Publicado em 18 de março de 2026 às 20:36
Tradicionalmente, na Venezuela, os ministros da Defesa não permaneciam mais do que um ano no cargo. Mas isso mudou radicalmente em 2014, quando o então presidente Nicolás Maduro nomeou Vladimir Padrino López para essa função. >
O general venezuelano manteve o posto por quase 12 anos, até esta quarta-feira (18/03), quando foi destituído pela presidente interina, Delcy Rodríguez. >
"Agradecemos a Vladimir Padrino López por sua lealdade à pátria e por ter sido, durante todos esses anos, o primeiro soldado na defesa do nosso país. Temos certeza de que assumirá com o mesmo compromisso e honra as novas responsabilidades que lhe serão confiadas", escreveu Rodríguez em uma mensagem publicada no X.>
A presidente anunciou a nomeação do general Gustavo González López como novo ministro da Defesa. >
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Padrino acabou se tornando um dos ministros que ficou mais tempo no cargo em toda a história da Venezuela. >
Durante a presidência de Maduro, e com Padrino à frente do Ministério da Defesa, os militares venezuelanos passaram a se envolver cada vez mais em áreas além da segurança nacional, conquistando espaço dentro do governo — a ponto de mais de um terço do gabinete ser composto por militares da ativa ou da reserva.>
Ao longo de todo esse período, Padrino foi considerado uma peça fundamental para garantir a estabilidade e o apoio das Forças Armadas ao governo chavista, apesar das crescentes dúvidas e críticas sobre a legitimidade do governo.>
Sua figura, contudo, foi colocada em xeque após a operação militar de 3 de janeiro, quando forças especiais dos Estados Unidos conseguiram entrar em Fuerte Tiuna — a principal instalação militar da Venezuela —, e na residência de Maduro e levá-lo preso junto com sua esposa, Cilia Flores, sem que as Forças Armadas venezuelanas demonstrassem capacidade de reação.>
Em uma mensagem publicada na rede X após sua destituição, Padrino manifestou seu agradecimento a Rodríguez:>
"Foi a maior honra da minha vida servir à pátria como soldado e proteger a paz e a unidade nacional durante todos esses anos à frente do Ministério do Poder Popular para a Defesa. Agradeço profundamente à presidente Interina, Delcy Rodríguez, por suas palavras", escreveu.>
Para a jornalista venezuelana Sebastiana Barráez, especialista em assuntos militares, a destituição do general Padrino López "significa o fim de uma era muito importante para as Forças Armadas".>
Ela explica que o militar destituído desempenhou um papel muito relevante no início do governo de Maduro, que herdou o poder de Hugo Chávez, mas não tinha a mesma trajetória militar.>
Além disso, ele foi o responsável por comprometer ideologicamente as Forças Armadas venezuelanas com o projeto da revolução bolivariana e atuou como um verdadeiro "apaziguador" dentro da instituição.>
Barráez ressalta que Padrino mantinha uma relação estreita com a Rússia e, em particular, com o presidente Vladimir Putin — algo que, segundo ela, contribuiu para que Maduro o mantivesse tanto tempo no cargo.>
Mas depois da queda de Maduro, a situação do militar não se mostrou tão favorável para o governo de Rodríguez, segundo a analista.>
"Neste momento, na verdade, o general Padrino era um obstáculo para os interesses dos Estados Unidos, no que diz respeito ao controle que o presidente Donald Trump pretende exercer sobre as Forças Armadas venezuelanas", aponta.>
A especialista observa que o novo ministro da Defesa "não tem ascendência nem liderança" dentro das Forças Armadas da Venezuela, já que a última vez em que foi nomeado para um cargo militar foi em 2008 e, desde então, desempenhou apenas funções ligadas aos serviços de inteligência — áreas nas quais acumulou questionamentos relacionados a direitos humanos.>
Apesar disso, Barráez não acredita que sua nomeação possa gerar risco de levante nas fileiras militares, já que as Forças Armadas venezuelanas ficaram duramente abaladas desde a operação de 3 de janeiro.>
