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Recompensas?

Trabalhador recorre a 'bico digital' e se frustra ao ganhar só centavos

Aplicativos prometem dinheiro para quem inscrever outras pessoas, assistir a vídeos ou responder pesquisas. Mesmo dedicando até oito horas por dia, 30 dias do mês, muita gente está percebendo que negócio não vale a pena
Caroline Freitas

Publicado em 

16 mai 2021 às 13:01

Publicado em 16 de Maio de 2021 às 13:01

Estudante utiliza aplicativos de pesquisa e TikTok para juntar dinheiro
Estudante utiliza aplicativos para buscar renda extra Crédito: Pexels
Com tempo livre e acesso à internet, muitas pessoas têm buscado uma nova forma de empreender. Sem emprego e com dificuldades de achar um trabalho mundo real, alguns até  fazem “bicos digitais” para garantir uma renda em meio à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus.  Outros até tem uma profissão, mas usam o recurso para complementar o orçamento.
Entre as alternativas mais populares estão aplicativos que pagam usuários para convidar amigos para suas plataformas, assistir a vídeos ou responder pesquisas, em troca de pontos ou moedas virtuais que podem se converter em dinheiro. O negócio é que mesmo dedicando até oito horas por dia durante um mês à atividade muita gente tem se frustrado com o resultado: algumas recebem nada menos que US$ 2 por mês ou mesmo alguns centavos em reais.
A salgadeira Marlene Burgareli, 57 anos, por exemplo, conta que utilizava o Kwai, um concorrente do TikTok, que remunera usuários que passam longos períodos vendo vídeos de conteúdo ou promocionais, ou convidando amigos para a plataforma. Durante dois dias, ela investiu quatro horas de seu tempo para realizar as atividades, mas, neste período, conseguiu acumular somente R$ 0,07.
“Usei o aplicativo achando que ia conseguir tirar um dinheirinho, mas acabei desistindo porque era algo que acabava me tomando muito tempo, e eu ganhava somente centavos. No fim, vi que não valia a pena”, conta.
Salgadeira Marlene Burgareli desistiu do Kwai após ganhar centavos
Salgadeira Marlene Burgareli u Crédito: Acervo pessoal
Uma estudante de 25 anos, que preferiu não ser identificada, relata que utiliza o Google Opinion Rewards, que paga quem responder pesquisas com questões que vão desde hábitos na internet e opiniões sobre determinados vídeos, à intenção de adquirir certo produto ou prazo previsto para realização da próxima viagem.
“São pesquisas rápidas e simples de responder; não levam mais que alguns segundos. O problema é que aparecem pouquíssimas, então não dá para conseguir tanto dinheiro assim. Além disso, o saldo que eu acumulo só pode ser utilizado dentro das plataformas da Google, e isso limita um pouco minhas opções”, explicou.
O crédito acumulado pode ser usado somente na compra de itens disponíveis na Google Play Store, como aplicativos, jogos, filmes, músicas, revistas ou programas de TV. Ainda assim, o usuário da plataforma precisa se atentar ao prazo para utilização do saldo, pois os créditos expiram após alguns meses, se não utilizados.
Já o assistente administrativo Hugo Amaral, 30, conta que deixou de lado os programas de navegação instalados no computador para utilizar o Brave, que é uma alternativa menos popular, mas que recompensa os usuários que assistirem alguns anúncios enquanto navegam na internet.
“Eu consumo muitos vídeos e música na internet, e esse navegador bloqueia anúncios em sites de streaming, como YouTube, Spotify, entre outros, e me paga centavos de dólar para que eu clique em anúncios patrocinados pelo próprio site. Já ganhei US$ 2 em cerca de um mês e meio, e esse valor é pago em criptomoedas.”

RECOMPENSAS SÃO BAIXAS EM COMPARAÇÃO COM TEMPO INVESTIDO, E NEM TODA PLATAFORMA É SEGURA

Quanto mais o usuário se decida a essas missões, mais ele acumula. Entretanto, especialistas pontuam que as recompensas pagas pelos aplicativos geralmente são muito baixas, isso quando há retorno.  Ainda que dedique uma hora de seu tempo a assistir vídeos promocionais na plataforma, dificilmente o usuário conseguirá acumular R$ 1. Se conseguir convencer alguma pessoa a se cadastrar no aplicativo, utilizando o seu código de acesso, pode faturar entre R$ 10 e R$ 20. Mas isso vale comente para novos usuários. Em redes sociais já difundidas no país, é uma alternativa pouco viável.
Já os aplicativos de pesquisas de opinião chegam a pagar entre R$ 0,40 e R$ 15 por respostas on-line, dependendo das condições estabelecidas pelas empresas. Ainda assim, são pesquisas esporádicas e a maioria não paga mais que centavos.
“É algo para complementar a renda, ganhar um troquinho aqui, outro ali, e não uma forma única de renda. Para isso, você teria que dedicar seus dias a essas plataformas, e ainda assim sem garantia de retorno significativo, pois te pagam pelo resultado, e às vezes ele não vem”, observa o coordenador de marketing digital da Faculdade Multivix, Dhanner Viana Lambert.
Ele destaca que, em geral, o que dá lucro nessas plataformas é atrair novos usuários, mas uma pessoa comum, que compartilha seu convite com 300 ou 500 seguidores em uma rede social, não consegue o mesmo alcance que um “influenciador”, que tem um grande público.
“A questão é que como a base de pessoas desempregadas cresceu muito, as pessoas estão desesperadas, e se alguém começa a vender um milagre de que ganhou milhares de reais vendendo produtos na internet, muitos acreditam que é simples, mas os resultados não são os mesmos para todos.”
O especialista em Marketing e professor da Fucape Emerson Wagner Mainardes pontua que outro risco, além do emprego de tempo em atividades que, em alguns casos, não pagam nem o gasto com energia elétrica para recarregar o celular ou o computador após horas de uso, outro risco está relacionado ao armazenamento de dados.
O Google Opinion Rewards e o Kwai afirmam cumprir as políticas de privacidade informadas nas plataformas. Entretanto, o perigo, segundo os especialistas, não está em plataformas já consolidadas, mas na infinidade de opções existentes, e sobre as quais não há garantia de autenticidade.
“Muitas empresas lançam esses programas como forma de aumentar sua base de usuários. Em algum nível, é semelhante ao que fariam divulgando a plataforma por conta própria, mas tem um custo menor, e por isso compensa para elas. Para o consumidor, que não ia ganhar nada se utilizasse o aplicativo ou o site, acaba sendo um bônus. Mas hoje há infinitas plataformas que prometem retorno financeiro ao usuário, nem sempre é algo legítimo”, alerta.
A partir do momento em que o usuário se cadastra, as informações ▬ que às vezes vão muito além de informações de contato, como e-mail e telefone, podendo incluir dados financeiros, como número de cartão ou conta bancária ▬, acabam ficando registrados, e podem ser utilizados mesmo em fraudes.
“Não necessariamente, o usuário será vítima de um golpe. Às vezes pode apenas começar a receber um monte de ofertas de empresas para as quais nunca passou o contato. A maioria das pessoas não lê aqueles termos de uso e de privacidade desses aplicativos, apenas concordam com tudo, e isso abre margem para problemas.”
Ele reforça que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) visa a dar mais controle ao consumidor das informações pessoais armazenadas e utilizadas pelas empresas, mas nem todas as plataformas são regulamentadas. Por isso, é importante verificar a autenticidade do aplicativo ou programa, antes de instalar ou realizar qualquer tipo de cadastro. Além disso, ele orienta a fugir de qualquer opção que exija algum investimento financeiro para começar.

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