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Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 13:38
O ano de 2026 fecha o ciclo do atual mandato dos deputados federais do Espírito Santo. Diante da iminência de uma nova eleição, A Gazeta fez um levantamento para analisar a atuação da bancada capixaba ao longo desta legislatura, iniciada em 2023, na Câmara. A atividade parlamentar exige a participação em reuniões de comissões, sessões plenárias, apresentação de propostas que visem melhorias para a população, entre outras atribuições. E como será que se saíram os representantes do Estado nos últimos três anos?>
A apuração levou em consideração dados registrados na página oficial da Câmara dos Deputados. É um canal que os eleitores também podem acessar na internet para acompanhar a atuação parlamentar, na parte de atividade legislativa, na qual é possível pesquisar as proposições de cada um ou discursos — os dois focos deste levantamento. >
Quando se trata de discurso, o deputado Amaro Neto (Republicanos), que é um comunicador profissional, não se saiu bem. Ao longo dos três anos, ele não teve uma participação sequer em plenário, na ordem do dia. O parlamento, se considerado um dos significados da palavra, é justamente o espaço para se falar, debater, discutir ideias. >
Nesse quesito, quem mais se posicionou para o debate foi Helder Salomão (PT), com 250 participações — mais da metade somente em 2025. Ele foi acompanhado de perto por Gilson Daniel (Podemos), que discursou em plenário 246 vezes ao longo de três anos. >
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Se discurso não foi o forte de Amaro Neto, na apresentação de propostas o deputado do Republicanos não esteve muito melhor. Na bancada de 10 parlamentares do Espírito Santo, ele foi quem menos encaminhou projetos de lei e projetos de lei complementar, como autor ou coautor. Foram 14 proposições, sendo que, ao longo de 2024, não houve nenhuma.>
Na outra ponta, Evair de Melo (PP) se destaca com 189 propostas — o único do Espírito Santo a ultrapassar, até o momento, a marca de 100 projetos na atual legislatura.>
A reportagem de A Gazeta entrou em contato com os deputados que se destacaram no ranking — positiva ou negativamente. Amaro Neto, que teve a pior posição nos dois quesitos avaliados de atividade legislativa, diz, em nota, que ao longo do mandato priorizou uma atuação focada na destinação de recursos, na articulação com prefeitos e lideranças locais e no acompanhamento direto das demandas dos municípios capixabas. >
"Esse trabalho resultou no envio de R$ 226 milhões em emendas para áreas essenciais como saúde, educação, infraestrutura, segurança e assistência social, com impacto direto na vida das pessoas", argumenta. >
Além disso, Amaro ressalta que manteve participação ativa nas votações da Câmara, nas comissões e no diálogo permanente com gestores municipais, optando por uma atuação mais prática e menos voltada à exposição em plenário.>
Em conversa com A Gazeta, Helder Salomão afirma que trabalha fortemente no Estado, não apenas na Câmara, mas explica que o plenário é local de expressão maior do mandato, onde ele atua fazendo pronunciamentos e defendendo propostas, articulando aprovação de matérias, encaminhando a favor ou contra projetos. O deputado frisa que tem uma participação intensa, tanto na ordem do dia em que são feitas essas discussões quanto no "grande expediente", em que os parlamentares podem tratar de qualquer assunto. >
"Acho importante essa atuação que dá, ao mesmo tempo, visibilidade ao mandato e demonstra a capacidade de falar sobre as matérias, de debater ideias. Eu destaco ainda outra coisa: tenho atuação grande nos bastidores, na articulação com outros partidos e federações sobre as propostas que estão em tramitação na Casa, e sou membro da principal comissão, a de Constituição e Justiça (CCJ), com reuniões três vezes por semana que, às vezes, até limita minha atuação em plenário, que poderia ser ainda mais vigorosa.">
Helder avalia que usar a tribuna é imprescindível para defender as pautas importantes para o Brasil e, particularmente, para o Espírito Santo. Ele lembra que um deputado federal atua pelo país inteiro, uma vez que o que é votado repercute em todos os Estados, mas o deputado do PT garante que tem um cuidado especial com o que interessa mais diretamente ao capixaba, ao que impacta à economia e à população do Estado. >
Sobre os projetos que têm apresentado ao longo do mandato, Helder diz que muitos se constroem a partir de sugestões que chegam do Estado. "Acho fundamental estar atento e ouvir as demandas da sociedade. Não dá para legislar sem ouvir as pessoas. O que não se pode é fazer dessas conversas espaços de negociação de interesse próprio. Eu prezo pelo interesse coletivo, atuo com bastante zelo porque, quando se muda uma lei, não estamos mexendo apenas com pessoas de um município ou Estado, o que já seria muito, mas com interesses de um país inteiro.">
