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Mães que tiveram filho na quarentena deixam mensagens de esperança

São mulheres que vivenciam as agruras e as alegrias da maternidade sem o apoio dos parentes e amigos, sem  as tradicionais visitas, sem poder mostrar as transformações de seus filhos

Publicado em 10/05/2020 às 07h00
Atualizado em 10/05/2020 às 07h00

Elas não resistem às mãozinhas gorduchas, ao cheirinho típico do bebês ou até ao chute na barriga. Seus filhos nasceram ou estão prestes a vir ao mundo em meio a pandemia decretada pela OMS (Organização Mundia de Saúde), que na próxima segunda completa dois meses. As mães da quarentena vivenciam as agruras e as alegrias da maternidade sem o apoio dos parentes e amigos, sem visitas, sem poder mostrar as transformações de seus filhos.

Mas nem mesmo o cenário de isolamento social, as tentativas de adaptar a nova realidade, enquanto tentam entender como vai ser a vida após o novo coronavírus, tiram delas a esperança de um futuro melhor, com mais segurança, saúde, educação, mais justo, solidário e com mais oportunidades.

Sete delas nos contaram o que sonham para seus filhos. Embora com realidades financeiras, bairros, idades e profissões diferentes, elas têm em comum  o desejo de que seus bebês se transformem em adultos batalhadores, com objetivos, que não desistam de seus sonhos, que ajudem e estejam presentes na vida do outro, e que sejam felizes. Confira abaixo os relatos destas mães: 

A tatuadora Kessy Borges, de 41 anos, teve a filha Martina no dia 11 de abril de 2020, em meio a pandemia. Na foto ao lado da mãe,  Adenir Borges, 62 anos, a Nega Borges
A tatuadora Kessy Borges, 41 anos, a filha Martina, e a mãe, Adenir Borges, 62 anos, a Nega Borges. Crédito: Arquivo pessoal

“SINTO FALTA DAS VISITAS, DA ALEGRIA DE COMPARTILHAR AS TRANSFORMAÇÕES  DA MINHA FILHA”

No dia 11 de abril, um mês após a decretação da pandemia, a tatuadora Kessy Borges, de 41 anos, ganhou seu maior presente: a pequena Martina, sua primeira filha. Fruto de uma gravidez muito aguardada e que foi atravessada por uma pandemia, levando muita preocupação para a sua família. A bebê ainda não conhece os tios e os avós, que só tiveram a oportunidade de acenar para ela da varanda do prédio, momento marcado por muita emoção e lágrimas.

“Minha gestação foi muito tranquila. Eu me preparei para as mudanças que ela traria para o meu corpo e mente. Mas aos sete meses  fui surpreendida com as notícias sobre o novo coronavírus, trazendo dúvidas se seria possível fazer o parto humanizado e tudo o que havia preparado. Nem tudo o que planejei foi permitido, mas a minha filha veio ao mundo com saúde. Minha mãe, Adenir Borges, 62 anos, a Nega Borges, já estava isolada comigo em casa um mês antes do parto e tem me ajudado. Os desafios são diários. Mas não tenho o apoio e a presença das minhas irmãs, dos meus amigos. Sinto falta das visitas, da alegria de compartilhar as transformações da minha filha. Minhas irmãs e irmão vieram para uma visita. Ficaram do lado de fora do prédio, E só a viram de longe, da varanda. Foi uma choradeira e só de falar já me emociono. Meu sogro sonhava com a neta e agora não pode conhecê-la. Mas tenho esperanças no futuro. Como o Papa Francisco disse, as crianças que nascem neste período trazem esperança. Estamos vivendo um período de reflexão, de aprendizado e vamos sair fortalecidos. Espero que minha filha nunca deixe de buscar a verdade interior, o caminho do amor, da positividade. Quero que ela cuide do corpo, do coração e da mente. Se fizer isto, tudo mais será possível.”

