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Hospital Jayme Santos Neves, na Serra, vai receber os pacientes vindos de Santa Catarina
Hospital Jayme Santos Neves, na Serra, vai receber os pacientes vindos de Santa Catarina. Crédito: Fernando Madeira

Covid-19: a agonia de quem espera por uma vaga na UTI em Santa Catarina

Por causa do colapso no sistema de saúde em Santa Catarina, o governo do Espírito Santo destinou 15 leitos para atender pacientes vindos de hospitais do estado do Sul do país

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 05/03/2021 às 13h14

Os pacientes diagnosticados com o quadro grave da Covid-19 em Santa Catarina, no Sul do país, vivem o drama da espera por um leito de UTI. O sistema de saúde do Estado entrou em colapso após uma explosão de internações provocadas pelo novo coronavírus nas últimas semanas. Há mais de 200 pacientes na fila de espera por um leito em uma Unidade de Terapia Intensiva. Por causa da crise sanitária, o governo sulista iniciou a transferência de alguns internados.

Como forma de apoio, o governador do Espírito SantoRenato Casagrande, disponibilizou 15 leitos do Hospital Dr. Jayme Santos Neves, na Serra, para receber pacientes vindos da cidade do Sul. O primeiro a ser deslocado foi o motorista Daniel Pegoraro, de 34 anos. Ele chegou nesta quarta-feira (3) em um avião do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina.

Daniel estava internado ao lado da mãe, a costureira Margarida Pegoraro, de 70 anos, que também foi diagnosticada com coronavírus. Antes de ser intubado, ele acompanhou a evolução do tratamento dela. A matriarca ainda espera por um leito de UTI. Os dois foram os únicos  da família que foram infectados pelo vírus.

Ele trabalha como motorista de cargas perigosas e mora com a esposa, a professora Eliane Schmitz Pegoraro, de 30, e a filha Danieli, de 5 anos, em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina. Eliane contou que os sintomas do marido começaram no dia 20 de fevereiro. Com tosse, dores nas costas e no peito, ele foi ao Ambulatório de Campanha instalado ao lado da Arena Condá, no Centro.

Daniel Pegoraro e a filha Danieli. Crédito: Acervo pessoal
Daniel Pegoraro e a filha Danieli. Crédito: Acervo pessoal

“No sábado e domingo ele começou a tomar os remédios. Na segunda, começou a dar uma piora. Sentia falta de ar e cansaço. Na terça, só queria ficar deitado por causa das dores. Na quarta, ele piorou e foi para a UPA. Na quinta, ele estava no oxigênio, mas mandava mensagem dizendo que estava ruim. Na sexta, ele foi intubado”, relembra a professora.

O motorista e a família moram no Distrito de Marechal Bormann, mas foi internado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Presidente Médici. Na sexta-feira (26) ele mandou um áudio à esposa pelo WhatsApp avisando sobre seu estado de saúde. Na mensagem, o paciente está ofegante e com falta de ar. Ouça o áudio.

Daniel Pegoraro

Paciente com Covid-19

"Oi, amor. Acharam melhor intubar por uns 10 dias. Fica tranquila. Amo todos vocês. Vai dar tudo certo"

Após o procedimento, Eliane recebia informações sobre o quadro clínico do marido diariamente. Em um desses boletins, na tarde de terça-feira (2), soube que Daniel seria transferido para o Espírito Santo. Ela conta que, na hora, ficou angustiada pela distância, mas assinou o termo de autorização para que o transporte e o atendimento fossem realizados.

Eliane Pegoraro

Esposa de Daniel

"Coloquei toda minha fé e acredito que o meu marido vai ficar bem, que aí tem o suporte que ele precisa de medicamento, de aparelho, de tudo. Graças a Deus notei que o hospital é bom, que eles se importam com os familiares que ficam aqui angustiados. Estamos nessa luta esperando que ele volte para casa"

Eliane conta que a filha deles, a pequena Danieli, sente muita falta do pai. Ao saber que o pai iria viajar para receber atendimento em outro estado, a menina pediu para a mãe avisar que sentiria saudade e exigiu que o pai voltasse logo para casa. A criança retratou o desejo de melhora e retorno de Daniel através de um desenho feito por ela. 

Desenho feito pela filha de Daniel Pegoraro. Crédito: Acervo pessoal/Danieli
Desenho feito pela filha de Daniel Pegoraro. Crédito: Acervo pessoal/Danieli

Ao todo, 15 pacientes devem ser transferidos para o Espírito Santo. O hospital capixaba deve atender catarinenses internados no Hospital Regional do Oeste, de Chapecó, Hospital São Paulo, de Xanxerê, e Hospital Terezinha Gaio Basso, de São Miguel do Oeste. As unidades ficam no Oeste do Estado, região mais crítica no enfrentamento à pandemia.

