Curso de Residência em Jornalismo / [email protected]
Publicado em 1 de outubro de 2022 às 08:10
O nível de abstenção na votação deste domingo (2) pode ser fator decisivo para garantir ou não um segundo turno na disputa presidencial. Essa é a avaliação das campanhas dos líderes na corrida pelo Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), após a divulgação da pesquisa Datafolha da última quinta-feira (29). >
Os números mostram que Lula mantém 50% dos votos válidos e que Bolsonaro oscilou um ponto para cima, chegando a 36%. Com isso, o levantamento indica como real a possibilidade de que Lula vença ainda no primeiro turno. Já considerando os votos totais, em que se contabilizam brancos, nulos e indecisos, o petista marcou 48% das intenções de voto, oscilando um ponto para cima. Bolsonaro também subiu um ponto, chegando a 34%.>
Para integrantes da campanha do chefe do Executivo, se a abstenção for alta, o petista pode sair como maior prejudicado. O motivo é que a fatia do eleitorado em que a abstenção costuma ser maior é entre eleitores de baixa renda, segmento que apoia majoritariamente Lula.>
Por outro lado, aliados de Bolsonaro dizem que é importante trabalhar para que a população mais idosa compareça às urnas neste domingo (2). A avaliação de bolsonaristas é que o apoio do mandatário é maior nesse grupo. >
>
CLIQUE AQUI PARA RECEBER NOTÍCIAS DAS ELEIÇÕES 2022 NO WHATSAPP>
Além do que se chama de abstenção passiva, que é quando a pessoa sequer vai votar, há também a abstenção ativa, quando o eleitor vota em branco ou nulo. E, segundo o Datafolha, o percentual de eleitores que pretendem votar em branco, nulo ou se abster é de 3% , um ponto a menos que na pesquisa anterior. Indecisos são 2%. >
Nas eleições de 2018, quando o atual presidente foi eleito, 20% dos eleitores aptos a votar não compareceram às urnas, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No Espírito Santo, foi de 19%. Já os brancos e nulos foram 8,8% dos votos em nível nacional e 7,9% no Estado.>
No entanto, para a cientista política Luciana Tatagiba, é difícil tomar 2018 como parâmetro, pela natureza atípica daquela eleição. Ainda assim, ela observa uma tendência de manutenção do índice de abstenções próximo a 20%, com possibilidade de queda. Essa percepção se deve ao estímulo promovido por grupos antibolsonaristas para que as pessoas não deixem de votar.>
Segundo Tatagiba, duas variáveis constantes que motivam as abstenções são, justamente, a idade avançada e a baixa renda. A especialista explica que o alto índice entre idosos é um reflexo da dependência de familiares para conseguirem se deslocar às urnas, enquanto entre as pessoas mais pobres deve-se às dificuldades de deslocamento até o local de votação e a problemas de infraestrutura. >
De acordo com o portal de estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2018 as faixas etárias em que a abstenção foi maior foram as acima de 70 anos, que vai de 45% de abstenções até 83%, na faixa de 85 a 89 anos. Já a faixa com maior comparecimento foi a de 50 a 59 anos. >
O TSE não possui estatísticas específicas sobre a abstenção por faixas de renda, mas é possível ter uma dimensão desse cenário de acordo com os dados de escolaridade. Entre os analfabetos, o índice ficou em 46%, e entre os que apenas sabem ler e escrever foi de 28%. Entre os que possuem desde ensino fundamental incompleto até superior completo, os dados variaram de 18% a 25%.>
Luciana Tatagiba
Cientista política“Nas democracias, de uma maneira geral, o fenômeno da abstenção acompanha o que a gente vem chamando de crise das democracias contemporâneas”, pondera Tatagiba, que acrescenta: “Isso acompanha um cenário de erosão das democracias, de descrença nas instituições, de crise de representação”.>
Segundo a especialista, o receio da violência política também pode pesar no cálculo: “O eleitor tem que sair da sua casa e chegar na urna. Esse caminho não diz só respeito a uma questão de vontade ou de possibilidades infraestruturais, mas também a outras variáveis que estão fora do campo político-eleitoral específico, como a violência política, principalmente em territórios mais conflagrados”.>
Contudo, a especialista reconhece que a natureza plebiscitária desta eleição, que se concentra em grande medida sobre ser a favor ou contra Bolsonaro e Lula, traz um ingrediente novo e imprevisível, que pode estimular o voto. “É uma eleição apaixonada. A gente pode dizer que temos duas lideranças de perfil populista, sem nenhum juízo de valor, com forte apelo popular”, reflete.>
“Historicamente, a extrema-direita tem se beneficiado desses níveis de abstenção altos, que estão associados a esse cansaço da democracia e do sistema representativo”, explica Luciana Tatagiba. Contudo, para ela, há possibilidade de ambos os lados obterem vantagem das abstenções, que podem ser decisivas a depender de qual grupo terá uma ausência maior. >
Ainda assim, a cientista política acredita que a onda de apoios recentes a Lula e a sua disparada nas últimas pesquisas devem levar a um maior comparecimento dos apoiadores do petista, junto a um desincentivo para os eleitores de Bolsonaro. “A gente sabe que muitos eleitores vão votar em quem eles acham que vai ganhar”, observa.>
Porém, também existe a possibilidade de os bolsonaristas se sentirem ameaçados pela oportunidade de derrota já no primeiro turno e, com isso, se mobilizarem para votar, enquanto os apoiadores de Lula podem considerar que a eleição já está ganha e que não precisam sair de casa no domingo.>
Luciana Tatagiba
Cientista políticaUm último fator que, para Tatagiba, pode ser preponderante é a decisão dos eleitores que não querem Lula nem Bolsonaro. Para ela, existe a possibilidade desses eleitores votarem em outros candidatos, como Ciro Gomes e Simone Tebet, mas também de se desmotivarem e se absterem ou então migrarem para o voto útil. No fim, segundo a cientista política, tudo depende de “qual parcela da população vai se dedicar a votar efetivamente”. >
*João Vitor Castro é aluno do 25º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta. Este conteúdo teve a supervisão das editor as Gisele Arantes e Fernanda Dalmacio >
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta