Turks e Caicos, eles precisaram contar com mapas de décadas atrás, com graves erros e áreas inteiras não assinaladas.>
O Centro para a Ciência do Meio Ambiente, Pesca e Aquicultura do Reino Unido (Cefas, na sigla em inglês) compartilhou suas imagens e descobertas com exclusividade para a BBC.>
O governo britânico compartilha a responsabilidade de proteger a natureza das ilhas e até 90% das espécies únicas do Reino Unido se encontram nestes e em outros territórios britânicos ultramarinos.>
Agora, os cientistas alertam que começou a corrida para proteger este ambiente "relativamente intocado" das ameaças da poluição e das mudanças climáticas.>
"Este é o primeiro passo rumo a ambientes que nunca ninguém viu e que, em alguns casos, nem sequer se sabia que existiam", explica James Bell, líder da expedição a bordo do navio de pesquisa britânico RRS James Cook, com cientistas dos três arquipélagos.>
"Acabamos de encontrar uma espécie de pepino-do-mar nadador e ainda não sabemos o que ele é", destaca Bell. Ele define a diversidade observada como "realmente assombrosa".>
As ilhas Cayman, Anguilla e Turks e Caicos abrigam 146 espécies que só vivem nestes territórios. E a atual expedição de pesquisa deve acrescentar ainda outras a esta lista.>
A equipe documentou cerca de 14 mil espécimes individuais e 290 tipos diferentes de criaturas marinhas. Mas são necessárias novas pesquisas científicas para confirmar suas descobertas.>
Eles encontraram uma enguia-pelicano com uma cauda rosa brilhante que emite brilhos vermelhos para atrair comida, um peixe-barril com olhos tubulares que apontam para cima, para ver as silhuetas de suas presas, e um peixe-dragão com uma vara brilhante sob o seu queixo.>
Em declarações para a BBC enquanto o navio navegava por uma montanha submarina inexplorada, chamada Pickle Bank, Bell declarou que "não sabemos ao certo a que distância estamos. É muito difícil mapeá-la sem correr o risco de encalhar.">
A equipe descobriu posteriormente que essa montanha, localizada ao norte da ilha Pequena Cayman, se eleva a 2,5 mil metros de profundidade até cerca de 20 metros abaixo da superfície do mar.>
As imagens revelam uma ladeira de cor azul brilhante, amarela e laranja repleta de vida: torres douradas de coral que crescem ao lado de outros corais que parecem grandes cérebros.>
A equipe filmou peixes se movendo entre corais gorgônia e esponjas-marinhas gelatinosas alaranjadas, perto de corais pretos.>
Eles encontraram um dos recifes mais saudáveis e diversificados da região, livre dos estragos da doença do coral pétreo que assola o Caribe.>
Este recife, por enquanto, provavelmente está protegido pela sua profundidade e pelas ladeiras íngremes da montanha.>
Os recifes de águas profundas, ou mesofóticos, costumam ser profundos demais para serem afetados pelo aumento das temperaturas do oceano.>
Causado principalmente pelas mudanças climáticas, o aquecimento oceânico já prejudicou 80% dos corais do planeta desde 2023.>
Utilizando câmeras de águas profundas e ecossondas baixadas do costado do navio, os pesquisadores mapearam quase 25 mil km² do fundo do mar e tiraram 20 mil fotografias. Elas incluem peixes-lanterna brilhantes e cefalópodes de aspecto alienígena.>
"Conhecemos a superfície de Marte ou da Lua melhor que a do nosso próprio planeta", destaca Bell. "Você envia para lá um satélite e eles são cartografados em poucas semanas.">
"Por outro lado, não podemos fazer isso com o nosso oceano. Precisamos mapeá-lo pouco a pouco, utilizando instrumentos acústicos a bordo de navios.">
Nas ilhas Turks e Caicos, o equipamento descobriu algo que faltava nas cartas marinhas existentes: uma crista montanhosa extremamente íngreme de 3,2 mil metros de altura, que se estende por 70 km ao longo do leito marinho, a oeste de um lugar chamado Gentry Bank.>
Os pesquisadores também se surpreenderam ao encontrar um enorme sumidouro vertical conhecido como buraco azul, a 75 km ao sul de um banco conhecido como Grande Turk, formado pelo desabamento de uma caverna.>
"Imagine tirar uma bola de sorvete do fundo do mar", descreve Bell. "Foi isso o que vimos: uma cratera de cerca de 300 metros de largura a 550 metros abaixo do nível do mar.">
Eles acreditam que suas paredes escarpadas podem formar o buraco azul mais profundo do Caribe, rivalizando com o famoso Grande Buraco Azul de Belize.>
Normalmente, não há vida dentro de um buraco azul. Mas as câmeras instaladas no interior do novo local descoberto mostram pequenas esponjas, uma espécie de ouriço conhecida como Spantagoida grande e diversas espécies de peixes.>
E, a 25 km ao norte de Anguilla, os pesquisadores seguiram os rumores difundidos por pescadores locais, que haviam extraído pedaços de coral enquanto trabalhavam. A equipe confirmou a existência de um recife de 4 km com mosaicos de coral crescendo em "jardins" de esponjas.>
Eles também encontraram coral negro que poderia ter milhares de anos, o que o torna um dos mais antigos já registrados.>
"Isso nos indica que este ambiente realmente é saudável e intocado", afirma Bell.>
Os cientistas estão interessados nestas zonas de águas profundas e montanhas escarpadas porque elas podem canalizar águas ricas em nutrientes até a superfície, fornecendo zonas de alimentação para animais ou locais de pesca.>
A bordo do barco, o Cefas colaborou com um grupo de especialistas ambientais das ilhas Cayman, Anguilla e Turks e Caicos. Eles utilizarão as descobertas para melhorar os planos de gestão da biodiversidade e encontrar novas oportunidades de pesca para as comunidades das ilhas.>
"Nossas ilhas nasceram literalmente do mar. Mas, em relação ao nosso ambiente marinho, só agora tivemos realmente a oportunidade de descobrir o que há aí fora", declarou à BBC Kelly Forsythe, do Departamento de Meio Ambiente das ilhas Cayman.>
Os governos das ilhas se uniram às pesquisas como parte de um projeto chamado Programa Blue Belt ("Cinturão Azul").>
O trabalho deverá fornecer informações para ajudar o Reino Unido a cumprir seus compromissos legais perante a ONU, de proteger 30% dos oceanos do mundo até 2030, como Áreas Marinhas Protegidas oficialmente designadas.>
"Qualquer pessoa pode desenhar um quadrado no mapa e dizer: 'Esta é uma área marinha protegida'", explica Bell.>
"Mas, a menos que você saiba o que ela contém, não se tem certeza se ela tem alguma utilidade.">
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