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Lendas e verdades sobre Cotaxé e a Canudos Capixaba

Documentação nos arquivos da Assembleia Legislativa demonstra cabalmente que a história sobre a existência do Estado União de Jeová é uma fraude: nunca existiu

Publicado em 06/02/2021 às 10h00
Vila de Cotaxé
Vila de Cotaxé: disputa de fronteira entre o Espírito Santo e Minas Gerais, na região conhecida como Contestado. Crédito: Reprodução/Arte: Lucas Albani
  • Elio Ramires Garcia

    É mestre em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)

Muito já foi escrito sobre os conflitos ocorridos na década de 1950 na localidade de Cotaxé, no Noroeste do Espírito Santo, onde a figura carismática de Udelino Alves de Matos teria liderado uma espécie de “Canudos Capixaba” com a proposta de criar um novo ente federado no país. São trabalhos acadêmicos, artigos de jornal e até mesmo livros paradidáticos. Mas a descoberta no Arquivo Geral da Assembleia Legislativa (Ales) sobre os ditos “desaparecidos” autos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Lavradores conta uma outra história, desmentindo lendas e mitos.

Mostram que pseudoverdades, equívocos e invencionices foram estabelecidos na literatura sobre o tema. A maior destas pseudoverdades afirma que Udelino pretendia construir um certo Estado União de Jeová, para resolver a disputa de fronteira entre o Espírito Santo e Minas Gerais, na região conhecida como Contestado. Segundo o estabelecido na literatura, Udelino, o suposto governador do Estado União de Jeová, seria um líder messiânico e seu movimento teria, igualmente, natureza messiânica. Tais alegações, no entanto, já foram discutidas, e negadas, em duas dissertações de mestrado, a saber, a deste autor e a do Prof. Ms. Victor Augusto Lage Pena.

Em meados do século passado, as terras ocupadas por posseiros no Norte e Noroeste do Espírito Santo geraram a cobiça de grileiros. A Polícia Militar (PM), principalmente por sua Delegacia de Capturas da Região Norte do Estado, atuava com extrema violência contra os agricultores que ocupavam, via de regra, áreas devolutas. Tal violência gerava protestos e manifestações, especialmente do deputado federal Wilson Cunha (PSP), que da tribuna da Câmara Federal, na época no Rio de Janeiro, denunciava as arbitrariedades policiais.

CPI DOS LAVRADORES

A CPI dos Lavadores foi aberta na Ales com objetivo de “apurar a responsabilidade dos fatos que estariam ocorrendo entre a Polícia Militar e lavradores do Norte do Estado”. No total, foram ouvidas 338 testemunhas e produzidas 715 páginas de documentos. Entre os ouvidos nas localidades de Pedra da Viúva, nome pelo qual era conhecida a Vila de Cotaxé, Paulista e Ronco, em Barra de São Francisco, estava mais de uma vintena de posseiros liderados por Udelino

Dizia a lenda que os autos de certa “CPI do Estado da União de Jeová” teriam desaparecido, surrupiados pelos deputados que a integraram. No entanto, seguindo determinadas indicações, procuramos o Arquivo Geral da Ales e, fato nada surpreendente, lá estavam os documentos, não da “CPI do Estado da União de Jeová”, que na verdade nunca existiu, mas sim da CPI dos Lavradores.

A documentação demonstra cabalmente que a história sobre a existência do Estado União de Jeová é uma fraude: nunca existiu. Nos autos da CPI dos Lavradores, encontramos apenas duas referências sobre o tal Estado.

Uma delas, feita pelo encarregado de liquidar o movimento de Udelino, o Major PM Djalma Borges, alegadamente com base em informações do posseiro Mário Bernardo da Silva. Ocorre que este posseiro, segundo o depoimento do então prefeito de Barra de São Francisco, Cristolino Cardoso, e de outros dois posseiros, foi brutalmente espancado pelos policiais de Borges. Na referência feita pelo Cabo Manoel Rodrigues de Paula, este afirmou ter feito a apreensão de uma mala com documentos sem importância “[...] no chamado ‘Estado de Jeová’”, indicando, com isso, que não é da sua responsabilidade tal formulação.

Nas 715 páginas de depoimentos, apenas e tão somente Djalma Borges, substantivamente, afirmou que existiu o tal Estado, criado por Udelino, por ordem de Getúlio Vargas e sugestão de Wilson Cunha. Assim, acreditamos que fica definitivamente desfeita e enterrada a fraude sobre o Estado União de Jeová. No entanto, nos depoimentos várias são as referências ao Patrimônio União de Jeová, uma vila realmente sendo construída por Udelino, fato mencionado apenas nas dissertações de mestrado de Wallace Pontes e Victor Lage Pena. Também mencionaram o Patrimônio tanto o prefeito Cristolino Cardoso, que declarou ter até mesmo visitado o local, quanto o padre Zacarias de Oliveira, pároco de Barra de São Francisco.

No restante da literatura pertinente, nenhuma informação sobre o dito Patrimônio, fato que agora passa a ser conhecido com o “achamento” dos autos da CPI dos Lavradores na Ales.

MENÇÃO A UDELINO

Udelino nunca se autodenominou governador e, tampouco, foi assim mencionado pelos mais de 20 posseiros que depuseram na CPI. Segundo alguns depoimentos, ele se apresentava como delegado federal dos lavradores nomeado por Vargas. Uma única vez foi declarado “delegado de matos” e, inclusive, datou um dos seus bilhetes a grileiros como tendo origem no Patrimônio União de Jeová.

O Estado União de Jeová, inventado por Djalma Borges, nunca existiu, nem mesmo na mente de Udelino, mas essa versão, apropriada pelo governo do Estado, era interessante para justificar a violência da PM e do governo de Jones dos Santos Neves (1950-1954). Pela mesma forma, nem mesmo o suposto governador Udelino, o líder messiânico e a CPI do Estado União de Jeová, versões difundidas pela literatura, também nunca existiram.

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