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'Foi espancado por dez homens', diz mãe de jovem agredido em bloco no ES

"Foi espancado por dez homens", diz mãe de jovem agredido em bloco no ES

A funcionária pública Marcelle Soares, de 45 anos, desabafou como foi ver o filho sair de casa para um bloco pré-carnaval na Praia do Canto, em Vitória, e voltar ensanguentado e machucado: "Ele foi roubado e espancado até desmaiar", lembrou.

Publicado em 3 de fevereiro de 2020 às 17:19

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Briga em bloco clandestino no triângulo das bermudas, em Vitória, neste sábado (01). (Reprodução)

Pessoas roubadas e espancadas até perder a consciência. Comerciantes saqueados e obrigados e fechar estabelecimentos. Caos no trânsito. Esses foram alguns dos transtornos causados por um bloco pré-carnaval clandestino, que aconteceu no Triângulo das Bermudas, Praia do Canto, em Vitória, no último sábado (01).

Uma das vítimas foi o estudante de Direito Matheus Soares, de 21 anos. Com pontos na boca após ser espancado durante um roubo, ele ainda não consegue dar entrevista. Mas a mãe da vítima, a funcionária pública Marcelle Soares, de 45 anos, contou como foi ver o filho sair de casa para uma festividade que imaginou ser "de família" e voltar ensanguentado e machucado: "Ele foi roubado e espancado até desmaiar", lembrou.

Como o seu filho soube do bloco pré-carnaval clandestino?

Por amigos, que receberam o convite pela internet. Até então, não sabíamos que era clandestino. Os amigos disseram que era um bloquinho pré-carnaval que acontecia todo ano. Eu também fiquei com vontade de ir, mas acabei desistindo depois. Pensei que fosse algo regularizado e super tranquilo, um bloco de família, como tantos outros que acontecem. Só depois, pelos vídeos e após conversar com os comerciantes, eu soube que foi uma bagunça generalizada. Meu filho nunca tinha ido em um bloquinho. Foi a primeira vez e acabou assim.

Do que seu filho se lembra sobre o ataque que sofreu?

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Ele saiu de casa, na Praia da Costa, em Vila Velha, às 17 horas com dois amigos. Por volta das 17h30 ele chegou no Triângulo e logo foi rendido. Às 18 horas ele deu entrada no Cias. Meu filho contou que assim que desceu do ônibus e entrou na rua do Supermercado São José, foi abordado por dois homens que exigiram o celular e a carteira. Ele achou que eram apenas os dois e respondeu que não tinha nada. Logo em seguida, um terceiro homem o pegou por trás, com um golpe estilo mata-leão. A partir daí, começou o espancamento por cerca de dez homens. Meu filho desmaiou e tudo que ele sabe é o que foi dito por populares: ele foi agredido por esses homens, levou várias pancadas no rosto e teve os pertences roubados

Marcelle Soares, de 45 anos
Funcionária Pública
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O que aconteceu depois?

Depois do meu filho, os dois amigos dele também foram roubados e espancados. Populares socorreram os três, desacordados. Só no hospital eles retomaram a consciência e ouviram das pessoas que os socorreram o que havia acontecido. Meu filho levou nove pontos no rosto, da boca até o queixo. Outro amigo dele levou três pontos no supercílio. O terceiro está com a cabeça toda machucada, de tanta pancada que levou.

Como você ficou sabendo do caso?

Quando acordaram, meu filho e colegas entraram em contato com amigos de infância e de faculdade. Preferiram não me ligar para não me preocupar. Até então, eu estava achando que eles estavam no bloco. Os amigos ficaram no Cias com eles até umas 22h30. Eles chegaram na minha casa umas 23 horas. Meu filho saiu de casa para um bloco e voltou com a camisa ensanguentada e o rosto machucado. Na hora a minha ficha não caiu. Aí ele contou que tinha sido agredido durante um roubo. No hospital, os populares que ajudaram meu filho viram mais duas meninas que foram roubadas e agredidas.

O que você sentiu nesse momento?