Aeronave do Corpo de Bombeiros transfere primeiro paciente de Covid-19 de Santa Catarina para o Espírito Santo
Chegada em Vitória do primeiro paciente de Covid-19 transferido de Santa Catarina. Crédito: Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC)

FILA DE ESPERA

Agora que a internação de Daniel em um hospital estruturado está resolvida, a família se volta para a realidade da mãe dele. Dona Margarida, de 70 anos, aguarda a liberação de um leito especializado para dar prosseguimento ao tratamento contra a Covid-19.

“Segunda-feira (22 de fevereiro), ela começou a sentir dor no corpo e tosse, como se fosse gripe. Na quarta ela ficou o dia inteiro na cama e na quinta-feira foi levada para o posto de saúde. Na segunda-feira desta semana ela foi intubada e agora precisa de uma UTI para sobreviver. Estamos orando para Deus abençoar e não faltar leito para ninguém”, desabafa Eliane.

FALTA DE LEITOS

A situação em Santa Catarina é delicada. Na tarde desta quinta-feira (4), o governo estadual informou que foram confirmados casos em todos os 295 municípios catarinenses e 279 cidades registraram pelo menos um óbito. A estimativa é de que haja casos ativos em todas as cidades.

Até o momento, o Estado conta com 694.274 casos confirmados de Covid-19. Desses, 648.731 são considerados recuperados e 37.834 continuam em acompanhamento. Desde o início da pandemia, 7.709 mortes foram causadas pelo novo coronavírus. Esses números colocam a taxa de letalidade em 1,11%.

Um levantamento feito pelo G1SC indica que, até terça-feira (2), 35 pacientes infectados morreram em Santa Catarina enquanto aguardavam por leitos especializados para a doença, seja em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) ou enfermaria. As informações foram obtidas após solicitações feitas aos hospitais e prefeituras de cidades do Oeste e ao Conselho Regional de Enfermagem (Coren-SC).

"PARECE QUE A GENTE NÃO SE DESPEDIU"

O acesso a um leito especializado ou a oportunidade de transferência para outro estado não alcançou o caminhoneiro Iolar Zampiron, conhecido como Seu Lalá, de 63 anos. Ele morreu na madrugada do último domingo (28) após passar seis dias esperando uma vaga na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital Regional São Paulo (HRSP), em Xanxerê, Santa Catarina.

Gabriela Zampiron

Filha de Iolar

"Tenho certeza que se tivessem dado um tratamento adequado e se tivesse um leito, ele teria se salvado. O mais triste foi não poder velar ele. Ter de colocá-lo numa lona, num caixão e não poder dar um sepultamento digno. Ele morreu às 8h45 e às 13h já estava enterrado. Parece que a gente não se despediu e fica a sensação de que ele vai voltar, mas não vai, não é?"

Seu Lalá era caminhoneiro e foi diagnosticado com coronavírus no dia 15 de fevereiro. Segundo Gabriela, no mesmo dia, o pai recebeu um relaxante muscular, por causa das dores no corpo, e voltou para casa para cumprir o isolamento. A mulher dele também estava diagnosticada com a doença.

No domingo (21), após seis dias da confirmação da infecção, o caminhoneiro teve uma piora no quadro de saúde e precisou ser hospitalizado. De acordo com Gabriela, o pai dela ficou sentado em uma poltrona, dentro do hospital, com o oxigênio. Na madrugada de domingo (28), ele teve febre alta e uma parada cardiorrespiratória e não resistiu. A filha fez uma publicação nas redes sociais.

Ele deixou a esposa, três filhos e um neto pequeno. Ao ser questionada pela reportagem sobre a transferência dos pacientes para outros estados, a filha de Seu Lalá reconhece a importância da solidariedade neste momento. Na avaliação dela, muitas pessoas ainda não entenderam a gravidade da doença e desrespeitam as determinações de distanciamento social e uso de máscara.

“Se acontecesse dele precisar ser transferido, eu ficaria muito grata. Em outra fase, nós também recebemos pessoas do Amazonas. Agora é hora de pensar em se dar as mãos e todo mundo se ajudar, todos os governadores se unir em busca de um tratamento adequado para todo mundo. Acredito em Deus e penso que a pessoa que teve essa iniciativa de transferir os catarinenses para aí, com certeza, foi tocada por Deus”, revela.

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