O ano era 2016. Em um movimento crescente que teve início em 2013, manifestantes vestidos de verde e amarelo lotavam as ruas levantando bandeiras como a do combate à corrupção, apoio à Operação Lava Jato e o pedido de impeachment da então presidente da República, Dilma Rousseff (PT). Entre os grupos que ganharam força e destaque nas vias do Espírito Santo estavam o Movimento Brasil Livre (MBL-ES) e o Vem pra Rua.
Apoiadores da candidatura de Jair Bolsonaro (então no PSL, hoje sem partido) em 2018, em âmbito nacional e estadual, os grupos têm mudado de discurso, elevado o tom nas críticas ao mandatário e, até mesmo, convocado atos contrários ao governo.
"A maioria que depositou o voto neste governo está arrependida. Quem não está é porque idolatra. A história é irrefutável", afirma André Fanelli, coordenador do Vem pra Rua no Espírito Santo, que se considera suprapartidário, e do AtivAção, grupo criado no Estado em 2013 com as mesmas pautas anticorrupção.
O antipetismo, as pautas conservadoras no campo dos costumes e da economia e a defesa ferrenha da Operação Lava Jato levaram a direita a apoiar, em peso, o nome do "capitão" para a presidência. Agora, pouco mais de dois anos após a eleição, a saída do ex-juiz Sergio Moro do Ministério da Justiça, o fim da Lava Jato, as acusações que pairam sobre a família Bolsonaro e uma "condução negacionista" da pandemia de Covid-19 trouxeram "decepção" aos movimentos que passam a conclamar seus membros para atos contrários ao governo.
"Toda a luta que a gente teve se perdeu no governo dele. Ele se apropriou das nossas bandeiras para se eleger, do combate à corrupção, do apoio à Lava Jato, do fim da velha política de negociação com o Centrão. O que vemos hoje é o contrário de tudo pelo que a gente lutou. Ele traiu nosso movimento e o pessoal que teve como meta a mudança do Brasil continua com a mesma meta da mudança do Brasil", assinala Raquel Gerde, ex-coordenadora do MBL no Estado durante as manifestações de 2014 a 2018.
SAÍDA DE MORO FOI UM MARCO
Durante a campanha, em setembro de 2018, Bolsonaro defendeu a Operação Lava Jato. "Apoiar a Lava Jato é fundamental no combate à corrupção no Brasil. O fim da impunidade é uma das frentes que estanca o problema, outra é atacar a corrupção na sua raiz, pondo fim nas indicações políticas do governo em troca de apoio", escreveu. Ainda em novembro, enquanto presidente eleito, anunciou que Sergio Moro estaria em seu alto escalão, como ministro da Justiça.
As decisões foram comemoradas pelos grupos que enxergavam Moro como uma espécie de "pilar da honestidade" do governo, uma contínua lembrança de seu compromisso com o combate à corrupção, uma vez que o ex-juiz esteve no centro dos holofotes ao julgar e condenar políticos, em especial o ex-presidente Lula, ação comemorada com bonecos infláveis durante as manifestações.
Em 24 de abril do ano passado, no entanto, Moro pediu demissão e acusou Bolsonaro de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. A saída do ex-juiz causou estranheza nos grupos de direita. "A gente sabe que se o Moro começou a perceber uma aliança se formando com o Centrão, pessoas que foram condenadas por ele, como ele poderia ficar no governo? Saiu do governo pela história que ele tem de combate à corrupção", opina Gerde.
Com a dissolução da força-tarefa de Curitiba no início do mês de fevereiro, por decisão o procurador-geral da República – escolhido pelo presidente para o cargo – Augusto Aras, o governo deixou claro, para André Fanelli, que não há compromisso com o combate à corrupção.
"É com muita tristeza que sentimos um arrependimento muito grande ao ver o mecanismo estabelecido. Os acordos com o Centrão, a velha política. Estamos decepcionados em relação ao combate à corrupção, o extermínio da Lava Jato. Começa com a suspeita de rachadinha (envolvendo Flávio Bolsonaro), Queiroz, ataque ao Moro, e por aí vai... Ele age em favor da família dele e não do Brasil", acrescenta.
Fanelli se refere às acusações de corrupção envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontar movimentações suspeitas na conta do ex-assessor de Flávio e amigo da família Bolsonaro, Fabrício Queiroz. O caso ainda tramita na Justiça. A defesa do senador tenta uma série de manobras para impedir o avanço das apurações.
Os extratos de Queiroz ainda revelaram depósitos feitos na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que somariam R$ 89 mil. "Nós costumamos falar que estamos em uma linha de trem. Em qual estação você desceu? Em qual você se decepcionou com esse governo? Nós temos mais de 23 estações, marcos de decepção. Muitos saltaram nas primeiras, outros, depois. Alguns estão descendo agora, com o fim do Lava Jato", afirma.
NEGOCIAÇÕES COM CENTRÃO E REELEIÇÃO
A eleição de Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara também não agradou aos membros dos movimentos. Rayza Rosa, coordenadora do MBL-ES, afirma que o grupo segue a linha de raciocínio da diretoria nacional, que se posicionou contra a eleição de Lira e contra Bolsonaro por não ter "mantido as promessas que fez durante a campanha".
Um dos principais nomes nacionais do MBL, o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) candidatou-se à presidência da Câmara como forma de protesto e, no discurso que teve direito a proferir, criticou duramente Bolsonaro. O parlamentar chamou o presidente de "traidor" e "verme". "Uma legislatura depois, Bolsonaro faz o que criticava no PT", disse, se referindo à negociação de emendas parlamentares em troca de apoio do Centrão.
O governo federal liberou R$ 504 milhões em emendas parlamentares para deputados e senadores até o dia 26 de janeiro, valor maior do que o que foi repassado no mês inteiro em qualquer ano anterior. A eleição no Congresso foi no dia 1º deste mês.
A vitória dos candidatos apoiados pelo governo foi vista, por especialistas, como fortalecimento do Centrão e "traição ao discurso" do presidente. Em 2018, ainda candidato, Bolsonaro se referiu aos deputados que compõem o Centrão como "a nata de tudo que não presta na política brasileira". Lira, apoiado pelo presidente, é líder do grupo e filiado ao PP, partido do qual o próprio Bolsonaro já fez parte. O PP é um dos principais expoentes do Centrão e também alvo destacado na Lava Jato por frequentes casos de corrupção.
Kataguiri também pontuou que houve traição à promessa de campanha de Bolsonaro de "acabar com a reeleição", decepção também apontada por Raquel Gerde no Espírito Santo. Enquanto ainda era candidato, Bolsonaro afirmou, em coletiva, que pretendia fazer "uma excelente reforma política" para acabar com a reeleição, "começando por mim, caso seja eleito" e diminuir o número de parlamentares.
"Outra coisa que ele falou é que não ia se reeleger, que seria só uma candidatura. Agora, desde que entrou, ele trabalha para reeleição, houve uma grande regressão de tudo que foi falado", aponta Gerde. Tanto ela quanto membros do MBL-ES e do Vem pra Rua apoiaram a candidatura de Bolsonaro e estiveram nas ruas para demonstrar apoio ao presidente em 2019.
CONDUÇÃO DA PANDEMIA
Edilon Silva, que foi membro do Vem pra Rua, decepcionou-se com tudo que já foi citado pelos outros membros dos grupos, mas somente diante da postura "negacionista" do presidente diante da pandemia de Covid-19 que, de fato, deixou de apoiar o governo. Em março do ano passado, quando a doença se espalhava e assustava os brasileiros, Silva ainda estava organizando atos pró-Bolsonaro e contra o Congresso.
"A reação dele (Bolsonaro) pegou todo mundo de surpresa. Minha saída do movimento foi por isso, quando houve a negação da pandemia. Quando insistiu em medicamentos que não valiam nada, não investiu na vacina. Pessoas de dentro do movimento morreram de Covid, morreram por acreditar no negacionismo dele", relata.
Parte das reclamações deve-se à escolha do ministro da Saúde. Os direitistas afirmam que Bolsonaro descumpriu a promessa de nomear ministros técnicos quando efetivou Eduardo Pazuello, militar, para a função. Além disso, também apontam o atraso na vacinação e as declarações de Bolsonaro que contrariam a ciência.
Enquanto o número de contaminados crescia no país, o ministério da Saúde trocou de comando três vezes e, em entrevistas, o presidente chamou a doença de "gripezinha", afirmou que era "mais uma fantasia e não tudo isso propagado pela mídia" e chegou a questionar "e daí? quer que eu faça o que?" diante do número alarmante de mortos.
Acontece que o vírus contaminou apoiadores do presidente. Gerde perdeu mais de um familiar para a doença e, por isso, lamenta a posição do governo que antes apoiava. "Ele (Bolsonaro) precisa dar respostas para o povo brasileiro. Sobre as mortes, sobre quem está sofrendo em Manaus. No momento não há um plano econômico. O Brasil está sem rumo, sem governo", avalia.
Entre quem ainda está coordenando os movimentos, o clima é de tensão por não poder ir às ruas. Preocupados com o avanço da doença, tanto o MBL-ES quanto o Vem pra Rua não estão organizando manifestações. A preocupação é com membros dos grupos e com a própria imagem. "Quem está na rua são os negacionistas, nós decidimos não aderir, por enquanto", explica Fanelli.
Rayza Rosa, do MBL-ES, espera que nos próximos meses a realidade seja outra. "Ainda não conseguimos fazer manifestações por falta de aderência por decorrência da pandemia. Nos próximos meses, a gente já quer mudar isso, aos poucos", projeta.
Para Gerde, que já não está à frente dos movimentos, mas mobilizou milhares de pessoas para pedir o impeachment de Dilma, o silêncio nas ruas não significa que o presidente ainda tenha o apoio "da maioria silenciosa". "O recado foi dado nas urnas em 2020. Nem petistas, nem bolsonaristas se elegeram. Se o presidente não entendeu o recado ainda, que espere 2022."