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Corrente de retorno: entenda o que é e como se livrar de afogamentos

Fenômeno está presente em várias praias do Espírito Santo e é possível identificá-lo visualmente. Especialistas explicam como ele se forma

Tempo de leitura: 3min
Vitória
Publicado em 18/12/2018 às 16h36
Atualizado em 05/01/2020 às 18h39
Corrente de retorno representa perigo para banhistas nas praias
Áreas em que não há formação de ondas podem indicar a presença de uma corrente de retorno. Crédito: Reprodução

Verão combina com praia e, no calor, quem resiste a um bom mergulho no mar? No entanto, justamente nesse cenário prazeroso, está "escondido" um fenômeno que gera inúmeros afogamentos por ano: as chamadas "correntes de retorno" – que podem acontecer em várias praias da Grande Vitória. A reportagem de A Gazeta entrevistou três especialistas para esclarecer as principais dúvidas sobre o assunto.

O QUE É UMA CORRENTE DE RETORNO?

Primeiramente, é importante entender que a corrente de retorno é transversal à praia. Ou seja, ela se assemelha a uma espécie de corredor que se forma na parte mais rasa do mar em direção às regiões mais fundas. Subchefe do Departamento de Oceanografia e Ecologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a professora Jacqueline Albino explica como o fenômeno acontece.

"A corrente de retorno ocorre quando há uma convergência de duas ondas. Nesse ponto de encontro, o volume de água vai ser maior, assim como a energia. Então, em vez da energia da onda se dissipar no espraiamento depois da arrebentação, ela retorna. Com essa força, a água é capaz de carregar sedimentos e até uma pessoa", afirma.

Com essa mudança no sentido, a água faz com que a profundidade do mar seja maior nesse "corredor" e quanto maior ela for, maior será a velocidade da corrente. Assim, o banhista pode ser levado para uma área que não dá pé e se desesperar ou cansar na tentativa de nadar de volta para o raso.

QUANDO AS CORRENTES DE RETORNO ACONTECEM?

Além do encontro das ondas, a especialista explica que há outros fatores que influenciam na formação das correntes de retorno, como a inclinação da praia e a exposição dela. "É preciso ter uma declividade média ou alta depois da arrebentação. Praias que são mais expostas e abertas também propiciam a formação", disse Jacqueline Albino.

Especializado em Oceanografia Física pela Ufes, o mestre João Koppe ressalta que outras variáveis interferem no surgimento dessas correntes, como o movimento da água ao longo da praia, o volume da maré e até a fase da lua. "Quanto menor a maré, maior a probabilidade de retorno, e a maré baixa é intensificada nas luas cheia e nova", esclarece.

Segundo o oceanógrafo, se o vento estiver soprando de forma longitudinal (no sentido do comprimento da praia), o fenômeno também é favorecido. Por outro lado, se a praia for mais acidentada ou tiver pedras (formando o que é chamado de "terraços de abrasão"), a chance de ocorrência é menor.

TODAS AS PRAIAS TÊM CORRENTES DE RETORNO?

De acordo com a professora Jacqueline, as correntes de retorno são típicas de algumas praias e podem ser "temporárias associadas" em outras. Isso significa que, em locais em que geralmente não há ocorrência, dependendo do nível do mar, da intensidade e sentido do vento e da ocorrência de tempestades, o fenômeno pode, sim, acontecer.

COMO IDENTIFICAR UMA CORRENTE DE RETORNO?

De acordo com os especialistas ouvidos por A Gazeta, há três formas principais de identificar uma corrente de retorno:

  • Cor da água: a região da corrente de retorno terá a água mais turva, mais escura, por causa dos sedimentos que estão sendo levados e remexidos. A faixa escura, chamada de "língua", vai em direção ao fundo do mar.
  • Forma da praia: quando há corrente de retorno, a faixa de areia perto do mar apresenta ondulações, com partes mais altas e baixas. O lugar que está mais baixo indica o transporte de sedimento e a presença do fenômeno, seja naquele exato momento ou em ocasiões próximas.
  • Ausência de ondas: como a corrente de retorno acontece quando a água está voltando para o fundo do mar, a região em que ela se dá não tem arrebentação de ondas.

Jacqueline Albino

Subchefe do Departamento de Oceanografia e Ecologia da Ufes

"Quem não é habituado com o mar acha que é mais seguro ir para onde não tem onda quebrando. Só que é, justamente, lá que pode ter uma corrente de retorno que vai puxara pessoa para uma região mais profunda"

COMO SAIR DA CORRENTE DE RETORNO?

Se você esquecer dos três tópicos acima e acabar caindo em uma corrente de retorno, o primeiro passo é manter a calma. Sem desespero, a orientação do salva-vidas Roberto Emblich é nadar para os lados – jamais contra a corrente, em direção perpendicular à areia da praia.

Roberto Emblich

Salva-vidas

"A pessoa tem que nadar para direita ou esquerda. Se nadar contra a corrente, vai ter dificuldade para respirar, engolir água e se apavorar. Dessa forma, ela vai acabar sendo levada para o fundo e se afogando"

A orientação, claro, tem embasamento na formação do fenômeno. "Às vezes, a corrente nem leva o banhista para tão longe, mas a velocidade do nado pode ser inferior à da corrente, gerando o cansaço e o afogamento pela fadiga. O segredo é nadar para onde as ondas estão arrebentando e aproveitar o embalo para voltar à praia", complementa Jacqueline.

VÍDEO: VEJA COMO ESCAPAR DA CORRENTE DE RETORNO

ONDE AS CORRENTES DE RETORNO SÃO FREQUENTES?

Lembrando que as correntes de retorno podem acontecer em inúmeras praias, mesmo que sob condições específicas e mais esporádicas, a professora Jacqueline Albino elenca algumas localidades do Espírito Santo em que o fenômeno comum. Entre elas, há várias que são muito procuradas por turistas e capixabas durante o verão:

  • Itaparica (Vila Velha)
  • Itapuã (Vila Velha)
  • Meaípe (Guarapari)
  • Itaúnas (Conceição da Barra)
  • Marataízes
  • Barra do Jucu (Vila Velha)
  • Maembá (Anchieta)
  • Comboios (Linhares)

"Na Serra não tem muito porque as praias têm estruturas duras na região de arrebentação, como é caso de Manguinhos. Praias mais fechadas como a Curva da Jurema (Vitória), Peracanga e Enseada Azul (Guarapari) também não costumam registrar correntes de retorno", conclui a oceanógrafa.

ALGUÉM ESTÁ SE AFOGANDO. O QUE EU FAÇO?

Consciente do fenômeno e de como escapar, você não caiu em uma corrente de retorno, mas vê alguém se afogando em uma: o que fazer? "Quem não é habilitado, que não tem curso de salvamento, pode tentar ajudar e se afogar também. O que essa pessoa pode fazer é jogar uma prancha ou boia e procurar o salva-vidas", orienta Roberto.

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