Cerca de 600 mil passageiros utilizam diariamente o sistema público de transporte na Grande Vitória. E para muitos o deslocamento acaba virando um pesadelo: bandidos se infiltram entre os usuários do Sistema Transcol e fazem do coletivo cenário de crime. Em média, são registrados 13 roubos todos os dias, quase a metade na Serra.
Dados do Painel de Crimes Contra o Patrimônio, atualizado pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), mostram que foram registrados 2.736 roubos dentros de ônibus na Grande Vitória, no períododo de janeiro a julho deste ano. Destes, 1.261 ocorreram na Serra, com uma média de seis assaltos por dia dentro dos coletivos.
A Polícia Civil percebeu uma maior incidência de crimes de roubo e furtos em ônibus na Serra, sobretudo nas áreas de Grande Carapina e Jardim Limoeiro, e investigações foram iniciadas em maio para saber o que estava acontecendo. De lá para cá, dois suspeitos foram presos e uma quadrilha identificada — composta por oito pessoas — que age com extrema violência e usa armas de fogo nos assaltos.
A primeira prisão divulgada após a realização da "Operação Ponto Final" — força-tarefa da Polícia Civil para coibir crimes no transporte público — ocorreu em julho. O nome do criminoso não foi divulgado, mas, segundo o delegado, trata-se de um jovem de 19 anos, apontado como chefe da quadrilha que atuava em coletivos na região de Jardim Limoeiro. "A gente pretende tirar esse pessoal de circulação. O principal já tiramos, tem outros que não encontramos porque não ficam em locais certos. Sempre mudam de endereço, mas estamos no rastro”, disparou.
A outra prisão ocorreu em 8 de agosto, um dia após o ladrão atacar passageiros em Jardim Limoeiro. A polícia conseguiu rastrear um dos celulares roubados e prendeu o homem de 51 anos, que também não teve o nome divulgado. Com ele foi apreendida uma "maleta do crime", recheada de ferramentas usadas para arrombamentos, além de arma falsa. O delegado Josafá explicou que este segundo criminoso pertence a uma outra quadrilha, da região de São Geraldo, composta por moradores em situação de rua que roubam para comprar drogas.
As investigações apontam que a maior parte dos criminosos embarca no Terminal de Carapina e lá escolhem a linha em que vão cometer os assaltos ou arrastões. O delegado conta que, a partir dessas constatações, faz trabalho conjunto com a Polícia Militar e Guarda Municipal em operações nos terminais, em um esforço de prevenção e repressão. "Vamos continuar combatendo esse tipo de crime na Serra porque aumentou muito o índice. Já fizemos três operações em terminais para tentar inibir. Nossas ações estão dando certo", finalizou.
O que é mais visado por assaltantes dentro de coletivos é o aparelho celular das vítimas, uma vez que há dificuldade de roubar dinheiro, já que atualmente o embarque de passageiros é feito exclusivamente pelo cartão de passagem, sem uso de cédulas.
Outro ponto avaliado por bandidos é a lotação do coletivo. "Eles preferem entrar em ônibus mais vazios, com no máximo 20 pessoas, porque cometer arrastão em ônibus lotado dificulta a ação deles", explicou o delegado.
E os dados do Painel de Crimes Contra o Patrimônio acompanham esse comportamento narrado pela autoridade de segurança: no ano passado, a maior parte dos crimes ocorria às 19 horas. Já em 2023, o horário de maior incidência de roubos passou para 21 horas.
Após roubarem os celulares dos passageiros, os criminosos costumam vendê-lo para efetivamente terem dinheiro em mãos. E o ciclo só existe porque há quem compra. No entanto, o delegado Josafá da Silva alerta para quem compra objetos frutos de crimes. “Infelizmente há pessoas que continuam comprando celular sem saber a procedência, focadas no baixo valor. Mas elas podem responder pelo crime de receptação. O conselho que eu dou é não comprar celular sem saber a procedência”, finalizou.