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Conjuração capixaba?

E se o Espírito Santo fosse um país? Ideia já teve adeptos no Estado

De governos autônomos provisórios no interior a movimentos separatistas mais recentes, alguns grupos já defenderam a independência do Estado. Especialistas projetam impactos caso a ideia vingasse

Publicado em 30 de Maio de 2021 às 07:50

Rafael Silva

Publicado em 

30 mai 2021 às 07:50
Bandeira de movimento separatista no ES: Convento da Penha, café e cana-de-açúcar são símbolos dos defensores da
Bandeira de movimento separatista no ES: Convento da Penha, café e cana-de-açúcar são símbolos dos defensores da República do Espírito Santo. Lema na bandeira também sofreu alteração Crédito: Divulgação
Você apoiaria que o Espírito Santo se separasse do restante do Brasil e se tornasse um país independente? A causa voltou a circular nas últimas semanas nas redes sociais, quando o governador Renato Casagrande (PSB), em abril, encabeçou uma articulação com outros governadores junto à Embaixada dos Estados Unidos. Nas declarações, comprometeu-se com a "emergência climática global", em contraponto ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
Internautas incomodados com a política ambiental do governo federal "sugeriram", em tom de brincadeira, que não seria má ideia o rompimento do Estado com o país. No entanto, a ideia já foi defendida por movimentos separatistas no Espírito Santo, tanto em um passado remoto, quanto em tempos não tão distantes assim.
Um dos últimos grupos de que se tem registro tinha uma página no Facebook chamada "O Espírito Santo é meu país", chegou a realizar encontros presenciais de defensores da causa, criar uma bandeira e até a articular-se com movimentos separatistas de outros Estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Roraima. Os movimentos chegaram a montar o embrião de um partido político chamado Aliança Nacional – não confundir com o Aliança pelo Brasil, que Bolsonaro tenta viabilizar – com a intenção de defender o desmantelamento da Federação.
O grupo capixaba teve origem em 2014 e chegou a ter 200 membros ativos, mas, apesar de a página ter atualmente 6.099 curtidas, está inativa desde 2019. Um dos responsáveis pelo grupo, o publicitário Guga Lima, argumentou em 2016, em uma reportagem de A Gazeta, que se o Estado fosse autônomo poderia se desvencilhar da crise política e econômica que desde aquela época assola o Brasil.
"Viajei para a Europa e reparei que nenhum país é maior do que a Amazônia e qualquer país de lá é mais organizado do que o Brasil. O povo do Espírito Santo tem clamado por mudanças e não dá mais para esperar. Queremos separação"
Guga Lima, em 2016 - Uma dos líderes do movimento na época
Em 2021, a reportagem tentou contato novamente com os responsáveis pela página. Em uma mensagem escrita pelo administrador, que não se identificou, foi dito que as discussões, tanto no Espírito Santo, quanto nos outros Estados, esfriaram nos últimos dois anos, por conta da polarização após a eleição de 2018.
"Essa onda de divisões esfriou esses movimentos. De um lado os seguidores do PT, de outro os que seguem Bolsonaro. Essa divisão fez os grupos separatistas darem um tempo, até porque tudo vira polêmica hoje em dia"
Administrador da página "O Espírito Santo é meu país" - Em 2021
Caso a ideia vingasse, o Espírito Santo seria, levando em conta estimativas da Organização das Nações Unidas, o 129º país mais populoso do mundo. Ficaria à frente de nações como Uruguai, Jamaica e Catar.
A economia também não ficaria entre as últimas posições globais. Em uma lista de 185 países, considerando dados de 2019, o Estado seria a 103ª potência mundial, com PIB de R$ 124,3 bilhões — mais rico que países como El Salvador, Islândia e Senegal.
Produção de petróleo em terra, em Linhares
Produção de petróleo em terra, em Linhares: exploração do óleo é uma das maiores receitas do Estado Crédito: Carlos Alberto Silva

ECONOMISTA: "SEPARAÇÃO SERIA DESVANTAJOSA"