A escuta também tem sido parte da atuação de Gilson Daniel, segundo afirma em nota. “Esses números refletem um mandato presente e comprometido com os capixabas. Minha atuação em plenário e a apresentação de projetos são resultado direto do trabalho que realizo como ouvidor-geral da Câmara dos Deputados, função que exige escuta permanente, diálogo com a sociedade e encaminhamento das demandas que chegam até nós. Meu compromisso é dar voz à população do Espírito Santo, fiscalizar, propor soluções e representar cada capixaba com responsabilidade e seriedade.”>
Evair de Melo, que se destacou no volume de propostas apresentadas, avalia que os números refletem uma escolha consciente de mandato: presença permanente no Congresso Nacional, produção legislativa consistente e compromisso com o papel constitucional do parlamento.>
"Apresentei e relatei cerca de 3 mil proposições legislativas, entre projetos de leis, indicações, requerimentos diversos e relatórios, que revelam um trabalho contínuo, sério e intenso, especialmente por se tratar de um mandato, nestes últimos três anos, de oposição", pontua, em nota. >
O deputado do PP diz que, durante o mandato, tem buscado dialogar com os mais diversos segmentos da sociedade brasileira, em especial com as demandas dos capixabas. "Atuamos em pautas ligadas à educação de qualidade, inovação, tecnologia e pesquisa; à promoção da saúde; à infraestrutura e ao desenvolvimento regional; à energia e ao fortalecimento da base produtiva; além do reconhecimento e da valorização das tradições, da cultura e do patrimônio material e imaterial do Espírito Santo", sustenta Evair. >
Ele diz ainda que, em todas essas frentes, manteve posições firmes na defesa da propriedade privada, da família, do direito à vida, da prosperidade, da liberdade e da segurança jurídica — valores que, segundo Evair, orientam sua atuação legislativa e dão coerência a seu mandato.>
Rodrigo Prando, cientista político e sociólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, reforça que o parlamento é o espaço de "parlar", isto é, conversar. >
"É o espaço do debate. A política, entre outras coisas, existe para que os conflitos sejam resolvidos. Em primeiro lugar, por meio do diálogo, dentro das instituições e à luz da lei e da legalidade. Se um parlamentar não fala, é muito complicado. Mesmo que seja um bom articulador, uma pessoa com capacidade técnica muito boa e conhecimento do Estado, seria importante que esse político conseguisse dialogar com seus adversários, dentro do parlamento, e com a sociedade em geral.">
Mas, para ele, não se deve analisar a oratória ou mesmo o volume de projetos isoladamente — a quantidade não se traduz, necessariamente, em propostas de impacto e relevância para a sociedade. Prando pontua que, para as pessoas fazerem boas escolhas na política, devem levar em conta que, na democracia, existe a temporalidade, descrita por ele da seguinte maneira:>
"A cultura política brasileira se concentra demais no chefe do Executivo — prefeito, governador, presidente da República. Só que é muito importante que as pessoas tenham noção de que é essencial escolher bem o vereador, o deputado estadual, o deputado federal e o senador porque as leis são feitas por eles", acrescenta. >
Prando diz que é fundamental que o eleitor acompanhe o trabalho dos parlamentares, seja por meio dos canais oficiais do Legislativo na internet, seja em conteúdos jornalísticos, e cobrar deles — por e-mail do gabinete, mensagem por aplicativo, pessoalmente — a apresentação de propostas que sejam relevantes e também resultados. >
O cientista político observa que, na atual conjuntura, muita gente considera a composição do Congresso Nacional uma das piores, mas pondera que, se o Legislativo tem um parlamentar comprometido com a democracia, valores republicanos, que é honesto, apresenta projetos e faz da política um espaço de ampliação da liberdade e da melhoria contínua da sociedade, ele chegou lá pelo voto. Mas o picareta e o corrupto que estão lá também chegaram dessa maneira. >
"Então, é importantíssimo que as pessoas tenham essa noção de que o voto é fundamental na escolha, mas não podem acreditar que, depois de digitar o número do deputado e apertar o verde na urna, já é a realização da cidadania, o que não é. A cidadania na política também tem o acompanhamento.">
Para as próximas eleições, o cientista político reforça a teoria da temporalidade da democracia.>
"Que essa escolha seja feita de maneira consciente, muito crítica, analisando aquilo que o deputado produziu, especialmente esses que estão buscando reeleição. Sobre aqueles que se candidatam pela primeira vez, é acompanhar a trajetória pública, a trajetória privada, quais foram suas realizações, quais são suas intenções, as ideias, as forças motivadoras dessa candidatura.">
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