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Caso Glenn Greenwald: entenda desde as invasões de hackers à denúncia do MPF

Ministério Público Federal apresentou denúncia contra o jornalista por invasão de contas do Telegram nesta terça-feira (21). Caso começou em junho de 2019 com as primeiras matérias publicadas pelo site The Intercept Brasil. Relembre

Publicado em 22/01/2020 às 16h03
Atualizado em 23/01/2020 às 20h10
O jornalista Glenn Greenwald foi denunciado pelo MPF. Crédito: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
O jornalista Glenn Greenwald foi denunciado pelo MPF. Crédito: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

jornalista Glenn Greenwald foi denunciado pelo Ministério Público Federal Ministério (MPF) nesta terça-feira (21), no âmbito da Operação Spoofing, que apura a invasão de aplicativos de mensagens de autoridades brasileiras, entre elas o atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, e procuradores da Lava Jato. A acusação contra o fundador do site The Intercept Brasil, além de outras seis pessoas, é de envolvimento na invasão ilegal das contas no aplicativo Telegram.

O caso começou em junho de 2019. A partir das mensagens obtidas por hackers, o site de Glenn, The Intercept Brasil, começou a publicar uma série de reportagens revelando trechos de conversas, por exemplo, entre Moro e o procurador Deltan Dallagnol, que coordena a Lava Jato no Paraná. A maioria das publicações questionava a atuação e falta de imparcialidade do ex-juiz.

A Gazeta recuperou os principais pontos do caso, desde as primeiras reportagens até as investigações que culminaram na denúncia do MPF. Relembre:

JUNHO DE 2019 – OS PRIMEIROS VAZAMENTOS

No dia 9 daquele mês, o site The Intercept Brasil publicou três reportagens – ao todo já são 95, feitas também em parceria com outros veículos de comunicação do país – com base nas conversas vazadas entre autoridades brasileiras envolvidas na Operação Lava Jato. O site dizia nas matérias que teve acesso a conversas feitas pelo aplicativo Telegram. Essas três reportagens iniciais tiveram os seguintes títulos:

  • “Procuradores da Lava Jato tramaram em segredo para impedir entrevista de Lula antes das eleições por medo de que ajudasse a ‘eleger o Haddad’”
  • “Deltan Dellagnol duvidada das provas contra Lula e de propina da Petrobras horas antes da denúncia do tríplex”
  • “Chats privados revelam colaboração proibida de Sergio Moro com Deltan Dallagnon na Lava Jato”

Além dessas matérias, na mesma data, o portal publicou os diálogos entre o então juiz federal e o Dallagnol, a fim de revelar o embasamento das reportagens. Em parceria com outros dois veículos, também foi divulgada uma conversa de Moro com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, da qual ficou famoso trecho em que o ex-juiz disse “In Fux we trust” (“Em Fux, confiamos”, na tradução em português).

JULHO DE 2019 – 1ª FASE DA OPERAÇÃO SPOOFING

Com o objetivo de identificar os responsáveis pelas invasões às contas do Telegram, a Polícia Federal deflagrou a Operação Spoofing em 23 de julho do ano passado, quando cumpriu quatro mandados de prisão temporária e sete de busca e apreensão. Na época, foram detidos:

  • Walter Delgatti Neto (vulgo “Vermelho”): apontado como líder, ele admitiu ter hackeado celulares de diversas autoridades do país e repassado o conteúdo a Gleen.
  • Gustavo Elias Santos (amigo de Delgatti): nega ter participado dos ataques. Na casa dele foram encontrados R$ 100 mil, mas que de acordo com o advogado seria proveniente de investimentos em bitcoins, uma moeda virtual.
  • Suelen Priscila de Oliveira (mulher de Gustavo): apontada como "laranja".
  • Danilo Cristiano Marques: foi apontado como “testa de ferro” de Delgatti.

Com exceção de Suelen, todos ainda permanecem presos. Esta primeira fase aconteceu nas cidades de São Paulo, Araraquara e Ribeiro Preto.

AGOSTO DE 2019 – GLENN NÃO PODE SER INVESTIGADO

No início de agosto do ano passado, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu uma medida liminar que impedia a Polícia Federal de investigar ou tentar responsabilizar o jornalista Glenn Greenwald pela divulgação das mensagens obtidas pelos hackers e divulgadas pelo site The Intercept Brasil.