Juscileia Matheus de Messias, de 42 anos, e a pequena  Yfis Vitória, que nasceu no dia 2 de maior de 2020, em meio a pandemia do novo coronavírus
Juscileia Matheus de Messias, de 42 anos, e a pequena Yfis Vitória, que nasceu no dia 2 de maio. Crédito: Arquivo pessoal

"ELA CHEGOU DE SURPRESA, MAS É A ALEGRIA DA CASA"

A pequena Yfis Vitória é uma verdadeira surpresa. Sua mãe, Juscileia Matheus de Messias, de 42 anos, só descobriu a gravidez, de alto risco, aos cinco meses de gestação. No último dia 2 ela veio ao mundo para mudar a rotina dos irmãos gêmeos de 23 anos,  e trazer esperança para a família de Itararé, em Vitória, que enfrenta as agruras da pandemia com uma dificuldade a mais: todos estão desempregados.

“Com gêmeos de 23 anos eu não esperava ficar grávida novamente. Mas precisei fazer um tratamento e a medicação interferiu no anticoncepcional. Ela chegou de surpresa, mas é a alegria da casa. Foi uma gestação difícil, de alto risco, com vários problemas de saúde, mas ainda assim Yfis Vitória nasceu no último dia 2, com saúde. É a nossa bonequinha. Sou muito grata a comunidade, aos amigos que nos ajudaram com roupas, fraldas, banheira para a bebê. Em plena pandemia meu filho, que trabalhava com entregas, foi dispensado. Agora estamos todos desempregados. A gente vai levando a vida, sem desanimar. Por enquanto conseguimos pagar as contas deste mês, mas as próximas e o aluguel, ainda não sabemos. Mas espero que o mundo melhore após esta pandemia, com mais oportunidades para todos, mais empregos. Ela ainda é pequena, veio em um momento difícil para criar um filho, mas desejo que ela seja uma guerreira, que batalhe por seus objetivos, tenha força para enfrentar as adversidades, que tenha fé e esperança, e nunca desista de seus sonhos.”

 Liandra Zanetti, jornalista, teve a pequena Alice no dia 26 de março de 2020, em meio a pandemia
A jornalista Liandra Zanette,  com a pequena Alice, ao lado de sua mãe (esquerda) Rosane Tononi, e da sogra, Izabel Zanette. Crédito: Pluma filmes

"EM MEIO AO CAOS, ELA NOS DEU UM SENTIDO PARA VIVER"

Na semana em que o isolamento começou a ser posto em prática no Espírito Santo, nasceu a filha da jornalista Liandra Zanette. A pandemia do novo coronavírus mudou por completo todo o planejamento que havia feito para o seu parto. Não poderia contar com os amigos e a família, que descobririam com eles, na hora do parto, o sexo do bebê. O nome foi escolhido lá no hospital, Alice. “Em meio ao caos, ela nos deu um sentido para viver”, resume a mãe.

“O final da minha gestação foi marcado por dois sentimentos: primeiro a frustração por não ter como executar tudo o que havia planejado para este momento tão especial, que seria partilhado com as pessoas mais importantes, nossos familiares, e que não estariam e nem poderiam estar com ela depois que nascesse. O segundo sentimento era o medo de sair de casa, de ir para um ambiente hospitalar, sem saber o que poderia acontecer. Situações simples e corriqueiras haviam se transformado em um verdadeiro problema.  No dia 26 de março ela chegou saudável e tivemos a oportunidade, só eu e meu marido, de ficarmos com ela, juntos, fortalecendo a nossa família. Em casa, nossas mães nos aguardavam. Tinham passado por um período de quarentena para vivenciarem conosco os primeiros dias da neta. Foi emocionante o encontro delas com a  Alice. Os demais familiares só a viram de longe, sem poder pegar, abraçar. Eles a acompanham por um grupo de whatsapp que criamos com nossos familiares. O primeiro mesversário de Alice foi apenas com a nossa pequena família, sem os parentes. Não há visitas. É muito difícil esta distância. Mas ela trouxe um novo sentido para o nosso amor. Em meio ao caos, ela nos deu um sentido para viver. E neste mundo que está descobrindo a importância de se humanizar, da solidariedade, da empatia, desejo que ela cresça valorizando estes sentimentos. E que ela possa viver em um momento diferente, onde  haja amor, respeito e menos julgamento. ”

