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Publicado em 4 de abril de 2021 às 07:00
Pelas paredes do Convento da Penha se espalham placas feitas em mármore, madeira ou azulejo que estampam a dor, o sofrimento e a devoção de pessoas que recorreram à ajuda divina para enfrentar problemas da vida. É a materialização da gratidão de famílias que encontraram em Deus e em Nossa Senhora da Penha a graça que precisavam em todas as áreas da vida. >
O costume é tão antigo que é difícil datar exatamente quando as primeiras foram colocadas nas paredes, de acordo com o doutor em Ciências da Religião e professor aposentado da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Edebrande Cavalieri. Especificamente no Convento da Penha, a prática começou a ser feita desde o início da chegada do frei Pedro Palácios ao Estado, em 1558. Ele foi o fundador do Convento, começando pela construção da Capela em homenagem a São Francisco de Assis, em 1562.>
“Em todos os grandes santuários, lugares de peregrinações é costume estar presente esse conjunto de placas, imagens, objetos. Sempre se encontra uma sala dos milagres, por exemplo. A origem vem da religião católica, do cristianismo do período colonial. No caso do Convento, as devoções vão surgindo de fatos pontuais e logo começaram a explodir. As pessoas já tendem a colocar aos pés do lugar sagrado esses objetos. Não sabemos qual foram os primeiros, porque as pessoas destruíram”, aponta.>
O estudioso ressalta que essas placas representam a necessidade de um povo, o que tem grande relevância histórica e antropológica. Em seu ponto de vista, é preciso ler esses sinais e enxergar uma interpretação que vai muito além do superficial. >
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Edebrande Cavalieri
Doutor em Ciências da ReligiãoA devoção e a necessidade de recorrer ao poder divino, destaca, revela ainda um povo que muitas vezes não era assistido pelo Estado. “Na medida que o povo não tinha o Estado a quem recorrer em momento de saúde ele recorre a Deus, ao sagrado, no momento da doença e faz a promessa. Estabelece uma relação complexa. É uma relação de dor, muita dor, sofrimento”, salienta.>
As demandas abrangem os mais variados temas. São problemas de saúde, dificuldades financeiras e até espirituais. No caso de Karolline Biondo Rodrigues, de 29 anos, a placa representa a gratidão da família por uma cura recebida. Quando tinha pouco mais de um ano, o município de Guaçuí, no Sul do Espírito Santo, onde mora, passava por um surto de meningite. Karolline desenvolveu um dos graus mais severos da doença e precisou ser transferida para Vitória, onde iniciou o tratamento. Ela precisou ser intubada e fazer traqueostomia. >
Karolline Biondo Rodrigues
Médica que passou por uma experiência de cura
Enquanto estava na Capital para o tratamento da filha, a mãe de Karolline, Simone Moreira Biondo Rodrigues, foi ao Convento da Penha e se confessou com um dos freis. No dia seguinte, estava marcada uma cirurgia para amputar os dois pés da criança, já necrosados pela meningite. >
"Ela contou para ele o que estava acontecendo e levou meu vestido de batizado. Como eles já tinham alegado que não teria como fazer mais nada, ela levou meu vestido de batizado pensando até em enterrar mesmo. E o frei falou para ela não ficar desesperada porque Deus estava com ela. Ele disse 'sua filha está curada, tenha fé e não desanime'", relata Karolline. >
No dia seguinte, quando chegou ao hospital, Simone recebeu uma boa notícia de uma das médicas. "A médica falou 'não sei o que aconteceu, mas estava previsto a amputação dos dois pés, mas agora só vamos precisar tirar a ponta dos dedos", recorda. Depois do episódio, um dos tios de Karolline mandou fazer a placa para ser colocada aos pés de Nossa Senhora da Penha. Cerca de dois meses depois, a menina saiu do tubo e foi para casa.>
"No dia que tive alta a minha mãe me levou até o convento para assistir à missa. Meu tio colocou a placa que está no convento até hoje. Tive minha vida de volta graças a Deus e a nossa senhora da Penha, e hoje sou da área da saúde. A gente é só instrumento de Deus, tem coisa que a gente vê que não tem volta, mas Deus tudo pode", finaliza.>