Relembrando o artigo 5º, inciso XIV, da Constituição Federal, o ministro afirmou que a atuação de Glenn “é digna de proteção, independentemente do conteúdo ou do impacto sobre interesses governamentais” e que ele não poderia ser culpado pela “recepção, obtenção ou transmissão de informações, ante a proteção do sigilo constitucional da fonte jornalística”.

SETEMBRO DE 2019 – 2ª FASE DA OPERAÇÃO SPOOFING

No dia 19 de setembro, a Polícia Federal prendeu outras duas pessoas suspeitas de participação no hackeamento: o estudante Luiz Henrique Molição e o programador Thiago Eliezer Martins, também conhecido como “Professor”, em alusão a um personagem da série espanhola “La Casa de Papel”.

Em novembro, o estudante fechou um acordo de delação premiada e foi solto. Já o programador, assim como a maioria dos detidos, também continua preso. O nome Spoofing, utilizado na operação, faz referência a um tipo de ataque no qual um hacker se passa por outro usuário com o objetivo de roubar dados ou disseminar algum malware.

DEZEMBRO DE 2019 – A CONCLUSÃO DO INQUÉRITO

Depois de seis meses de investigações, a Polícia Federal concluiu que não há evidências de que Glenn Greenwald tenha participado dos crimes investigados no hackeamento. “Pelas evidências obtidas até o momento, não é possível identificar a participação moral e material do jornalista nos crimes”, afirmou o delegado Luiz Flávio Zampronha, no relatório do caso.

De acordo com informações do inquérito relevadas pelo jornal "O Estado de S. Paulo", o grupo teria conhecimento em fraudes bancárias, clonagem de cartões de crédito e furtos virtuais. A interceptação das mensagens de autoridades teria começado entre março e maio do ano passado.

Ao todo, seis pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal: Walter Delagatti Neto, Gustavo Santos, Danilo Marques, Suelen Priscila de Oliveira, Thiago Eliezer Martins e Luiz Henrique Molição.

JANEIRO DE 2020 – DENÚNCIA DO MPF

Em denúncia feita nesta terça-feira (21), o Ministério Público Federal (MPF) denunciou o grupo já indiciado pela Polícia Federal e acrescentou o nome de Glenn Greenwald à lista. Todos foram denunciados pelos crimes de associação criminosa e interceptações telefônicas ilegais. Com exceção do jornalista, os demais também podem responder por lavagem de dinheiro.

O oferecimento da denúncia foi feito pelo procurador Wellington Divino Marques de Oliveira, do 7º ofício de combate à corrupção da Procuradoria da República do Distrito Federal. Com base no mesmo áudio já investigado pela Polícia Federal, o MPF entendeu que há indícios de participação direta de Glenn nos crimes.

De acordo com o procurador, é “clara a conduta de participação auxiliar (de Glenn) no delito, buscando subverter a ideia de proteção à fonte jornalística em uma imunidade para orientação de criminosos”.

A REPERCUSSÃO DA DENÚNCIA DO MPF

Logo depois da denúncia apresentada pelo MPF, diversas autoridades brasileiras e internacionais e entidades ligadas ao jornalismo e ao direito se manifestaram contrários à ação, interpretada como uma ameaça à liberdade de expressão e à atividade jornalística.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foi uma dessas pessoas:

Quem também condenou a atitude foi a Ordem dos Advogado do Brasil (OAB), que emitiu uma nota a respeito, afirmando que "acompanha com grande preocupação a denúncia do jornalista Glenn Greenwald" já que ela "descreve fato que não pode ser considerado crime (...) e significa claro risco para a liberdade de imprensa".

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) também emitiu nota a respeito do caso, na qual diz, entre outras coisas, que a "denúncia contra Glenn Greenwald é baseada em uma interpretação distorcida das conversas do jornalista com sua então fonte" e que tal atitude viola "o direito dos brasileiros de viver em um país com imprensa livre e capaz de expor desvios de agentes públicos".

Personagem envolvido na história, o ministro Gilmar Mendes também se manifestou a respeito e declarou que a denúncia oferecida pelo MPF afronta a decisão dele tomada anteriormente sobre o caso, já que visa a responsabilização de Glenn Greenwald.

Por fim, o próprio Glenn Greenwald e o site The Intercept Brasil também usaram as redes sociais para emitir notas a respeito.

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