Tuania Oliveira de Souza, de 37 anos, mais de cinco filhos, aguarda o nascimento do sexto filho para o final de maio, em meio a pandemia. Teve um filho assassinado em março
Tuania Oliveira de Souza, 37, com dois dos seus cinco filhos e o neto mais velho. Ela teve um filho assassinado em março. Crédito: Arquivo pessoal

"QUERO PARA MEU FILHO UM MUNDO MAIS JUSTO, SEM TANTA DOR"

O bebê de Tuania Oliveira de Souza, de 37 anos, deve chegar no início do próximo mês. Mãe de outros cinco filhos e de dois netos, ela vivencia  as dificuldades de uma gestação marcada por muito sofrimento. No final de março o seu filho mais velho, de 23 anos, foi assassinado. “Morreu por uma conta de água”, desabafa, em lágrimas. Sem dinheiro para comprar o enxoval, ela vive de doações de cestas básicas. Aguarda a chegada de Arthur alimentando a esperança de que as mudanças tornem um mundo o local mais justo. “Sem tanta dor”, desabafa.

“Eu trabalhava na casa de uma família, mas fui tendo vários problemas de saúde e acabei demitida. Estou vivendo do auxílio do governo e da ajuda das cestas básicas. Tem sido uma gravidez difícil. Não consigo superar a dor de perder meu filho mais velho… (lágrimas) Falava com ele todos os dias. Hoje, quando vejo meu neto de 3 anos e a netinha de 8 meses, filhos dele, meu coração fica apertado de saudades. Tinha 23 anos e morreu por uma briga boba, por uma conta de luz. O assassino fugiu. Ainda não consegui comprar nada para o bebê, as lojas estão fechadas. Mas ganhei algumas roupinhas. Tenho medo de ir a um hospital, por causa da pandemia. Por outro lado, cuidei tanto da saúde do meu filho mais velho e ele acabou morto. Vivemos em um mundo que precisa mudar. As pessoas precisam mudar, aprender a amar, a não tirar a vida do outro, a não fazer outros sofrerem. Espero que meu bebê, Arthur, possa estudar, ser alguém na vida, ser feliz.”

Karin Brandão Bruce com  Raul, que nasceu  no dia 31 de março de 2020, em meio a pandemia
Karin Brandão Bruce com Raul, que nasceu  em meio a pandemia do novo coronavírus. Crédito: Arquivo pessoal

"TEMOS QUE TER ESPERANÇA NA HUMANIDADE, DE QUE ELA TENHA MAIS EMPATIA"

A doula e nem a irmã pode ajudar no parto de Karin Brandão Bruce. Restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus. Raul chegou no dia 31 de março, quando os casos  da doença começavam a se alastrar pelo Estado. As preocupações finalizaram uma gravidez tranquila, que a permitiu realizar o sonho de ter um parto humanizado. Mas apesar de todas as dificuldades, a mãe torce por um mundo mais humano para seu filho.

“O primeiro impacto foi chegarmos ao hospital de máscaras, assustados, com medo do que poderia acontecer. Minha irmã tinha feito até um curso para, com a doula, participar do parto, mas isto não foi permitido. Mas consegui fazer o parto humanizado e o nosso Raul chegou saudável e tranquilo. Nossa família não pode participar deste momento e só viram nosso filho de longe, com máscaras. Uma visita doída, chorosa, emocionante. Cuidar de um bebê  não é fácil, mas a pandemia tornou tudo mais difícil.  Temos ficando em casa e minha sogra faz comida e deixa em nossa porta. A minha sorte tem sido esta rede de apoio de familiares e o meu marido estar em casa, em home office. Não estou muito otimista, mas temos que ter esperança na humanidade, de que ela tenha mais empatia. É o que espero para meu filho, que ele tenha a capacidade de se colocar no lugar do outro, que tenha compaixão, que seja uma pessoa boa.”

