> >
Moradora de Cariacica é discriminada em entrevista de emprego por ter filho

Moradora de Cariacica é discriminada em entrevista de emprego por ter filho

Em uma troca de mensagem, o recrutador disse à candidata que "é difícil contratar quem tem filhos"; ela compartilhou a indignação em suas redes

Publicado em 13 de setembro de 2023 às 16:11

Ícone - Tempo de Leitura 5min de leitura
Samara registrou troca de mensagem que teve com recrutador
Samara registrou troca de mensagem com recrutador. (Reprodução/LinkedIn)

Uma candidata sofreu discriminação por ser mãe durante uma entrevista de emprego no Espírito Santo. Indignada com a situação, Samara Braga, de 32 anos, viralizou nas redes sociais após compartilhar a conversa que teve com o recrutador. Entre as declarações, o homem disse: “Sempre difícil contratar quem tem filhos”.

"Isso aconteceu comigo e ainda estou sem acreditar que exista profissional assim. Muito se fala de como se comportar em entrevista, mas nada se diz sobre o comportamento do recrutador com a gente", destacou.

Aspas de citação

Fiquei tão indignada que resolvi compartilhar o caso, para servir de alerta a outras mulheres. Esta não foi a primeira vez que sofri preconceito em um processo seletivo por ser mãe e mulher

Samara Braga
32 anos
Aspas de citação

Samara mora em Cariacica e está desempregada há dois meses, por isso, usa o Linkedin como uma ferramenta de recolocação profissional. A postagem na rede profissional tem mais de 27 mil curtidas, quase 4 mil comentários e mais de 400 compartilhamentos.

Moradora de Cariacica é discriminada em entrevista de emprego por ter filho

O caso aconteceu no início do mês de setembro, quando ela estava concorrendo a uma vaga na área de Recursos Humanos. Para ter uma renda extra, a candidata produz bolos e pudins para vender.

Samara Braga foi discriminada em entrevista de emprego por ser mãe
Samara Braga foi discriminada em entrevista de emprego por ser mãe. (Acervo pessoal)

Segundo a candidata, a entrevista com o recrutador estava agendada para às 8 horas, mas ele não apareceu para a conversa on-line. A moça chegou a mandar várias mensagens, mas somente às 11 horas, ou seja, três horas depois, o recrutador a chamou. Em um primeiro contato, o homem havia dito que Samara tinha o perfil ideal para a vaga.

“Organizei toda a rotina da casa e do meu filho de 6 anos para estar disponível no horário marcado. Tentei contato várias vezes, sem sucesso. Quando ele retornou a minha mensagem, já haviam se passado três horas e avisei que não poderia participar da entrevista naquele momento, informando a ele que tinha muitos compromissos”, relata.

Foi quando Samara foi surpreendida com a seguinte resposta: “Posso imaginar a rotina de tantos compromissos de um desempregado”, escreveu o recrutador. Depois de viralizar, Samara recebeu diversas propostas de trabalho em diversos Estados. Agora, ela participa de um processo seletivo de uma empresa de São Paulo que vai começar a operar em Viana em breve.

Aspas de citação

Ainda tentei tocar o coração dele, mas ele respondeu que era difícil contratar mulher com filho. Sei que os recrutadores não gostam desse tipo de postagem, porém achei oportuno divulgar o que passei e que muitas mulheres ainda passam por ser mães. Não tinha a pretensão de viralizar, postei porque fiquei muito indignada, ofendida e discriminada

Samara Braga
32 anos
Aspas de citação

Além de todos os desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho, as que têm filhos frequentemente enfrentam obstáculos adicionais ao procurarem emprego, conforme ressalta a psicóloga e diretora de Cultura, Liderança e Diversidade do Ibef-ES, Gisélia Freitas.

Segundo ela, essa forma de discriminação é prejudicial não apenas para as mães, mas também para a sociedade como um todo, privando-a de talentos valiosos. Muitos recrutadores e empregadores têm viés inconsciente, pois podem presumir que as mães são menos comprometidas com o trabalho, menos produtivas ou menos dispostas a assumir responsabilidades adicionais.

Mudança da cultura organizacional

Gisélia comenta ainda que nosso modelo de trabalho ainda é muito engessado, dificultando mulheres com filhos que precisam de horários de trabalho flexíveis para acomodar suas responsabilidades familiares. Ela lembra que algumas empresas podem não estar dispostas a oferecer essa flexibilidade, o que pode limitar as oportunidades de emprego para essas mulheres.

“A sociedade muitas vezes associa a maternidade com a feminilidade, levando a suposições injustas de que as mães não são tão aptas para posições de liderança ou funções exigentes. Ao contrário do que algumas empresas acreditam, a maternidade traz muitos benefícios para a mulher que está no mercado de trabalho. Empatia, perfil multitarefas, produtividade, relacionamento interpessoal e agilidade são algumas habilidades aumentadas, segundo a mesma pesquisa, observadas em mulheres após a maternidade”, pontua.

Para Gisélia, é necessário ter atenção com as consequências desse tipo de discriminação em processos seletivos, como desigualdade de gênero, perda de talentos e impactos econômicos. Ela argumenta que empresas precisam mudar a cultura organizacional para valorizar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e reconhecer que a maternidade não deve ser uma barreira para o sucesso profissional.

“A discriminação em processos seletivos contra mulheres com filhos é uma questão séria que prejudica não apenas as mães, mas também as empresas e a sociedade como um todo. É imperativo que as empresas reconheçam esse problema e tomem medidas para combater o viés inconsciente e promover a igualdade de oportunidades”, pondera.

O que diz a lei

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, a legislação trabalhista veda toda a prática de discriminação em qualquer fase do contrato de trabalho, inclusive durante o recrutamento e a contratação.

Na opinião do especialista em Direito do Trabalho e Tributário, sócio do escritório Sarlo & Machado, Guilherme Machado, ocorreu abuso do recrutador, não da empresa, uma vez que, neste momento, não há a constituição de uma relação jurídica entre a empresa e a candidata à vaga.

“É evidente que os candidatos têm diferenças individuais, tanto físicas quanto psicológicas, no entanto, a seleção deverá adotar procedimentos adequados para realizar uma tomada de decisão justa, sem causar danos ao outrem. A lei diz que o preenchimento da vaga deve ser por meio de tratamento respeitoso e isonômico, independente do sexo, raça, cor, origem étnica, classe social e religião e que todo ato discriminatório devidamente comprovado e configurado na tipificação legal é passível de punição, tanto no âmbito criminal como através de reparação no âmbito cível”, comenta.

Machado orienta que, dependendo da gravidade do fato, da discriminação, o candidato poderá confeccionar Boletim Unificado e representar criminalmente em desfavor do ofensor e ainda buscar indenização por danos morais.

O advogado trabalhista Victor Passos Costa ressalta que a lei brasileira ainda é muito fraca na proteção de diferenciação entre homens e mulheres.

“Algumas empresas consideram ruim contratar mulher porque elas engravidam e precisam cuidar do filho. Entretanto, hoje, muitos homens também dividem esses cuidados. As profissionais que se sentirem discriminadas podem entrar com uma ação pedindo indenização por dano moral”, orienta.

Denúncias

A maioria das médias e grandes empresas têm canais internos de denúncias contra assédios, mesmo para quem não tem vínculo com a organização.

Já o Ministério do Trabalho tem uma área própria para o enfrentamento dessas práticas, que é a Coordenação Nacional de Combate à Discriminação e Promoção da Igualdade de Oportunidades no Trabalho.

Neste caso, as denúncias podem ser feitas no e-mail: [email protected].

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

Tags:

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais