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Publicado em 24 de junho de 2023 às 19:13
A pandemia trouxe para o mundo corporativo novos formatos de trabalho, que vão desde desenvolver a atividade laboral em home office até em horários mais flexíveis para os colaboradores. A tendência da vez agora é a jornada de trabalho de quatro dias por semana, que já é realidade em alguns países.>
Aos poucos esse conceito tem chegado ao Brasil. No Espírito Santo, inclusive, já tem empresa experimentando por conta própria mesmo sem participar do movimento internacional que está encabeçando a proposta.>
A ideia de uma semana de quatro dias de trabalho é compartilhada no mundo pela organização sem fins lucrativos 4 Day Week Global, que já conduz testes globais sobre carga horária reduzida, e pelo Boston College, em parceria com a Reconnect Happiness at Work, uma companhia de São Paulo especializada em felicidade corporativa.>
O novo modelo tem a intenção de aumentar a produtividade e melhorar a saúde mental e a qualidade de vida dos trabalhadores. A fase de testes em empresas brasileiras vai acontecer entre junho e dezembro de 2023. Companhias de diversos segmentos podem participar.>
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Antes mesmo da modalidade oficialmente chegar ao Brasil, o empresário Ronny Rangel adotou a jornada de quatro dias em sua empresa, a Mundo do Traqueamento, em Vitória. Ele comenta que “a folga” ocorre a cada duas semanas, como uma alternativa para se tornar mais produtivo. A prática começou há, pelo menos, seis meses e é oferecida a todos os colaboradores e até para ele mesmo. >
Ronny Rangel
EmpresárioA empresa de Rangel atua na coleta e análise de dados de marketing digital. Os colaboradores atuam por demandas e metas de trabalho e não precisam se dedicar oito horas diárias no escritório. >
“O formato de trabalho vai depender da cultura de cada empresa. Algumas precisam manter o funcionário presencialmente e outras não. Cada uma vai ver qual o modelo se adapta melhor. >
As empresas interessadas em também tirar um dia de trabalho na semana para os funcionários e que se inscreverem até julho vão começar o projeto-piloto em agosto e efetivar a mudança em setembro. >
Haverá um custo para participar do estudo, mas o valor ainda não foi decidido. A adesão pode ser feita por meio de um formulário disponível na internet. Os funcionários serão divididos em grupos: um trabalha de segunda a quinta, outro de terça a sexta. Assim, a organização continua funcionando todos os dias. >
A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos, seccional Espírito Santo (ABRH-ES), Neidy Christo, lembra que não há legislação específica para regulamentar essa prática no Brasil, deixando a adoção da modalidade a critério das empresas e dos acordos que serão estabelecidos entre os empregados. >
Neidy Christo
Presidente da ABRH-ESAntes de adotar qualquer mudança no modelo de trabalho, a consultora de RH e gestora de Treinamento e Desenvolvimento da Rhopen, Fabíola Costa, orienta as empresas a conversarem com seus funcionários para que a curiosidade não vire uma frustração. >
O ideal, segundo ela, é definir que pode haver, sim, uma viabilidade de um dia a menos de trabalho durante a semana, construindo uma nova rotina. A consultora comenta que não se muda uma cultura da noite para o dia, mas esse tipo de mudança gera impacto. >
“A primeira coisa a se perguntar é se as pessoas têm uma produtividade adequada dentro do horário de trabalho. Quando falo em produtividade não entregar 300 coisas, e, sim produzir o que foi solicitado com excelência no prazo, organizando o tempo para isso. O segundo passo é perceber se as pessoas cumprem a carga horária e têm tempo para descanso. É preciso perceber esse tipo de coisa para conseguir mudar o número de dias trabalhados”, frisa Fabíola. >
Neidy Christo, da ABRH-ES, lembra que a implantação desse modelo pode apresentar alguns desafios, pois é possível que as organizações encontrem dificuldades na gestão da carga de trabalho e na forma de redistribuição das tarefas. >
“Mesmo com um dia a menos, o volume de trabalho não vai diminuir. Aquilo que você deveria fazer em cinco dias terá que fazer em quatro, senão, com certeza, você não vai conseguir tirar o dia de folga. Isso pensando como empregado. A empresa não vai abrir mão das atividades que o funcionário tem que fazer. Caberá à companhia gerenciar, planejar e garantir a produtividade e a eficiência”, observa. >
Neidy ressalta ainda que a mobilidade pode ser usada por empresas da área de tecnologia e inovação, como startups, agências de publicidade e marketing, consultorias e empresas que são voltadas para o setor de serviços podem se beneficiar. No entanto, segmentos que fazem atendimento ao público ficam impossibilitados de testar a medida. >
Na opinião da psicóloga, Gisélia Freiras, diretora de cultura, liderança e diversidade do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças-ES (Ibef), o modelo atual de trabalho no Brasil, ainda é um desafio, quando o foco é adaptarmos às constantes mudanças no mercado e sociedade. Para ela, repensar novas formas de trabalho é estratégico para a manutenção dos processos de inovação.>
“Um dos principais será desmistificar a crença de que a produtividade é proporcional ao número de horas trabalhadas. No Brasil aprendemos que trabalho é vender carga-horária e não serviços, produtos ou competências. Nosso modelo de trabalho ainda é muito engessado, o que dificulta acompanhar as mudanças globais do mercado de trabalho”, comenta Gisélia. >
A sócia do escritório Motta Leal & Advogados Associados, advogada especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, Patrícia Pena da Motta Leal, observa que é preciso ter em mente que empresas que costumeiramente focam apenas na carga horária precisarão elaborar metas específicas por funções, de forma que seja possível controlar a produtividade dos empregados. >
Ela explica que esse formato é um novo tipo de escala de trabalho, que também pode ser chamada de 4x3, pois são quatro dias consecutivos de trabalho e três dias de descanso. Com isso, os contratos de trabalho devem ser alterados, para que sejam adequados a essa escala. >
Conforme a advogada, a legislação trabalhista prevê os limites máximos de jornadas, o que possibilita a nova escala, desde que respeitado o limite de horas de trabalho diárias e o intervalo interjornada. >
“Deve-se ter também em mente que estabelecer esse tipo de escala não deve gerar redução salarial, tendo em vista que o objetivo é manter ou até aumentar os níveis de produtividade. Logo, é fundamental a garantia do salário e demais direitos dos trabalhadores, como 13º e férias, em observância, inclusive, das garantias previstas na Constituição Federal”, ressalta Patrícia.>
Alguns modelos de negócio permitem uma maior flexibilidade nos modelos de trabalho. Um bom exemplo são as startups. Na Persora, por exemplo, a carga horária atual dos colaboradores é de cinco horas diárias. >
“Valorizamos muito o alinhamento cultural e a autonomia do time. O nosso produto é um software para construir times de alta performance, sabemos que a quantidade de horas trabalhadas não é diretamente proporcional à produtividade e ao cumprimento de metas. A nossa expectativa é continuar testando novos formatos que preservem a alta performance do time, mesmo quando a empresa aumentar de tamanho”, comenta a founder e CSO da Persora, Milena Nascimento.>
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