"Isso expôs as fragilidades da instituição militar e, além disso, contribuiu de forma brutal para a desmoralização dos diferentes membros das Forças Armadas", aponta.>
A especialista alerta, contudo, que a nomeação de González López pode provocar um "ruído particular" em áreas onde há oficiais que se identificam ideologicamente com a revolução bolivariana.>
"É importante destacar que, com a chegada do general Gustavo Enrique González López ao Ministério da Defesa, podemos quase dizer que termina a presença marcante da revolução bolivariana dentro da instituição militar", afirma.>
Padrino foi uma peça importante durante o breve golpe de Estado contra Chávez em abril de 2002, já que, naquela época, comandava uma unidade de blindados estacionada em Fuerte Tiuna (Caracas) que se recusou a aderir ao levante.>
Sua figura, no entanto, começou a ser conhecida por grande parte dos venezuelanos em julho de 2012, quando Chávez o promoveu a segundo comandante do Exército e chefe do Estado-Maior.>
Esse momento é lembrado porque, ao apresentar um desfile militar, Padrino se referiu aos soldados como "patriotas, bolivarianos, socialistas, anti-imperialistas, revolucionários, treinados e equipados para assumir o sagrado dever da defesa da nação".>
Apesar das críticas que essas etiquetas despertaram, elas não lhe eram estranhas. De fato, em seu perfil na rede X, ele se descreve como "soldado bolivariano, decidido e convencido de seguir construindo a pátria socialista".>
Maduro o promoveu a general-chefe em 2013 e, um ano depois, ele chegou ao Ministério da Defesa.>
Segundo explicou Sebastiana Barráez, em entrevista concedida à BBC Mundo em 2024, Padrino teve um papel fundamental, já que, ao assumir o cargo, as Forças Armadas atravessavam um processo de "reacomodação interna" em consequência da morte de Chávez.>
"Quando Padrino López chega, havia muitos grupos de poder dentro da instituição militar e ele — que não é um homem de confronto — conseguiu que coabitassem dentro das Forças Armadas e que cada grupo entendesse que saía beneficiado desse acordo de paz entre todos. É claro que isso significou dar cotas econômicas e de poder a alguns desses setores", disse Barráez à BBC Mundo.>
"Com o tempo, Padrino foi minimizando esses conflitos internos, harmonizando as Forças Armadas e, de alguma forma, unificando-as. E esse mérito é o que lhe permitiu se manter como ministro da Defesa por dez anos, sem resistência dentro da instituição", acrescentou.>
E, de fato, com Padrino no Ministério da Defesa, os militares adquiriram grande poder.>
Em 2016, Maduro criou uma empresa militar — a Camimpeg — com poderes legais para explorar, buscar e distribuir petróleo.>
Também lhes concedeu o controle do chamado Arco Mineiro, uma região no sul do país que abriga uma das maiores reservas de ouro do mundo.>
Seu poder, no entanto, provavelmente estava muito atrelado à sorte de Maduro.>
Ao explicar a influência que Padrino exercia na Força Armada Bolivariana, o cientista político Nícmer Evans disse à BBC Mundo, também em 2024: "Hoje, a Força Armada é Padrino López". E acrescentou: "E Padrino López é Maduro".>
Gustavo González López, o substituto de Padrino, é um militar venezuelano que está sob sanções dos Estados Unidos e da União Europeia por acusações relacionadas à corrupção e violações de direitos humanos. >
Após a ascensão de Rodríguez à presidência interina em janeiro, ele ocupava o cargo de chefe da Guarda de Honra Presidencial, além de dirigir a Direção Geral de Contrainteligência Militar (Dgcim).>
Antes disso, foi diretor-geral do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin) em duas ocasiões: entre 2014 e 2018, e entre 2019 e 2024. >
"Durante sua gestão como diretor da Sebin, funcionários sob sua autoridade cometeram atos de detenção arbitrária, tortura e tratamentos cruéis e desumanos, incluindo violência sexual, no centro de detenção El Helicoide", aponta a União Europeia em seu documento sobre funcionários sancionados, referindo-se a González López.>
O militar venezuelano também foi comandante-geral da Milícia Bolivariana e ministro do Interior e Justiça.>
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