Mulheres denunciam ataques racistas sofridos em praias de Vitória

Uma designer de interiores e uma modelo foram ofendidas. Nos dois casos, as agressoras não foram identificadas

Publicado em 05/01/2021 às 22h15
Modelo Melissa Maryen foi ofendida no ano passado, na praia da Ilha do Boi
Modelo Melissa Maryen foi ofendida no ano passado, na praia da Ilha do Boi. Crédito: Reprodução/TV Gazeta

Uma designer de interiores e uma modelo denunciaram que foram alvo de ataques racistas em praias de Vitória. Um dos casos aconteceu no sábado (2) na orla da Praia de Camburi, quando a designer Glauce dos Santos foi chamada de "preta", "gorda", "feia" e "burra".

"Fui colocar a água na lixeira e só ouvi uma pessoa gritando atrás de mim 'sai da frente, sai da frente'. Quando percebi que era comigo, ela já tinha se chocado contra mim", lembrou Glauce, em entrevista para a TV Gazeta.

Depois, começaram os ataques. De acordo com a designer, a agressora era uma mulher branca de cerca de 30 anos que disse "sua preta, gorda, feia, e ainda por cima é burra. Vai para sua casa. Você não sabe andar aqui, não devia estar aqui", afirmou.

Designer Glauce dos Santos foi chamada de 'preta', 'gorda', 'feia' e 'burra'
Designer Glauce dos Santos foi chamada de 'preta', 'gorda', 'feia' e 'burra'. Crédito: Reprodução/TV Gazeta

Glauce contou que, na hora, o calçadão estava movimentado. Mesmo com as ofensas, ninguém fez nada para defendê-la. Quando ela estava indo embora, encontrou novamente com a mulher, que voltou a falar com ela. "Me fotografou, me filmou e disse que ia acabar comigo", contou.

Ainda em choque, Glauce gravou um vídeo quando chegou em casa, um desabafo, e postou nas redes sociais. "Me chamou de preta, gorda, feia e ainda por cima burra. Disse que eu era pobre. E qual é o crime, ser essas coisas todas? Qual crime tem isso?", disse.

O vídeo já foi visualizado por milhares de pessoas. Glauce fez um boletim de ocorrência e está com medo. Mas encontrou apoio em outras mulheres que sofreram violência parecida e que também têm esperança de que, um dia, cenas como essa parem de acontecer. Uma dessas mulheres é a modelo Melissa Maryen, que foi ofendida no ano passado, na praia da Ilha do Boi, também por uma mulher.

"Falou que a praia estava mal frequentada, que só tinha preto e favelado. E quando eu levantei, desceu um grupo de amigos com som, e ela falou em alto e bom som: 'agora, sim, chegou a favela toda, um monte de preto", lembrou, também em entrevista para a TV Gazeta.

"Eu fale 'o que você disse?'. Ela falou assim: 'sim, sua negrinha, chega aqui perto de mim'. Eu acho que ela tentou me provocar para ver se eu ia perder minha razão, bater nela. Ela começou a me xingar, disse que eu tinha ido à praia com dinheiro do tráfico, que eu era do morro, que eu era uma preta favelada", disse.

Nos dois casos, as criminosas não foram identificadas. A doutora em direito constitucional Elda Bussinger explicou que, no Brasil, os crimes de racismo e outras discriminações aumentaram por ser, inclusive, incentivados por pessoas públicas.

"Os coletivos negros estão se articulando, estão criando mecanismos para preparar as pessoas para enfrentarem esses crimes. Mas, ao mesmo tempo, vivemos um momento em que as principais autoridades do país têm fomentado uma discriminação entre pessoas, tratando de desigualdades que são de gênero, de raça e de classe social", explicou.

Para Lula Rocha, representante do Círculo Palmarino, um dos movimentos negros do Espírito Santo, é fundamental que haja punição para quem comete esse tipo de crime. "Precisamos repudiar essa conduta e também buscar responsabiliza-la criminalmente, para que isso deixe de acontecer em nossa sociedade", declarou.

Para a designer que foi ofendida no sábado, situações como a que ela viveu precisam ser combatidas. "A gente sabe que isso acontece com mais frequência do que a gente imagina. Isso não pode continuar desse jeito. Nós estamos passando por um tempo tão difícil, com tanta dor, tantas pessoas sofrendo. É um sentimento de tristeza e incompreensão, o por quê de tanto ódio", disse.

COMO DENUNCIAR

Aos que sofreram casos de racismo ou presenciaram esse crime, a Polícia Civil orienta que os cidadãos e cidadãs priorizem os serviços on-line, evitando dirigir-se a uma delegacia física, devido à pandemia do novo coronavírus.

O registro de boletins de ocorrência pode ser feito na Delegacia On-line. Além disso, o 190 deve ser acionado em caso de crime em andamento. De acordo com a polícia, existe na Região Metropolitana de Vitória a Seção de Investigações Especiais, para pessoas vítimas de discriminação racial, religiosa, orientação sexual ou deficiência física.

A unidade foi criada em 2019 é subordinada à Divisão Especializada da Região Metropolitana (DRM) e funciona na Chefatura de Polícia Civil.

Com informações da TV Gazeta

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