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Impacto do vídeo de Bolsonaro foi menor do que o esperado, dizem analistas

Cientistas políticos avaliam que vídeo mostra um presidente brigando com os ministros de forma infantilizada e desrespeito a instituições, mas que trechos sobre suposta interferência na Polícia Federal abrem margem a diferentes interpretações

Publicado em 22/05/2020 às 21h42
Atualizado em 22/05/2020 às 23h51
Reunião ministerial
Reunião ministerial do dia 22 de abril: teve vídeo divulgado nesta sexta (22). Crédito: Reprodução de vídeo

As imagens da reunião do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) com seus ministros no dia 22 do dia abril foram divulgadas, nesta sexta-feira, em um cenário de muita expectativa no meio político. Mas, mesmo com muitos ataques e palavrões, por parte do presidente e membros de sua equipe, especialistas avaliam que o impacto do vídeo foi menor do que o esperado. 

Cientistas políticos afirmam que, se por um lado a gravação mostrou "um comportamento grosseiro e infantilizado ao estilo Bolsonaro" e um contexto de "desrespeito às instituições e ao cargo que ocupa", por outro traz afirmações subjetivas sobre uma possível interferência na Polícia Federal (PF). Portanto, avaliam que essa interpretação ficará a cargo do ministro Celso de Mello, relator da investigação no Supremo Tribunal Federal (STF).

O vídeo da reunião ministerial foi citado pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro em depoimento à Polícia Federal como principal indício de que o presidente desejava interferir na autonomia da Polícia Federal (PF). O ministro Celso de Mello decidiu torná-lo público em uma decisão de 55 páginas. Ficaram de fora trechos que se referiam a outros países.

Para os analistas, parte dessa quebra de expectativas deveu-se ao fato de que trechos que se referiam diretamente à PF tiveram a transcrição divulgada previamente pela Advocacia Geral da União (AGU). 

O cientista político João Gualberto Vasconcellos comenta que o vídeo não mostra mais do que já se sabe sobre Bolsonaro: "Um presidente estoico (ríspido)". Segundo o especialista, as imagens mostram um presidente brigando com os ministros de forma infantilizada, como se fosse uma "tia velha dando bronca, falando palavras violentas e gritando". 

Ele avalia ainda que ninguém esperava que o presidente fosse conduzir uma reunião ministerial com simpatia. "A reunião parece mais uma grande bronca coletiva exigindo que os ministros se comportem como ele", ressalta.

João Gualberto Vasconcellos

cientista político

"Moro agiu com uma certa ingenuidade política. Quando ele disse que esse documento [o vídeo] seria uma importante prova, a sociedade esperou que fosse ser, por ele ter sido um juiz. Parece-me que a divulgação do vídeo acabou sendo boa para Bolsonaro, porque reforça o posicionamento dele. Até porque, o presidente que mandou gravar, assim como sempre faz para colocar em suas redes sociais"

O cientista político ainda afirma que o vídeo mostra Bolsonaro defendendo suas teses. "Um posicionamento eleitoral ao estilo Bolsonaro. Quem apoia vai achar que está tudo legal e quem é contra vai achar que não mostrou nada diferente do que ele já mostra. Ficou no zero a zero", conclui.

Já o cientista político Fernando Pignaton acredita as imagens mostram que Bolsonaro não trata a presidência como uma instituição democrática do país, que tem sua estrutura moldada para que exista discussão sobre o contrapeso de todos os poderes. 

Fernando Pignaton

cientista político

"Ele [Bolsonaro] reduziu a instituição ampla da presidência como uma coisa quase que familiar, uma oligarquia, com alguns satélites ideológicos e outros que vieram com os militares (que não são o Exército). As imagens mostraram a descompostura institucional da presidência"

Ainda segundo o especialista, do lado jurídico, as imagens são mais um elemento que se somam às declarações do Moro e de outros depoentes. Porém, vai depender do ministro Celso de Mello dar peso ou não a essas provas. "Acho que Bolsonaro falou coisas que, se forem colocadas dentro do contexto, podem fazer com que o magistrado entenda que o presidente queira interferir na PF", expõe.

Para Pignaton,  a repercussão está sendo maior politicamente e institucionalmente do que o contexto em si, que era a de denúncia de uma tentativa de intervenção na PF, o que só agrava a situação do discurso do presidente diante do caso da Polícia Federal. Ele afirma ainda que é preciso que haja cobrança da sociedade e dos poderes para que o presidente respeite a instituição que é o cargo de presidente da República e quais são os seus limites.

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