Publicado em 20 de janeiro de 2021 às 07:34
- Atualizado Data inválida
Em seu último discurso antes de viajar a Washington e tomar posse como o 46º presidente dos EUA, Joe Biden não conseguiu conter o choro. >
Agradeceu pelo apoio dos moradores de Delaware, estado onde viveu por quase 70 anos, e disse que sentia muito a ausência do filho Beau, que morreu em 2015 vítima de um câncer no cérebro. "Eu só tenho uma coisa a lamentar: ele não está aqui", disse Biden, visivelmente emocionado.>
Nesta quarta-feira (20), o democrata fará história ao assumir a Casa Branca em um dos momentos mais assustadores da trajetória americana. Aos 78 anos, Biden é o homem mais velho a chegar à Presidência dos EUA e tem a missão de comandar uma nação divida e devastada por uma grave crise econômica e uma pandemia que já matou mais de 400 mil pessoas no país.>
As credenciais inéditas da nova era incluem Kamala Harris, a primeira mulher negra a ocupar a Vice-Presidência americana, e que vai exercer papel definitivo no que se tornou o principal desafio de Biden nos próximos anos: conseguir, de fato, governar.>
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O avanço da maior crise de saúde do século, a violência política e o debate do impeachment de Donald Trump devem dominar os primeiros anos da gestão democrata, e especialistas acreditam que será difícil fazer muito além desses temas até meados de 2022.>
O Partido Democrata tem maioria na Câmara, e Kamala terá direito ao voto de desempate no Senado, rachado entre 50 democratas e 50 republicanos. A frágil maioria numérica, porém, não é suficiente para a aprovação de todas as medidas prometidas por Biden, principalmente daquelas que exigem ao menos 60 votos para ganhar o aval legislativo sem obstrução de opositores.>
"Biden terá uma caixa cheia sobre sua mesa, mas o primeiro item é o coronavírus", afirma Melvyn Levitsky, professor na Universidade de Michigan e ex-diplomata dos EUA em Moscou.>
Todos os outros temas, inclusive os relacionados à política externa, ele diz, terão que ser bastante trabalhados em meio à disputa das diferentes alas do Partido Democrata e às fileiras republicanas.>
Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV-SP, lembra que Barack Obama tinha maioria ainda mais ampla que Biden no Senado no início de seu primeiro mandato, mas não conseguiu aprovar medidas significativas sobre clima e imigração, por exemplo.>
"Obama queria fazer mudanças no sistema de saúde, com o Obamacare, e precisou abrir mão de muita coisa para colocar o foco em um único tema. No caso de Biden, esse tema já está dado, é o combate à pandemia, e acho difícil ter espaço para muito mais do que isso nos dois primeiros anos", completa.>
Na política há 48 anos, como vereador, senador e vice de Obama, Biden sabe que terá de lançar mão de seu perfil moderado e sua conhecida habilidade conciliatória para negociar com os dois lados do tabuleiro em meio à radicalização insuflada por Trump.>
Ainda na campanha eleitoral, parte da equipe do democrata acreditava que sua eleição poderia normalizar a situação do país e pacificar as divisões inclusive no Partido Republicano, mas a escalada dos atos --que culminaram na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro-- mostraram que o terrorismo doméstico ganhou tração como uma das principais ameaças nos EUA.>
Quando fizer seu primeiro discurso como presidente, pouco depois do meio-dia (14 horas de Brasília) desta quarta-feira, Biden insistirá na ideia de que os americanos precisam de união e pacificação para que a alma do país seja resgatada e suas fraturas, curadas. O democrata quer passar a mensagem de que a nação tem desafios, mas há esperança para resolver problemas.>
Em seu livro de memórias, Obama afirma que seu discurso de posse, em janeiro de 2009, é menos lembrado do que o enorme laço no chapéu da cantora Aretha Franklin, que se apresentou na cerimônia, ou que a pequena gafe do presidente da Suprema Corte, John Roberts, que se enganou ao declamar um trecho da Constituição americana, induzindo-o ao erro ao recitar seu juramento.>
No caso de Biden, dizem especialistas, o cenário é diferente, já que o democrata tem o início de governo mais difícil para um presidente desde que Franklin Delano Roosevelt assumiu a Casa Branca em 1933, com o desafio de combater a Grande Depressão.>
A posse de um novo presidente tem tradição de mostrar a transição pacífica de poder nos EUA e os planos para o futuro. A primeira parte da história ficou comprometida neste ano com a recusa de Trump em comparecer à posse do sucessor, o que não acontecia há 152 anos.>
O republicano não aceita totalmente a derrota e insiste na tese falsa de que as eleições foram fraudadas.>
No entanto, mais importante que uma retórica floreada - que não é o forte de Biden -, o discurso de posse deve sinalizar de que maneira o novo presidente vai tomar as medidas para unificar o país fraturado por atos e insurreições que culminaram na invasão do Capitólio, que deixou cinco mortos.>
Primogênito numa família de quatro filhos, Biden tinha gagueira crônica na infância, condição que foi amenizada com o tempo, mas ainda é apontada como razão para seus discursos pouco empolgantes.>
A campanha vitoriosa à Casa Branca no ano passado, porém, moldou em parte a oratória do democrata e convenceu assessores de que, com bastante treino e disciplina, ele é capaz de falar sem grandes sustos.>
Depois de seu pronunciamento nesta quarta, Biden pretende assinar diversas ordens executivas para reverter medidas colocadas em vigor por Trump.>
As ordens executivas são uma maneira de driblar justamente a maioria apertada no Senado --e a possível dispersão das atividades da Casa com o debate sobre o impeachment do republicano. As manobras, no entanto, podem ser alvo da Suprema Corte, que hoje conta com ampla maioria conservadora, de 6 votos a 3.>
Logo na primeira semana de governo, Biden quer colocar os EUA de volta na OMS (Organização Mundial da Saúde) e no Acordo de Paris. Promete também vacinar 100 milhões de americanos contra a Covid-19 em 100 dias e aprovar o plano de recuperação econômica no valor de US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 10 trilhões).>
O montante inclui US$ 400 bilhões (R$ 2,1 trilhões) para o combate à pandemia, além de pagamento direto aos americanos, auxílio aos desempregados, a pequenas empresas, e a estados e municípios.>
Biden quer também suspender o banimento de entrada nos EUA a viajantes de alguns países de maioria muçulmana, parar a construção do muro na divisa com o México, símbolo inacabado do governo Trump, e impedir a separação de famílias na fronteira.>
Especialista em relações bilaterais, o professor Levitsky acredita que, com essas e outras medidas, o democrata buscará "consertar o tecido rasgado de nossas alianças.">
"De modo geral, Biden tentará restaurar a liderança dos EUA nos assuntos internacionais. A promoção dos interesses dos EUA estará na frente, mas não será mais apenas a América [como pregava Trump].">
O perfil de Biden é considerado ideal para o momento turbulento, já que ele não é hiperbólico ou incendiário, e montou uma equipe de especialistas moderados, que estão há meses preparando seu plano de governo.>
"Com décadas de experiência política e demonstrada inclinação para atravessar o corredor [do Congresso, fazendo a ponte entre os partidos], Biden está bem preparado para reparar relações tensas ou rompidas com membros da comunidade internacional, enquanto trabalha para a reorganização gradual do sistema global", afirma Pauline Jones, especialista em ciência política.>
Depois de décadas atuando como senador no Congresso, o democrata sabe que os parlamentares desejam aprovar medidas populares que podem ajudar em suas eleições nos estados, mas que, muitas vezes, também aceitam em troca amargar medidas mais controversas.>
Integrantes de sua equipe, porém, já vislumbram dificuldades de Biden para equilibrar projetos que precisam do apoio bipartidário com acenos à ala mais à esquerda do Partido Democrata, que seguirá pressionado por reformas estruturais, principalmente nas áreas de saúde e meio ambiente.>
O primeiro teste de Biden no Congresso será a confirmação de nomes escolhidos para seu gabinete --ao contrário do Brasil, indicados pelo presidente para determinados cargos no primeiro escalão precisam da aprovação do Senado americano.>
O democrata já disse esperar que os parlamentares adotem uma estratégia dupla que permita realizar o julgamento de impeachment de Trump --acusado de incitação à violência que resultou no ataque ao Capitólio e na morte de cinco pessoas-- e, ao mesmo tempo, aprovar suas indicações e as medidas de alívio à pandemia.>
O impeachment de Trump já foi aprovado pela Câmara na semana passada e segue para a apreciação dos senadores, tornando o republicano o primeiro presidente impichado duas vezes pelos deputados nos EUA.>
Em janeiro de 2020, porém, Trump foi absolvido pelo Senado que, à época, tinha maioria republicana.>
Apesar da derrota na eleição e do processo de impeachment, Trump ampliou sua base eleitoral e conquistou 74 milhões de votos na disputa do ano passado --11 milhões a mais do que obteve em 2016.>
Com 81 milhões de votos, Biden deve ter cuidado para não tentar fazer com que sua chuva de promessas seja um eclipse do ativo político de seu antecessor.>
Em seu discurso de despedida, na véspera da posse de Biden, Trump não chorou. "Enquanto me preparo para entregar o poder a uma nova administração, ao meio-dia de quarta-feira, quero que saibam que o movimento que iniciamos está apenas começando", disse o republicano.>
Numa nação dividida, os caminhos para unidade são lentos e tortuosos.>
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