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Jovem da Serra que integra grupo de ódio é indiciado por atacar coronel

Ele chegou a enviar mensagens com ameaças à oficial dos Bombeiros de Alagoas, que fazia uma campanha contra assédio praticado contra mulheres em instituições de segurança pública

Tempo de leitura: 4min
Publicado em 21/12/2021 às 19h00

Um jovem de 19 anos, morador da Serra, na Grande Vitória, e integrante de um grupo que cultua o ódio a mulheres, negros e minorias, foi indiciado pela Polícia Civil de Alagoas por participação em ataque pelas redes sociais à coronel Camila Paiva, do Corpo de Bombeiros alagoano. A polícia disse que o rapaz chegou a enviar mensagens preconceituosas e com conteúdo de ameaça à oficial, que fazia uma campanha contra o assédio praticado contra mulheres em instituições de segurança pública.

Corpo de Bombeiros
Coronel em Alagoas, Camila Paiva relata ataques de ódio nas redes sociais. Crédito: Arquivo pessoal

Segundo o delegado alagoano José Carlos Santos, que está à frente do inquérito, a polícia chegou ao suspeito na Serra com o apoio da Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos (DRCC), da Polícia Civil do Espírito Santo. “O delegado Brenno Andrade (titular da DRCC) nos ajudou a encontrar o suspeito em território capixaba. Além dele, também identificamos um menor de 16 anos, que reside no interior de Minas Gerais. Pedimos autorização judicial para identificá-los, já que usavam perfis falsos”, disse.

José Carlos Santos

Delegado em Alagoas

"Camila estava sendo ameaçada por defender uma campanha relacionada a assédio sexual no trabalho. Pesquisamos três perfis no Instagram que a ofenderam, infelizmente um deles não tivemos êxito em encontrar. Esses jovens participam de um grupo nacional que se vangloria dizendo que atua junto aos assassinos do massacre de Suzano, ocorrido em 2019. São pessoas que difamam negros, o grupo LGBTQIA+, feministas, entre outros"

O delegado disse que os integrantes do grupo agem divulgando os dados em chats de fóruns secretos e, depois, munidos das informações, passam a atacar as vítimas. “O suspeito da Serra é muito bem preparado em termos de informática e, segundo (o delegado) Brenno Andrade, mesmo o fato tendo ocorrido há mais de um ano, o jovem lembra perfeitamente de tudo que aconteceu, além de ter confessado outros pequenos delitos”, explicou.

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Mesmo diante da conclusão do inquérito policial na última sexta-feira (17), com encaminhamento do caso à Justiça, o jovem capixaba segue em liberdade. No entanto, ele responderá por pelo menos quatro crimes: injúria, ameaça, associação criminosa e divulgação do nazismo, pela Lei do preconceito (nº 7.716). O rapaz não tem passagens anteriores na polícia, nem mandado de prisão em aberto.

O grupo em que ele atua é composto por outros jovens, sendo muitos menores de idade, que geralmente não se conhecem pessoalmente. “Eles são de todo o Brasil. Esse da Serra e o de Minas Gerais, por exemplo, nunca se viram nem se falam diretamente. Eles usam nomes falsos para se protegerem, escolhem uma determinada vítima, fazem um processo chamado de ‘doxxing’, que serve para divulgar nos fóruns os dados das pessoas”, afirmou.

OS ATAQUES

Na época dos ataques, ocorridos em julho de 2020, a vítima recebeu mensagens por meio de perfis falsos. Em conversa com a reportagem, a coronel Camila Paiva contou que havia iniciado a campanha contra o assédio sexual após ter recebido diversos relatos de outras mulheres. “Trouxe o debate para as redes sociais. De repente, recebi ameaças. Eram mensagens de texto que forneciam até meus dados como número de telefone, CPF e informações de pessoas da minha família”, iniciou.

Camila Paiva

Coronel do Corpo de Bombeiros de Alagoas

"O conteúdo pelo Instagram era de misoginia – aversão às mulheres – e chegavam por perfis fake. Em um deles, o suspeito dizia: ‘Morte às feministas militantes e LGBTs’. Em outro: ‘Você pode até ter seu apoio, mas as profundezas sussurram seu nome’. No começo, não dei muita importância, mas as coisas foram crescendo. Uma escritora que foi vítima de ataques por anos conseguiu o meu contato e alertou de que meus dados circulavam em fóruns da 'deep web'"

Camila Paiva explicou que a escritora Lola Aronovich, militante da causa feminista e em defesa de minorias, após anos de luta contra os ataques sofridos, conseguiu autorização da Polícia Federal para ter acesso aos fóruns secretos de criminosos na internet. Com essa ferramenta, ela encontrou o nome da coronel dos Bombeiros de Alagoas, entrou em contato com conhecidos na corporação e chegou à alagoana.

“Ela me enviou prints e foi quando comecei de fato a me preocupar. Ela me contou a história dela, com ameaças de morte por pessoas que até cometeram assassinatos e fazem alusões ao massacre à escola de Suzano, no Estado de São Paulo, em 2019, quando morreram cinco alunos e duas funcionárias”, acrescentou a coronel.

Algum tempo depois, Camila Paiva disse que um dos perfis que enviavam mensagens de ódio passou a dizer que queria alertá-la. O suspeito informou que o grupo — ligado ao “crazyshan”, da deep web — estava falando sobre ela. “Usei os links que ele me enviou para ir à polícia”.

A coronel não se arrepende de se manifestar sobre as causas em que acredita. “Muitas pessoas pensam que internet é terra de ninguém. Alguns adolescentes podem até ofender como algum tipo de brincadeira, mas não sabem o impacto que pode causar em uma pessoa. Eu também sou alguém comum, sou mãe e sinto medo. Fiquei assustada e não sei do que eles são capazes. Mas a internet tem lei, sim. Não se pode ofender e ameaçar achando que não vai dar em nada. Hoje nós mulheres sofremos vários tipos de violência e essa é uma delas, causada pela misoginia. Denunciar é uma forma de dar uma resposta, não vamos nos calar e vamos buscar a lei”, finalizou.

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