Na análise do economista e consultor do Tesouro Estadual Eduardo Araújo, a improvável separação do Estado traria mais desvantagens do que vantagens para o Espírito Santo. Se por um lado é comum que o volume de recursos enviados pela União ao Estado seja menor do que a quantidade de impostos paga pelos capixabas, por outro há uma série de "serviços" bancados pela nação que pesaria no bolso de um hipotético novo país.
Segundo ele, as federações da República dividem custos de uma estrutura importante para o país que nem sempre entram nessa conta. “O Exército, por exemplo, tem um custo elevado para a defesa que não é considerado. Há também a diplomacia brasileira, importantíssima para acordos comerciais e representação no cenário internacional, além da Previdência Social (dos trabalhadores que atuam na iniciativa privada), que talvez seja o maior gasto de todos”, avalia.
Uma separação também criaria dificuldades para a exploração dos bens capixabas. O petróleo, por exemplo, que gera uma das maiores receitas para o Estado, tem um custo elevado de investimentos para a extração no mar. Sem a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo (ANP), duas estatais especializadas no setor – uma na operação das atividades e a outra na regulação do mercado –, o Espírito Santo poderia enfrentar uma séria crise financeira.
"Não é fazer parte do Brasil que está limitando o desenvolvimento do Estado, do ponto de vista econômico. Eu acredito que cooperando entre os Estados podemos ter mais ganhos e nos desenvolver, fazendo negociações em bloco com outros países. O Espírito Santo tem uma economia jovem, industrializou-se a partir de 1950, tem indústrias recentes e muitos desafios"
Eduardo Araújo - Economista

ÚLTIMO MOVIMENTO SEPARATISTA QUE ‘DEU CERTO’ FOI NO ES

Seja por diferenças ideológicas, religiosas ou culturais, movimentos separatistas pipocaram no país desde a época em que o Brasil ainda era colônia de Portugal. O único que obteve sucesso foi a separação da Província Cisplatina, em 1828, que deu origem ao Uruguai. O território uruguaio tinha sido incorporado ao Brasil 16 anos antes, após os portugueses invadirem a margem oriental do Rio da Prata.
Outros movimentos também causaram bastante barulho. A Inconfidência Mineira, de 1789, pretendia tornar Minas Gerais um país independente, mas, após a traição de um dos seus membros, o movimento foi desmantelado. Já a Revolução Pernambucana (1817), liderada pelo capixaba Domingos José Martins, chegou a tomar a sede do Poder em Pernambuco por três meses, mas também acabou destituída pelos portugueses. Retratada em filmes e novelas, a Guerra dos Farrapos (1835-1845), no Rio Grande do Sul, chegou a proclamar a República Rio-Grandense, mas, após uma série de derrotas, os revoltosos assinaram um acordo de paz.
A última experiência separatista brasileira que chegou mais perto de conseguir realizar alguma mudança aconteceu em Ecoporanga, no Noroeste capixaba. O Estado União de Jeová, criado por um camponês baiano chamado Udelino Alves de Matos, chegou a reunir cerca de 800 pessoas e por quatro anos liderou um governo independente entre as divisas de Espírito Santo e Minas Gerais.
Cena do docudrama Cotaxés, de Adilson Vilaça, que retrata os conflitos da região do Contestado
Cena do docudrama "Cotaxés", de Adilson Vilaça, que retrata os conflitos da região do Contestado Crédito: Reprodução
O movimento surgiu em meio a uma intensa disputa entre os governos mineiro e capixaba sobre a região do Contestado, que reivindicava para seus territórios uma parte considerável dos municípios de Barra de São Francisco e Ecoporanga.
Em um misto de líder messiânico e incentivador de posseiros, Udelino chegou a fundar uma sede administrativa de seu governo, criar bandeira, hino e até abrir cargos públicos. Ele tinha como um de seus seguranças Jorge Come-Cru, pistoleiro famoso por devorar suas vítimas vivas e que teve sua história contada no podcast "Vidas Bandidas", de A Gazeta.
Autor do livro "Cotaxés" e um dos maiores pesquisadores sobre o movimento, Adilson Vilaça conta que, mesmo na década de 1950, a sociedade da época já achava grotesca a ideia de fundar um Estado no território capixaba. Ainda que, para quem vivia na região, o Estado União de Jeová fosse uma realidade.
“Quem estava envolvido naquele movimento acreditava que tinham, sim, o direito de se separar do Espírito Santo e de Minas Gerais. Em um primeiro momento, não deram tanta importância, achavam bizarro, mas o movimento cresceu, teve uma disputa violenta por terras e aí o poder central do Estado precisou tomar providências. Foi a última tentativa de se fazer um Estado, ainda que de modo precário e com um governo provisório, no Brasil”, afirma Vilaça.
O escritor acredita que a ideia de separar o Espírito Santo do país, ainda que tenha algum coro nas redes sociais, é impensável atualmente. Para Vilaça, há uma diferença, por exemplo, em outros movimentos separatistas mais emblemáticos no mundo, como os que defendem a separação da Catalunha da Espanha.
"A Catalunha é um território que já existiu de forma autônoma antes de ser anexado pela Espanha, do mesmo modo que o Tibet. Vejo uma racionalidade maior em buscar a separação e voltar ao que era antes. Eu não vejo razões plausíveis para florescer um movimento desses aqui no Estado, me parece uma ideia bizarra. No entanto, com o fenômeno da internet, tornou-se muito fácil que ideiais bizarras prosperem"
Adilson Vilaça - Escritor e jornalista

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