Foi uma sensação de impotência e total insatisfação com o Governo e a Prefeitura de Vitória, que sabiam que o evento iria acontecer. Aí o secretário de segurança diz em entrevista que não houve feridos, que não foi nada grave. Fiquei revoltada com essa declaração. Além de incompetente, ele é mentiroso. O Governo e a Prefeitura sabiam do evento, foram avisados pela Associação dos Moradores e não fizeram nada.  

Ruas da Praia do Canto, em Vitória, ficaram cheias de lixo após bloco clandestino. (Internauta)

Você foi ao local que seu filho foi agredido?

Antes de registrar uma ocorrência, nesta segunda-feira (03), eu fui no local e conversei com comerciantes. Todos estão muito assustados. Porque os criminosos arrombaram estabelecimentos e furtaram várias bebidas. Eles me contaram que ligaram para a PM diversas vezes informando que o evento estava iniciando, mas não tiveram retorno.

Como o seu filho e os amigos estão agora?

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Agora meu filho está de repouso, com a cara toda inchada, a cabeça machucada, está cheio de pontos no rosto, frustrado, e hoje (03) ele nem vai poder ir para a faculdade no primeiro dia. A cabeça dele está muito machucada e só de pensar sinto vontade de chorar. Foi uma grande covardia o que fizeram com ele e os amigos. Dez homens contra três. Nunca imaginei que meu filho passaria por isso. Achávamos que era um bloco tranquilo, de família. Poderia ter acontecido algo muito pior.

Marcelle Soares, de 45 anos
Funcionária Pública
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POLÍCIA MILITAR AFIRMA QUE DISPONIBILIZOU OS RECURSOS NECESSÁRIOS

Procurada, a Comunicação PMES informou que atuou dentro de sua esfera de atribuições e que antes do evento clandestino participou de reuniões com comerciantes, Guarda Municipal e Secretaria Municipal de Meio Ambiente, disponibilizando os recursos humanos necessários, como a Força Tática.

"Durante as ações repressivas contra as práticas criminais, a PMES apreendeu armas, prendeu traficantes e apoiou agentes da prefeitura na apreensão de caixas de som e materiais de ambulantes não cadastrados. Salientamos que não cabe à PMES a investigação criminal. Esta é uma demanda da Polícia Judiciária. Em relação às infrações cometidas, relacionadas às condutas que são fiscalizadas e controladas pelas secretarias municipais, a PM atua e atuou sempre que acionada, em apoio a esses órgãos", informou, por nota.

A Polícia Militar completou que "age de acordo com a necessidade, legalidade e conveniência de suas ações, e que atuar repressivamente em um ambiente aglomerado, pode levar a consequências indesejadas".

"As ações preventivas desse tipo de ocorrência estão intimamente ligadas ao planejamento que é desenvolvido pelas prefeituras, e a Polícia Militar estará sempre disponível para o apoio necessário", afirmou.

SECRETÁRIO DIZ QUE PODER PÚBLICO PREFERIU NÃO INTERVIR

A reportagem também indagou Fronzio Calheira, secretário de Segurança Urbana de Vitória, para comentar sobre as afirmações de que não houve feridos no bloco. Ele informou que com a frase quis dizer que não houve feridos por parte dos órgãos públicos.

"Eu recebi e-mail dessa mãe, respondi que entendo que ela esteja abalada e não tiro a razão dela. Disse que sinto muito pelo ocorrido com o filho dela, que também sou pai e entendo a revolta.  Mas esclareci a minha fala sobre isso e informei que eu quis dizer que a atuação dos órgãos públicos representantes na Praia do Canto, no último sábado, não deu causa a tumulto que resultasse em feridos ou mortos. Uma atuação de repressão inadequada poderia trazer consequenciais ainda mais graves, como ocorreu em dezembro de 2018 em Paraisópolis, São Paulo", afirmou.

O secretário completou que a secretaria continuará trabalhando para que situações como a do último sábado não voltem a acontecer. "A atuação dos órgãos de segurança não deu causa ao tumulto. O que aconteceu foi um problema de criminalidade dentro do evento. Pessoas de má índole que já foram ao local com intenção de cometer crimes. Mas o poder público presente preferiu não intervir porque o resultado poderia ser ainda pior", completou. 

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