Karolline cresceu, se formou em medicina, se casou e é mãe. A placa, continua no convento. "Nossa Senhora da Penha representa muito na minha vida. Se hoje eu tenho fé, força e saúde é através dela, que todos os dias me move, me toca para alcançar dias melhores como alcancei o meu milagre", pontua.>
História semelhante é a de Virgínia Lucia Rodrigues Passos, de 54 anos. A placa colocada como agradecimento por sua vida já tem mais de três décadas. A mãe de Virgínia mandou fazer o objeto como agradecimento pela graça recebida durante uma cirurgia de alto risco, que a capixaba passou quando tinha 18 anos.>
"Foi em 1984, ela fez uma promessa antes de eu fazer a cirurgia, levou dois ônibus com familiares e outras pessoas. Foi primeiro no Convento da Penha e depois foi para Aparecida", relembra. Virgínia sofria com um problema no maxilar e também no tendão de Aquiles. A mãe percebeu a dificuldade quando ela tinha apenas 5 anos e passou longos anos buscando em diversos médicos uma solução.>
Depois de percorrer por inúmeros profissionais, Virgínia acabou nas mãos de um médico carioca que resolveu fazer as duras cirurgias no mesmo dia. A operação teve mais de sete horas de duração, como lembra a capixaba, mas teve um resultado satisfatório. "Soltaram mais de 3 cm do meu tendão de aquiles, recebemos a graça de correr tudo bem", relembra. >
Como gratidão, a família colocou a sinalização na parede do Convento. >
Em mais um caso de saúde, a bênção recebida pela família de Ricardo Batan Rios Regis, de 57 anos, é ainda mais antiga. Na década de 1920, o avô de Ricardo, Manoel Rios, conhecido como Duca, teve uma doença séria, que a família nem sequer sabia do que se tratava. "Meu avô pegou uma doença que a gente nem sabe dizer muito bem o que era. As tias, a minha mãe, diziam que ele teve Tifo, que é uma doença europeia que ninguém conhecia. Nisso, minha bisavó, Albina, ficou com muito medo dele partir, dele morrer", relata.>
A bisavó, então, resolveu fazer uma promessa para Nossa Senhora da Penha, para que o filho fosse curado. "Pelas mãos de Nossa Senhora da Penha meu avô conseguiu a sua vida”, assinala Ricardo. >
Como resultado, toda a família é devota de Nossa Senhora da Penha e segue participando das romarias da Festa da Penha, como prova da gratidão. "Nossa família sempre foi uma família que é devota de Nossa Senhora da Penha. Nossa Senhora sempre colocou sua mão sobre nossa família e ultimamente, agora esses dias, tivemos outras duas graças alcançadas que os filhos de Duca foram agraciados com a vida por Nossa Senhora da Penha. Ela nunca nos abandonou, e assim sempre teve e tem nossa devoção", assinala Ricardo.>
Para a família Agatti, no entanto, a ajuda de Nossa Senhora veio por meio de uma orientação. Joana Fernandes Agatti relata que chegou ao Espírito Santo em 1982, um ano após o marido perder 100% da audição de um ouvido e 80% do outro. O marido trabalhava em uma empresa que prestava serviços para a Petrobras e nenhum advogado queria pegar a causa para brigar por uma aposentadoria por invalidez. >
O casal chegou a Vitória, mas se deslocava ao Rio de Janeiro duas ou três vezes por semana, onde ficava o escritório da empresa, para tentar conseguir a aposentadoria. "Chegamos no Rio, a empresa fez dele um papel rasurado, depois de 26 anos de trabalho. Eu estava revoltada por eles não darem assistência nenhuma a ele", conta.>
"Me vi perdida no Rio de Janeiro para tomar as iniciativas necessárias para a aposentadoria dele. Ia pra lá e dormia na rodoviária. Lutei muito, eu procurei sindicato, procurei advogado, comprava o jornal para ler, para procurar, sou dona de casa, nunca trabalhei fora, meu grau de cultura era primário, mas ninguém queria pegar a causa dele", relembra. Começou, então, a apelar para Nossa Senhora. Joana relembra passar dia e noite rezando o terço e pedindo a Deus uma orientação.>
Joana Fernandes Agatti
Devota de Nossa Senhora
"Eu estava na fila na praça da Bandeira, onde ele fazia a perícia, quando vi um marinheiro eu me dirigi a ele para pedir ajuda, foi Nossa Senhora que colocou aquele homem na minha frente. Ele me orientou e eu fui na superintendência do INPS e eu consegui aposentar meu marido em pouco mais de dois anos, em nome de Deus e de Nossa Senhora", relata.>
Placas de agradecimento expostas no Convento da Penha
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