A psicóloga Lucení Bezerra com o pequeno Alexandre, que nasceu no dia 5 de abril
A psicóloga Lucení Bezerra com o pequeno Alexandre. Crédito: Arquivo pessoal

"ESPERO QUE MEUS FILHOS  CULTIVEM A COMPREENSÃO, O RESPEITO E O AMOR ENTRE  ELES"

Com o apoio da mãe, a psicóloga Lucení Bezerra, vem cuidando do seu mais novo pimpolho, Alexandre. Ele nasceu no dia 5 de abril e já é o xodó do irmão Heitor, de 3 anos. A mãe relata que a pandemia traz insegurança e uma solidão materna maior, uma vez que no momento de compartilhar emoções, não há ninguém. Ela tinha programado de levar o filho mais velho ao hospital para conhecer o irmãozinho, para ter um momento especial dos pais com os filhos. Mas nada disto pode acontecer.

“Planejava um parto normal, mas não houve dilatação e foi feita uma cesárea. Já estávamos em isolamento e fiquei muito preocupado com meu esposo, que é médico,  D não poder estar lá, de não podermos receber visitas. Mas tudo deu certo e Alexandre veio saudável. Mas a pandemia traz uma insegurança e uma solidão materna maior, uma vez que no momento de compartilhar emoções, não há ninguém. Tínhamos programado de levar o nosso filho mais velho ao hospital para conhecer o irmãozinho, para ter um momento especial dos pais com os filhos. Mas nada disto pode acontecer. Minha mãe, Rita Bezerra, mora comigo, mas vai comemorar o seu dia sem poder ver os outros filhos. Meu marido usa máscara para pegar nosso filho. Tem mantido o menor contato possível para evitar contaminação. O que entristece é a falta de empatia das pessoas, o desrespeito com o isolamento social. Ignoram o quanto isto pode prejudicar outras pessoas. Mas espero que meus filhos cresçam e cultivem a compreensão, o respeito e o amor entre eles e com as outras pessoas.”

"NÃO SABEMOS COMO SERÁ O FUTURO, MAS QUERO QUE A MINHA FILHA SEJA FIRME"

Grazielly Rezende Rolim, 22 anos, aguarda a chegada de seu bebê para o início de agosto. Aos seis meses de gestação, ajuda a família a carregar brita e areia que vão ser utilizadas na montagem da estrutura que permitirá a ampliação de sua casa. A pequena Íris  será a irmãzinha de Heitor, de 4 anos, companheiro da mãe em todas as ocasiões. “Não tenho com quem deixá-lo ,mas enfrento dificuldades até para fazer compra. Por causa da pandemia, não deixam crianças entrarem nem no supermercado”, relata a moradora de Resistência, na Grande São Pedro, em Vitória.

“Estou com quase seis meses de gestação e preocupada com este novo vírus. A gente não sabe o que pode acontecer. E se for contaminada, o que acontece com o bebê? Como ele será afetado? Ninguém tem a resposta e é assustador. Mas estou bem, ajudando a carregar brita e areia para construir a estrutura da casa. Depois vamos bater a laje. (Conta em meio a risos) Com um filho de 4 anos, não tenho como ficar muito isolada. Meu marido trabalha e quem resolve tudo sou eu. E com a pandemia as dificuldades são maiores. Não tem creche e não tenho com quem deixá-lo, mas enfrento dificuldades até para fazer compra. Por causa da pandemia, não deixam crianças entrarem nem no supermercado, por exemplo. É difícil. Mas estou feliz que vai nascer uma menina, Íris. Não sabemos como será o futuro, mas quero que ela estude, que seja firme e lute por um mundo melhor.”

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