ASSINE

Aposentado mostra pilha gigante de remédios após contaminação por agrotóxico no ES

Sebastião Bernardo da Silva diz já ter tomado mais de 100 mil comprimidos para tratar doenças desde 1997. Ele deixou a lavoura, em Boa Esperança, e passou a morar em Vitória

Publicado em 07/03/2020 às 20h17
Atualizado em 07/03/2020 às 22h01
Aposentado denuncia ter ficado doente após contaminação por agrotóxico. Crédito: Acervo pessoal
Aposentado denuncia ter ficado doente após contaminação por agrotóxico. Crédito: Acervo pessoal

Há 22 anos longe do trabalho do campo após contaminação por agrotóxico, o agricultor aposentado por invalidez, Sebastião Bernardo da Silva, 68 anos, disse já ter tomado mais de 100 mil comprimidos para tratar uma série de doenças que se manifestaram no organismo dele ao longo de mais de duas décadas de vida. Guardadas em uma sacola plástica, as embalagens de medicamentos usados formam uma pilha que impressiona pela quantidade. 

Morador do bairro Caratoíra, em Vitória, Sebastião era produtor de café e feijão em Boa Esperança, região no Norte do Estado. Ele contou que nasceu em Minas Gerais, mas chegou ao Espírito Santo com os pais quando tinha 3 anos. Aos 10, começou a trabalhar na lavoura de café com a família.

Sebastião Bernardo da Silva

Agricultor aposentado

"Trabalhava de meeiro com meu irmão. Casei aos 21 anos e consegui comprar um sítio de três alqueires de terra para plantar café. Comecei a trabalhar com Roundup (agrotóxico) em 1992, quando foi em junho de 1997 eu caí doente, não aguentei mais. Adoeci, fiquei 12 dias internado em um hospital em Colatina"

Durante a internação, Sebastião recebeu a notícia que transformou a vida dele. Os médicos disseram que ele teria de deixar a vida no campo e se mudar para a zona urbana. Para ele, a determinação caiu como uma bomba, já que toda a família era sustentada com o trabalho e a renda obtida com a venda dos produtos da terra dele.

“Fui diagnosticado com esquizofrenia e epilepsia e os médicos disseram que eu tinha de mudar para Vitória para continuar o tratamento. No ano 2000, aposentei por invalidez permanente. Em 2008, um novo exame apontou que meu sangue estava contaminado com o agrotóxico. A cada ano eu ia descobrindo uma enfermidade diferente”, lamenta.

Além da esquizofrenia e epilepsia, Sebastião diz que tem laudos que apontam que a exposição aos produtos químicos da lavoura provocaram depressão, pressão alta, diabetes, glaucoma, alteração do sistema nervoso central e artrose. A esposa dele se aposentou pelo trabalho no campo em 2017.

Sebastião Bernardo da Silva mora em Vitória com a esposa. Crédito: Acervo pessoal
Sebastião Bernardo da Silva mora em Vitória com a esposa. Crédito: Acervo pessoal

Sebastião Bernardo da Silva

Agricultor aposentado

"Nesse tempo todo, já tomei mais de 100 mil comprimidos. Há 20 anos, faço tratamento com psiquiatra. Tenho artrose no joelho, os dedos dos meus pés estão duros, não fazem movimentos. Todo dia, tomo comprimidos para dor. Tenho insônia e preciso tomar remédio para conseguir dormir diariamente também"

USO NA LAVOURA

Sobre a contaminação, no dia a dia na lavoura, Sebastião contou que usava o agrotóxico para eliminar plantas indesejáveis que cresciam em meio a plantação de café. Segundo ele, o mato crescia em um período curto. Ao usar o produto, economizava tempo e poupava um maior esforço físico dele e dos demais familiares que trabalhavam na roça.

“Quero deixar um recado para que as pessoas deixem de usar esse veneno. Ele destrói o ser humano. Quando não morre na hora, vai morrendo aos poucos assim como eu. A cada ano aparece uma enfermidade diferente no meu corpo. Hoje, se me derem qualquer valor em dinheiro para trabalhar com isso, eu rejeito”, diz.

ROTINA APÓS A DOENÇA

O agricultor aposentado é casado e pai de quatro filhos. Atualmente, mora com a esposa em Vitória. Já os filhos moram na Capital, em Nova Venécia e em Rondônia. Com renda mensal de um salário mínimo (R$ 1.039), Sebastião gasta R$ 500,00, em média, para comprar medicamentos. Ele conta com a ajuda dos filhos.

Sebastião Bernardo da Silva

Agricultor aposentado

"Agradeço a Deus por estar vivo. Tomei esse tanto de remédio que, daqui para frente, o que vier pra mim é lucro. A minha vida acabou, né. Esse agrotóxico me prejudicou em todos os sentidos. Hoje estou um homem doente. Esse veneno de lavoura foi a destruição da minha vida e da minha família. Os filhos tiveram que trabalhar fora da lavoura, a gente vivia só da terra"

PILHA DE REMÉDIOS

Ele conta que guardou as caixas de remédio desde que começou a pensar em processar a empresa que distribui o agrotóxico no Brasil. No caso dele, os produtos químicos eram comprados em uma loja em Pinheiros, no Norte do Estado.

“Tenho 50 laudos médicos, tenho retrato da roça de quando eu usava o produto. O juiz aqui deu ganho de causa a meu favor, mas a empresa recorreu ao Tribunal de Justiça e eu perdi por 2 a 1. O caso foi para Brasília e eu perdi também. Aí o processo está arquivado”, explica.

O QUE DIZ A EMPRESA

A Gazeta enviou um e-mail para a Roundup às 18h17 deste sábado (07) questionando sobre o caso do Sebastião. A reportagem questionou sobre a forma como a empresa lida com casos como o do aposentado e se há um canal aberto para reclamações ou questionamentos dos clientes. Quando houver retorno, o texto será atualizado.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.